Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-05-2010

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

O CASO DO PADRE DE PAINZELA (II)
Porque entrou o “Povo de Cabeceiras” na disputa? Porque estava em jogo o nome do Pe Vilela, que se congraçara novamente com o semanário progressista e pelo mesmo fora defendido no contestado caso do provimento da igreja de Refojos. E assim as culpas do incidente foram atiradas para as costas de um “tal Moreira”, que logo o Jornal de Cabeceiras identificou como sendo o Sr. João Cândido Moreira, que classificou como um “negociante sério e cidadão honesto, de bons princípios e de excelente educação”.
As coisas vão de mal a pior, pois a justificação do “Povo” não passa de um “imenso pastel mal cozinhado e indigesto”. O apelido do Padre passa a ser jogado livremente: “Padre Pina” ou “Pina Padre”.
O Sr. João Cândido Moreira, atingido pela insinuação do “Povo” escreve uma carta, publicada no Jornal de Cabeceiras, onde se diz entre outros ditirambos: “Vossa senhoria faz muito melhor figura quando atravessa a Praça da República em busca de louvores, gingando com a bengala, de cabeleira apartada, chapéu ao lado, casaquinho curto, côr do céu tormentoso e rachadela no lugar próprio, do que a escrever narrático”.
Os leitores acham que “esta carta está tão bem escrita que corria que a mesma tivesse sido escrita por um diplomado em direito, muito conhecido no meio cabeceirense”.
O semanário regenerador recusa a insinuação, garantindo “que o autor da carta era o Sr. Moreira” e apresenta mais um caso da prepotência do pároco de Painzella, pois negou-se a rezar a missa e a acompanhar o féretro do infeliz Eduardo Pereira Madanços, que se realizara no dia 14 de Março. Esta atitude provocou revolta e indignação entre os presentes, tendo o padre alegado que se limitava a cumprir ordens dos superiores hierárquicos”. Pedia-se a intervenção do arcipreste e do arcebispo. O Jornal de Cabeceiras declara dar por encerrado este assunto pelo que publica na semana seguinte esta nota:
Pela Última Vez
Padre Pina, logo depois do Entrudo, desmascarou-se de vez: atirou para longe a hypocrisia da batina; desprendeu-se da apoplexia do cabeção; arregaçou as mangas da jaleca bragueza e ei-llo no lodaçal imundo da sua estupidez”
[...]É simplesmente um padre malandreco e rufião: o verdadeiro e genuíno Pina bandalho.

Mas o pároco de Refojos, Pe Vilela, atacado várias vezes pelo seu conluio com o colega de S. Nicolau, resolveu dar-lhe força e resolve também adoptar o mesmo sistema da eça na paróquia da Vila. Obrigou o Jornal de Cabeceiras a voltar à liça, escrevendo:
“O Sr. Vigário tem um cunhado armador, em casa do qual vive; e d’ahi custa-lhe que o parente não exerça mais a miude a sua indústria. […]Ora, hontem (7 de Maio de 1910) foi conduzido para a igreja de Refojos um cadáver duma mulher paroquiana de Refojos e, por vontade da família, o cadáver foi depositado no solo da igreja, sobre um pano preto. O Vigário não quis e exigiu “que o depósito fosse no chão, mas sim em uns bancos que, de antemão, tinha preparados”.
Resultado: a família não aceitou, o padre chamou o administrador e este ameaçou da prisão quem não cumprisse as ordens do pároco…

UM TRISTE MÊS DE MAIO (I)

O mês de Maio foi dos mais tristes da história do nosso concelho. A pesada espada da “justiça” governamental do ministério progressista de Veiga Beirão, já quando se lhe cantava o “De Profundis”, caiu sobre Cabeceiras. A notícia começou a correr em meados de Abril, levando o “Jornal de Cabeceiras” a publicar um editorial intitulado “Em Alarme (I)” em que dá conta de que iria a assinar o decreto que extinguia a Escola Municipal Secundária, vulgarmente conhecida por “Lyceu”.
Não era boato. Alegando a falta de regularidade e disciplina e que já tinha deixado de funcionar, o decreto de 31 de Março, assinado pelo Rei e pelo ministro Dias Costa, extinguia a Escola, mandava entregar o arquivo da secretaria ao Lyceu Central de Braga e considerava o único professor como adido, ficando a aguardar vacatura.
O decreto viu a luz do dia pelo Diário do Governo nº 98, de 6 de Maio e desencadeou uma vaga de manifestações e protestos, com sessão camarária extraordinária, representações ao Rei e ao Governo. Este manteve-se mudo e logo determinou uma sindicância à Câmara tendo “por fins não somente apurar condições do ensino ministrado nas escolas instituídas pelas disposições testamentárias do legado Gomes da Cunha, que então funcionavam, mas ainda apreciar a forma como foram administrados os vencimentos do mesmo legado, aplicáveis à sua nomeação”.
Esta sindicância tinha sido determinada em 16 de Janeiro de 1909, baseada nos “lamentáveis sucessos ocorridos em 1908 naquela escola”, mas só em 23 de Maio de 1910 foi nomeado sindycante o lente da Universidade de Coimbra Dr. Anselmo Ferraz de Carvalho, que tinha como secretário José Augusto de Abreu Almeida, secretário da Câmara de Espozende. A má fé do governo estava em ter extinto o lyceu em 31 de Março de 1910 e nomear o sindicante em 23 de Abril. Sinal de que, fosse qual fosse o resultado da sindicância, o lyceu estava condenado e extinto.

(continua)


O COMETA HALEY

Afinal, o fim do mundo marcado para o dia 19 de Maio não aconteceu. O cometa passou e ninguém deu conta. Como iria voltar 75 anos depois os jornais esperavam “que ainda reine o ilustre soberano dos Navegantes, Sr. José Luciano de Castro, para glória do País e honra da arqueologia”, mas ao cometa foram atribuídos os desvarios do tempo e os abalos sísmicos que de 23 a 25 de Abril destruíram algumas povoações como Benavente e Samora Correia.

SANDICES

O semanário progressista “Povo de Cabeceiras” insinuava que o Presidente da Câmara perdera o lugar de professor da Escola Secundária e a encomendação da paróquia da Faia, por o mesmo se ter mudado para o partido Regenerador.
O Jornal de Cabeceiras respondia com uma local intitulada “Sandices” e explicava que o Padre Firmino “tinha deixado de ser professor do lyceu por uma providência governativa de João Franco, proibindo a regência interina a professores que apenas tivessem o curso dos seminários. Quanto à encomendação da Faia (foi) porque se não quis habilitar para o respectivo concurso”.

FESTAS DE S. JOÃO NA PONTE DE PÉ

Preparavam-se as festas do S. João no populoso bairro da Ponte de Pé: O grande “show” seria a barca que sulcaria o rio Peio, devidamente engalanada e iluminada, ao som da música que uma orquestra a bordo tocaria. Da barca seria cantada a tradicional serenata na noite de arraial. Adivinha-se ali o dedo de José Salreta. A Comissão de Festas já encomendara o fogo de artifício aos artistas de Revelhe e Ribas e as bandas contratadas eram as de Golães (Fafe) e Sobradelo da Goma (Póvoa de Lanhoso). Presidia à Comissão de Festas Gaspar Ferreira de Mello, da Casa da Villa. A barca já navegava no rio desde o dia 15 de Maio.
José Salreta mandava publicar que tinha depositado no estabelecimento do Sr. Álvaro de Moura Teixeira, na Ponte de Pé, a quantia de 10,000 reis, a entregar a “um espirituoso crítico que prove que a sua peça “El-Rei Mata Sete” tivesse cenas iguais a outras tiradas da peça que cita”.
Terminava assim o comunicado: “Quanto ao mais que o aludido crítico tem feito…são resíduos das festas de S. João e de S. Pedro de Junho passado”.

FESTA A SANTO AMARO

Realizou-se a festa de Santo Amaro (Chacim) a 5 de Maio, com missa cantada, música e fogo de artifício. Na noite anterior realizou-se um concorrido arraial, estrelejando os foguetes e os bombos até adiantada hora da manhã.

PESSOAS
António Joaquim Alves Pereira da Fonseca

Em Chacim (Refojos) falecera recentemente este abastado proprietário. Tinha a bonita idade de 96 anos, sendo a pessoa mais velha da paróquia e uma das mais idosas do concelho. Nascera em 1814, logo após as Invasões Francesas, reinando D. Maria I (corte exilada no Brasil).
Na sua juventude lutou pelos miguelistas na guerra civil que incendiou Portugal, tendo-se distinguido pela sua bravura nas batalhas de Gaia, Torres Novas e Lisboa. Deixava 2 filhos: Guilherme e Ludovina Pereira da Fonseca. Era avô da esposa do ilustre director do Jornal de Cabeceiras, Sr. José Augusto Falcão de Azevedo.
O Pe Firmino José Alves, pároco da Faia e Presidente da Câmara tomou posse das funções de capelão da Irmandade de Nossa Senhora dos Remédios do Arco. O Jornal de Cabeceiras afirmava: “Sob todos os pontos de vista, a capelania em questão é preferível à pequena igreja”. Foi substituído pelo Rev. Luís Ferreira da Cunha, ainda que durante algum tempo o Pe Firmino ficasse encarregado do serviço paroquial da Faia.
O presbítero Jacyntho de Almeida foi empossado na Igreja Paroquial de Alvite.
Na Casa do Valle, em Pedraça, falecera Henrique José de Sousa, importante proprietário, afecto ao Partido Regenerador. Tinha chegado do Brasil procurando na sua terra natal o lenitivo para os seus sofrimentos. No Brasil falecera, com 29 anos, Alexandre Henriques de Sousa, da casa de Paredes (Refojos), irmão do Pe Arnaldo que por estes dias terminara o Curso de Teologia.
O Sr. Arnaldo José Miranda de Barros tinha feito exame no Porto para farmacêutico. No entanto acabava de sofrer um rude golpe com a morte do seu primogénito, Marcello, de 3 anos.
Para a Escola Mixta do Samão foi provida a Prof. D. Angelina da Assumpção.
Em Braga falecera Bernardino José Sobrinho, antigo regedor de Alvite.

POLÍCIA/TRIBUNAL

Vinham-se verificando de há uns tempos actos de vandalismo na vila. O último consistiu na quebra dos vidros da habitação do digno delegado da comarca.
Em Boticas tinha sido preso o presumível assassino do Sr. Francisco Ribeiro, de Pedraça. Era um moço de 20 anos.
O tribunal negara provimento ao recurso apresentado por Manoel Joaquim Alves Machado no processo-crime que lhe movia o ex-pároco de Refojos, Pe Macedo.
O recurso do Ministério Público respeitante à absolvição dos estudantes Carvalho Borges e Martins Lage foi denegado pelo supremo.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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