Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-05-2010

SECÇÃO: Destaque

O 25 DE ABRIL EM CABECEIRAS DE BASTO

D. Manuel Martins na sua dissertação
D. Manuel Martins na sua dissertação
Num aliciante, desenvolvido e rico programa, em mais um ano foi recordado o 25 de Abril de 1974. Programa este com iniciativas encetadas no dia 22 e terminadas ao fim do dia de do domingo coincidente com o feriado.
A par da festa que sempre constituem as actividades lúdicas, do desporto ao convívio onde não faltou o cantar de raiz popular como é o folclore, a tónica foi a de “cantar Abril”; tanto na sexta-feira como no próprio domingo, em Cavez, no décimo encontro de cantigas da Liberdade. Sobretudo as cantadas pelas crianças da Escola da Ferreirinha. Que lindo, ver-se e ouvir-se naquelas crianças, em representação de todas as do concelho, a Esperança de Abril! No sábado, na Casa da Cultura, a exposição de um outro sonho de Abril: Zeca Afonso, um dos símbolos emblemáticos das músicas de intervenção. E mais à noite, no “jantar da Liberdade” era a “revolução dos cravos” que estava presente! E, no domingo as provas de atletismo, numa transversalidade de idades, dos mais jovens aos menos jovens, foram outro pormenor de uma festa que de certeza a todos tanto agradou.
Poderemos, assim, dividir em três as etapas das comemorações de Abril em Cabeceiras de Basto: a parte lúdica – a festa propriamente dita, que se abriu em leque e abrangeu toda a programação; a comemoração dos 100 anos da República; e a homenagem ao 25 de Abril em si mesma: desde o desfile e parada dos bombeiros em frente ao edifício da Câmara, içar das bandeiras nas varandas do mesmo e a sessão solene da Assembleia Municipal. Ou seja, a par da festa, da alegria, da exuberância de euforia na rua, a reflexão é também necessária.
Diremos que a revolução de Abril, por si só, não tem a resolução de todos os problemas. Esta tem de ser o esforço da cidadania, através do trabalho, do engenho, da inovação. O 25 de Abril de 1974 abriu-nos portas; construiu pontes de entendimento; derrubou muros de separação e de intolerância; deu-nos liberdade de pensamento, de acção , de contestação, de luta . E deu-nos a ferramenta necessária para que possamos construir Abril, pelas gerações adiante. Até ao fim da sua História.
Os participantes receberam troféus e medalhas
Os participantes receberam troféus e medalhas
No decurso das intervenções, tanto na comemoração dos 100 anos da República, como nas da sessão do 25 de Abril, há um fio comum condutor de ideais e de valores. Onde a Pessoa é o centro e em função da qual tudo deve funcionar e girar. E iremos ver que, também a nível autárquico, neste se vão construindo ano após ano os desígnios da “revolução dos cravos”.

OS 100 ANOS DA REPÚBLICA

Debrucemo-nos na sessão comemorativa dos 100 anos da República, aonde a revolução dos cravos foi recuperar muitos dos valores republicanos que ficaram adormecidos como braseiro sob as cinzas no tempo obscurantista da ditadura de Salazar e que a força do vento de Abril reacendeu.
Joaquim Barreto na sua intervenção do 25 de Abril na Assembleia Municipal
Joaquim Barreto na sua intervenção do 25 de Abril na Assembleia Municipal
Na abertura, o snr. Presidente da Câmara, eng. Barreto, mostrando-se grato aos oradores presentes, lembrou que um deles – o Dr. Carlos Magno – é uma pessoa identificada com Arco de Baúlhe, vila que foi o “santuário” ( classificação nossa) dos intelectuais que nas terras de Basto “conspiravam” contra a ditadura. Nesta sua muito breve intervenção, Joaquim Barreto, manifestando ainda as dificuldades que teve de ultrapassar para conseguir ter presente o bispo emérito de Setúbal – D. Manuel Martins – não deixou de se mostrar feliz por ter em Cabeceiras de Basto não só estas duas ilustres personalidades como ainda uma outra – o Dr. Almeida Santos, Homem que o 25 Abril trouxe e aos diversos ficou ligado e figura que jamais sairá da História de Portugal. E foi desta forma que Joaquim Barreto terminou esta sua intervenção: “sejamos felizes ao ouvi-los”.
O Dr. Almeida Santos é um HOMEM para sempre ligado não só ao 25 de Abril e incontornável na História de Portugal. Na sua intervenção,fez o percurso histórico do antes e do depois da República socorrendo-se de dois eminentes historiadores – Carlos Ferrão e Raúl Rego. E de ano em ano; de episódio em episódio, onde não faltaram o do anticlericalismo e do anti-republicanismo, chegou ao 25 de Abril que era o pano de fundo; o cenário do palco das comemorações de Abril no seu todo.
Comemorar, em Cabeceiras, os 100 anos da República no contexto do 25 de Abril, teve todo o significado: na História deste concelho há uma individualidade também incontornável, que simbolizou em si toda a dicotomia entre anti-republicanismo e anticlericalismo – o célebre P. Domingos - com bolsas de rebelião e derramamento de sangue. Neutralizadas com forças do Exército acampadas na vila.
O Dr. Almeida Santos, no elogio que fez a Cebeceiras, referiu-se a “terra onde já não correm pardaus”. Pardaus era a moeda que circulava no tempo de Sá de Miranda que ele também invocou e a quem Cabeceiras dedica uma das suas ruas. Ao tempo, vivia-se a febre do dinheiro fácil vindo das especiarias da Índia e do Brasil que o comércio trazia para Lisboa. Febre essa que, então, levou ao quase total abandono das terras tão produtivas. Então, para Sá de Miranda, os “pardaus” nas terras de Basto eram de mau presságio. E a desgraça aconteceu com o domínio dos Filipes de Espanha.
Nas crianças estão a força e o futuro do 25 de Abril
Nas crianças estão a força e o futuro do 25 de Abril
Hoje, vivemos também à custa do dinheiro fácil da União Europeia .Todas as nossas terras de tão bons e abundantes carros de pão e pipas de vinho encontram-se também em situação idêntica. Oxalá a história não se repita não obstante a preocupante e perigosa a nossa situação financeira actual. E não vai repetir-se. Na manhã e 25 de Abril, todos ouvimos na Assembleia Nacional cantar-se “Heróis do mar, nobre Povo!/ Nação valente, Imortal!/ Levantai, hoje, de novo/ o esplendor de Portugal!...”E é o que vai acontecer. Nos 900 anos da nossa História, se constam batalhas perdidas, também consta a vitória de todas as guerras.
A intervenção de fundo, que a todos prendeu e cativou, foi a de D. Manuel Martins. Bispo de Setúbal, como referiu o Dr. Carlos Magno, só há um – D. Manuel Martins cuja missão de intervenção a favor dos pobres e desprotegidos lhe valeu o epíteto de “bispo vermelho”. Pode vir quem vier. Nenhum outro lhe tirará esta auréola, este estigma de luta.
Luta que é também o Ideal do 25 de Abril. Na sua intervenção na sessão municipal da “Revolução dos cravos” a representante da coligação, irá dizer que as comemorações não devem reduzir-se à luta da memória contra o esquecimento. E não se reduzem. É impressionante que, passados já 36 anos da Revolução, esta continue pujante nas diversas gerações que a viveram.
Da juventude às crianças, foi com espanto que verificámos como uns e outros nos respondiam à questão do 25 de Abril: o que foi? Para que foi?... E todos. Todos! Até as crianças de Cabeceiras testemunharam um entendimento muito profundo do que é a Democracia; do que é a Liberdade. A nossa Juventude bebeu no leite materno a seiva do ideal de Abril que não morrerá nunca.
De D. Manuel Martins, foi uma revelação e um deslumbramento tê-lo ouvido afirmar quanto à essência do 25 de Abril que está na Constituição da República. Afirmou ele : “…estas relações, obrigações entre Estado e cidadãos, bem as podemos imaginar nos 55 artigos da Constituição 24/79, que tem a ver com direitos, liberdadse e garantias(…) E digo isto sempre com muito prazer, com muita alegria. Porque vejo nestes artigos da Constituição (…) , eu vejo uma tradução, correcta, do Evangelho. É o Evangelho no que diz respeito à dignidade e aos direitos da pessoa humana. É o Evangelho escrito em palavras, em estilo, em palavras deste tempo(…)”.

Afinal, aqui o 25 de Abril, mais que a própria Igreja que em vez de pontes para unir, levantou muros para separar; em vez de perdoar, condenou, foi o sopro do Espírito a renovar a face de Portugal, recolocando a dignidade do Homem no centro da FÉ . Ainda segundo D. Manuel Martins, a Pessoa está antes do Estado: “O Estado existe por causa do Homem… O Homem é o fundamento e o critério de tudo quanto se faz ou projecta fazer”. A Igreja, segundo ele, tem de ser “provocadora”sempre que o Homem é atingido na sua dignidade. E citou passagens da Igreja, onde a dignidade do pessoa humana deveria ser o centro, o fundamento da Fé na Igreja de Jesus Cristo.
D. Manuel Martins, referindo-se à abstenção dos cidadãos nos actos eleitorais (uma das conquistas de 25 de Abril ), identificou isto com falta de cidadania, derivada da falta de cultura: “ A cultura faz gente. Ajuda as pessoas a descobrir que são gente… com o direito e o dever de se comprometer na construção da História(…). Temos em Portugal um grande défice de cidadania e por conseguinte teremos um grande défice de democracia”.
Muitas outras considerações de muita importância e sentido de oportunidade fez D. Manuel Martins, na sua belíssima intervenção. Mas por falta de espaço não podemos referir mais. Resta, para os mais interessados, o acesso ao seu discurso. Que vale a pena.

A SESSÃO SOLENE
DA ASSEMBLEIA MUNICIPAL

Na sessão solene da Assembleia Municipal comemorativa da “revolução dos cravos”, pela representante da “Coligação Juntos pela Nossas Terra” entre outras, afirmou o inconformismo negativista ( a nível nacional ) quanto ao Ensino; os sinais de violência nas escolas; as taxas de abandono escolar; falta de saídas profissionais etc. Foram criticados os “ímpetos de pompa e celebração pela celebração” (do 25 de Abril); (…) “os poderes concentrados num só homem; o voto reduzido a pró-forma(…) o direito à igualdade traduzido no terror (…) a informação expressa num “dictate”. O posso, quero e mando (…)”. Foram invocados “o descrédito político “, “o afastamento dos cidadãos; a necessidade de proximidade dos eleitos aos eleitores; a necessidade de transparência com que os titulares de cargos políticos tenham de prestar contas aos cidadãos”.
A isto, no seu bem elaborado discurso que foi ouvido com muito interesse, o Presidente da Câmara, eng. Barreto, respondeu de forma categórica e clara e que arrasou toda a argumentação anterior: “ Não me venham dizer que a Democracia não funciona! Há eleições de quatro em quatro anos para as freguesias, Município e Assembleia da República. De cinco em cinco anos para a Presidência da República(…) Há alternância de poder(…)com exemplos aqui bem perto(…)Nós temos alternância de Poder(…) A Democracia funciona!(…) Aqueles que dizem que a Democracia não funciona, infelizmente alguns deles não são capazes(…) E então são fazedores de opinião…”
O Presidente da Câmara, tendo iniciado a sua intervenção por exemplificar e marcar muito bem a diferença entre como era o antes e o pós 25 de Abril, fez um balanço do que tem vindo a ser o trabalho da Autarquia em obras imateriais e materiais, numa democracia representativa e participativa e através de parcerias, numa demonstração evidente de que, em Cabeceiras, eleitos e eleitores estão cada vez mais próximos e motivados e os cidadãos cada vez mais por dentro dos seus processos na Câmara onde já não se vai “de chapéu na mão” mas na certeza da eficácia da sua representatividade e participação. E do uso dos seus direitos.
Falou ainda de valores globais como sejam o ambiente, a preservação da Natureza. Ainda para mais no ano internacional da Biodiversidade. Num espaço global que é a Europa, que é o mundo, do qual Cabeceiras também faz parte e tem de contribuir com a sua quota-parte.
Exagerada esta preocupação? De maneira nenhuma! Vejam-se as catástrofes naturais que atingem todos. Veja-se o que disse D. Manuel Martins, que dá cabimento a esta preocupação do edil Cabeceirense: “…O mundo não está ali, acolá, ou além: está aqui. A meu lado. À minha porta… Todos pertencemos a um só corpo que se chama humanidade. Tudo que de bom ou mau acontece, tem a ver com o hoje, o ontem e o amanhã(…) .
Se o 25 de Abril é motivo de festa, é ainda mais motivo de reflexão. Bebendo-se na “fonte” dos seus ideais a seiva que alimenta o espírito para que, a exemplo do apelo feito por Joaquim Barreto, a força de Abril se manifeste “ no dever de todos construírem uma sociedade melhor que comece em cada um de nós”.
O poeta diz que o caminho se faz caminhando. A realidade diz-nos que a História do 25 de Abril não se esgota: faz-se dia após dia; mês após mês; ano após ano, pelas gerações adiante. Numa constante recriação.

Por Pedro Marques


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