Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-05-2010

SECÇÃO: Opinião

CONTOS DA SERRA E DOS VALES
A CAMINHO DAS MINAS

Por: Eduardo Metrosídero
(Continuação-5)

A grande maioria das pessoas guiava-se pelas horas que eram batidas pelos relógios nos sinos das torres das igrejas, sempre que o respectivo toque alcançava os locais onde cada qual se encontrasse. Fora disso, era pelo cantar dos galos, pela posição do sol, durante o dia, e pela posição da lua, durante a noite. Sempre que o tempo se encontrava de nuvens e de chuva, para além das horas das torres das igrejas e dos cantares dos galos, restava o tino, as pessoas calculavam as horas do dia pelo tino.
Naquela madrugada de terça-feira, a primeira do mês de Junho, não havia nuvens no céu. Quando o sino da torre da igreja bateu as três horas, todo o grupo, sete mulheres, as duas de Petimão, a rapariga da Gandarela e as outras quatro dos lugares do centro da freguesia e o António, estava reunido à entrada do adro da igreja de Alvite. As mulheres tinham os cestos pousados em cima da parede de perpianho de granito trabalhado, que circundava todo o recinto do adro, o rapaz segurava com a mão esquerda as pontas de um saco de serapilheira, que pendia do ombro do mesmo lado, onde levava um broa de pão de milho, duas mantas de farrapos e ainda uma saquinha pequena feita de pano de amostras com meia dúzia de bolinhos de farinha milha embrulhados em folhas de couve, na mão direita segurava um garrafão de cinco litros de vinho tinto. O garrafão de vinho fora uma oferta especial do pai que, ao entregar-lho ao início da noite anterior, lhe desejara boa sorte.
- Hoje temos guarda! – disparou uma das do centro de Alvite, ao reparar que havia um inesperado rapaz na comitiva.
Antes de prosseguir, e para dar alguma razão ao espanto da mulher que primeiro reagiu à presença do rapaz, convirá referir que o António, não obstante ter passado toda a sua vida, até então, nas encostas da serra da Orada a apascentar o rebanho, tinha uma presença extremamente simpática. Deveria medir um metro e setenta e cinco de altura e não pesaria mais do que sessenta e sete ou sessenta e oito quilos, era alto e elegante, cabelos castanhos e olhos da mesma cor, alguns sinais de barba a quererem aparecer, mais no queixo e no beiço superior, que ainda não escanhoava. Sem qualquer dúvida que as mulheres reparavam nele.
- É… Não… Não temos nada qualquer guarda. Temos o António, chama-se António, este rapaz que hoje nos faz companhia e vai trabalhar para as minas, quer arranjar o seu pé-de-meia para quando for chamado às sortes – respondeu a Maria Pequena com voz forte e com ares de quem dá uma reprimenda.
- Oh! Por amor de Deus, mulher! Não é preciso falares nesses termos, eu estava só a perguntar…
- É, eu percebo muito bem as tuas perguntas. Este rapaz é filho de uns vizinhos meus, pessoas muito honestas e trabalhadoras, muito respeitinho e nada de conversa fiada…
Enquanto as duas trocavam aquele pequeno mas elucidativo diálogo, uma terceira, que também era do centro de Alvite, trocou olhares entre o rapaz e a rapariga da Gandarela e piscou o olho a ambos. A Matilde olhou para o lado e o António corou e olhou para o chão. Estava lançado o mote.
O grupo arrancou quando passavam cinco minutos das três. Como sempre, fizeram uma série de pousas de curta duração e chegaram à Fonte da Grila, que era o local que marcava, um pouco mais ou menos, o ponto médio da viagem e onde se comia um pouco da merenda, uma espécie de refeição, e se descansava durante cerca de meia hora. Já se via sol por todo lado, ali não se ouvia qualquer relógio de torre de igreja, mas as mulheres sabiam muito bem tomar alturas ao tempo.
- São sete e meia, vamos parar aqui durante meia hora, arrancamos às oito, a ver se estamos no centro da Borralha, o mais tardar, ao meio-dia e meia hora – ordenou a chefe da comitiva.
- Apre! Que vinha com uma vontade de mijar… - desabafou a que, junto à igreja de Alvite, tinha trocado impressões com a Maria Pequena acerca do novo companheiro de viagem.
- Lá isso, nem parece teu. Então, abrias as pernas e mijavas em qualquer sítio, como sempre costumas fazer… - disse a do lado para quem aquela estava voltada.
- Ó minha palerma, então não enxergas que tínhamos mirone? Ia lá pôr-me a mijar para aí, em qualquer lado, à frente do marmanjo?
Entretanto, o António tinha ido fazer exactamente isso. Tinha ido aliviar-se de águas junto de um penedo, alguns metros acima da fonte, de costas voltadas para as mulheres.
- Olha, olha, tu cheia de preconceitos e ele ali está a dar a sua valente mijadela, ora olha!... – rematou a outra.
As mulheres, sempre que se encontravam em grupo e não havia receio de que aparecesse homem por perto, faziam o serviço de pé, abriam as pernas com a maior das descontracções e descarregavam para o chão, na vertical. Havia uma ou outra que sempre dava um jeito à saia, puxando-a para diante com as pontas do indicador e do polegar de uma das mãos, enquanto que a outra repousava, com a palma voltada para fora, encostada à anca do mesmo lado. No fim, a mesma mão que antes segurara a saia para a frente, fazia aquele movimento de encostar a peça de vestuário ao sítio a modos de como quem enxuga o molhado. Era, de facto, algo digno de ser visto.

(Continua)

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