Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-05-2010

SECÇÃO: Opinião

S. BARTOLOMEU DA PONTE DE CAVEZ

Já muito se escreveu sobre a antiquíssima romaria de S. Bartolomeu da Ponte de Cavez, não creio porém, que alguém o tenho feito melhor que o imortal escritor de “Amor de Perdição” Camilo Castelo Branco através do seu belíssimo poema “Como ela o Amava”, onde Camilo nos relata os acontecimentos vividos naquela noite fatídica de 23 de Agosto de 1842.
Vindo dos lados de Daibões - Ribeira de Pena na companhia de um grupo de amigos onde Camilo apenas com 15 anos de idade, estudava latim ao que consta na companhia de um padre.
A famosa romaria, realiza-se todos os anos a 24 de Agosto, sendo o arraial realizado na noite anterior, tendo como patrono o venerado santo S. Bartolomeu. A Ponte de Cavez, jóia arquitectónica da região e Monumento Nacional foi construída sobre o rio Tâmega no século XIII, composta por cinco imponentes arcos e destina-se a ligar as províncias do Minho e Trás-os-Montes. Foi mandada edificar por Frei Lourenço Mendes, natural de Vilar de Cunhas tendo passado parte da sua vida num convento lá para os lados de Guimarães. Quem descer a ribanceira até à margem do rio poderá ver que as pedras da ponte estão referenciadas com símbolos diferentes que certamente seriam as marcas dos pedreiros que trabalharam cada uma das peças.
Mas vamos então aos factos que nos relata Camilo Castelo Branco e da tragédia que sobre a ponte se abateu naquela distante noite de 23 de Agosto de 1842.
Isabelinha do Reguengo era uma bela camponesa tão graciosa e atraente que fazia desgraça nos corações dos rapazes do seu tempo. Tomou-se de amores pelo Victor de Mondim, ao tempo um destemido caceteiro que capitaneava uma estúrdia lá para os lados da sua terra, até que um dia a Isabelinha resolve trocá-lo pelo João Lobo de Cerva igualmente famoso na arte de manejar o pau de lodo e também chefe da quadrilha de caceteiros da freguesia de Cerva que um dia ao ser surpreendido na feira de S. Miguel pelo seu rival Victor e o seu grupo levou semelhante carga de estadulhos que o puseram às portas da morte.
Como sempre acontecia nesse tempo a desforra era feita no S. Bartolomeu da Ponte de Cavez. Então começou a constar pela região que os dois valentões se iam bater peito-a-peito nessa noite à frente das suas estúrdias, o que fez com que nessa noite atraísse à romaria uma imensa multidão de gente sádica ansiosa para ver quem seria o vencedor e ver correr o sangue pelo tabuleiro da ponte. Os dois grupos colocaram-se um em cada extremidade da ponte. A Isabelinha ainda cantou ao desafio tentando desanuviar a tensão que se abatia sobre a ponte. Os parlamentares de cada grupo ainda tentaram estabelecer acordos, mas o fidalgo Pacheco de Miranda, filho do Capitão Mor de Cabeceiras de Basto, gritou a sua cólera a plenos pulmões que o mundo acabaria ali se não houvesse pancadaria.
Posto isto, os grupos avançaram até ao meio da ponte parando frente-a-frente prontos a travar uma batalha ao jeito da idade média. O João Lobo ainda gritou para o grupo rival que a Isabelinha era sua noiva e já tinham casamento marcado ao que o Victor respondeu “se ela não é minha, tua também não será.” E os dois capitães avançaram um para o outro de carabina em punho.
Dois tiros se ouviram em simultâneo e os dois rivais tombaram no meio da ponte com o sangue a saltar-lhes do peito. O confronto foi medonho e os de Mondim aproveitando a confusão atiraram da ponte a baixo o corpo do inditoso João Lobo que mergulhou nas águas profundas do Tâmega.
A Isabelinha ainda foi até à confluência do rio pequeno esperando o corpo do seu amado, até que ao cair a noite atormentada pelo desgosto de perder o seu tão amado noivo mergulha na revoltosa cachoeira pondo termo à vida.
“Como Ela o Amava”

(Continua)

Por: Alexandre Teixeira

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