Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 19-04-2010

SECÇÃO: Opinião

“Crónicas de Lisboa” A violência juvenil

Recentemente, o país ficou em “estado de choque”, mas nada que uma qualquer telenovela ou um jogo de futebol não anestesie de imediato, com a notícia do acto extremo do jovem (ainda criança nos seus doze anos) Leandro, o estudante de Mirandela que se lançou às águas geladas do rio Tua, e que nem o frio agreste e o facto de se ter previamente despido foi mais forte e dissuasor do que o “gelo” que sentiria na sua alma, cansado que estava e andava das agressões físicas e psicológicas e dos maus tratos (acções estas designadas por “bullying”) dalguns colegas das mesma escola. Aquele menino desapareceu e até hoje nem o seu corpo inerte emergiu das águas do rio, porque a sua alma essa terá ido direitinha para o lugar onde “repousam os mártires e os santos” (para aqueles que acreditam na vida do Além).
Este e muito outros exemplos que vão sendo relatados pela imprensa demonstram-nos, se necessário fosse, que as crianças e os jovens não são assim tão “puros” nos seus actos e atitudes, pois em muitos deles prenunciam já a “génese” dum carácter agressivo e violento. Não foram os assassinos e criminosos também eles crianças? Obviamente que sempre houve violência, pois o ser humano é, em si mesmo, violento e agressivo e só a aquisição dos valores humanos e morais, a par das normas e da justiça e punições, lhe condicionam os comportamentos”desviantes” e essa mesma “natureza animal”. Mas será que os valores e a educação que (não) estamos a transmitir às crianças e aos jovens não potenciam situações como estas? Qual o papel da família e das demais instituições com responsabilidades na educação e formação das crianças e dos jovens e também dos adultos? Será que a sociedade está de tal modo doente que não cumpre o seu papel e permite actos de violência sobre os mais fracos, porque todos os dias eles se verificam sobre crianças e também mulheres? Crimes horrorosos como violações e pedofilia fazem parte dos relatos diários dos jornais, agora a par dos assaltos extremamente violentos e com frequentes homicídios.
Que exemplos, educação e exigências temos para com as crianças, jovens e também adultos, de modo a prevenir os crimes e a criar uma sociedade mais fraterna, mais solidária e em cujo seio não seja perigoso viver?
Paradoxalmente, enquanto a medicina se esforça e se desenvolve para nos salvar e prolongar a vida, com resultados visíveis e confirmados pela longevidade e qualidade de vida actual, esta, a nossa vida, está cada vez mais ameaçada por um “vírus” que grassa nas sociedades modernas. Hoje, mata-se um ser humano para lhe roubar meia dúzia de euros e que nem tudo é justificável pela crise económica, mas sim por uma crise mais profunda e que, essa sim, é de recuperação mais difícil, porque todos os agentes com responsabilidades no “estado actual das coisas” fazem como Pilatos, lavando daí as suas mãos.
As causas da morte daquele jovem estão a ser imputadas à escola que ele frequentava, porque não terá agido em conformidade, mas será que com o estado de indisciplina reinante na sociedade e a perda de autoridade (educativa) das escolas estes problemas serão evitáveis e resolúveis apenas no espaço deste tipo de instituições? A educação tem vivido, ao longo destes mais de trinta anos de democracia de equívocos e indefinições, pelo que a instituição escola e os seus agentes acabam também por serem vítimas, como vamos tendo conhecimento de muitas tristes notícias (vitimizando alunos, professores e auxiliares educativos) pelo que a educação é uma tarefa de todos e de todas as instituições, sob pena dos nossos impostos gastos (e que não são assim tão poucos) na educação gerarem resultados medíocres, como comprovam os indicadores internacionais, para além destes tristes factos como o de Mirandela e tantos outros, que não param de suceder por esse país fora.
O acto daquele menino transmontano, “tocou-me no coração”, como todos os dias me tocam os actos de violência de que tenho conhecimento pelos jornais, mas este sentimento pode ainda ser mais forte se nós próprios já tivermos sido também vítimas de actos de violência, porque apodera-se de nós uma sensação de dor e revolta. Com a idade daquele menino, eu próprio fui vítima dum acto violento perpetrado por um jovem da mesma idade ou um pouco mais velho do que eu, com quem me cruzei, numa rua movimentada da cidade de Lisboa e cujas consequência só por milagre não foram mais graves para mim próprio. Nunca mais soube do agressor, que foi levado para a esquadra de polícia, mas nessa época havia várias formas de justiça que, sejamos realistas e sem falsos saudosismos, condicionavam (ou impediam) muitos actos de violência. Hoje vivemos numa sociedade onde “é proibido proibir” e onde as “punições” são pouco ou nada dissuasoras. Assim, os “culpados” acabam por ser as próprias vítimas e não os agressores, porque para estes encontram-se sempre desculpas. Para onde caminhamos?
Há tempos, fui vítima de uma agressão física, com o objectivo de roubo, praticada por quatro jovens, com cerca de 14/15 anos de idade. Ainda hoje “sinto” aquele murro na cabeça traiçoeiro e pelas costas, que, desequilibrado, poderia ter tido consequência piores para mim ao cair desamparado no chão. Temi “morrer”, não pelas perdas materiais e da violência física, mas mais pela “agressão” moral ou de efeitos psicológicos, se assim lhe quisermos chamar, porque a minha saúde me faz correr riscos. Por isso, continuo a ter medo deste tipo de situações, porque não sei como “aguentará” o meu coração.
(Bullying = acção continuada de pessoa má, prepotente, aterrorizadora, etc .)

Serafim Marques
Economista

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