Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 19-04-2010

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

VENHAM OBRAS P’RA CABECEIRAS
Faltavam as grandes obras que beneficiassem o concelho. Essas eram da responsabilidade do Estado e este, normalmente, esquecia as zonas mais atrazadas do país e concedia-as aos centros urbanos e ao litoral. As pequenas obras eram da responsabilidade das câmaras que, normalmente, não possuíam os meios técnicos necessários, de modo que os projectos eram elaborados em Lisboa ou, nos casos mais simples, no distrito.
O Padre Firmino, quando tomou posse da presidência da Câmara, vincou no seu discurso a necessidade de promover a iluminação pública e o abastecimento de águas. Louvou a construção de escolas do ensino primário que se iam fazendo no concelho e a criação do Lyceu Municipal. E conseguiu o seu desiderato. No mês seguinte à sua posse procedeu à inauguração da iluminação pública na Praça Barjona de Freitas, o centro cívico do concelho e decidiu o seu prolongamento aos principais bairros da vila. (Cabeceiras já tinha electricidade desde 1905, mas a exploração pública sofreu atrazos). O director distrital de obras públicas foi pressionado primeiramente para a reparação da estrada da Boavista ao novo bairro do Pinheiro e mais tarde a reparação das vias que davam ingresso à Praça, o que conseguiu. Mandou plantar novas árvores no jardim da Praça e deu um arranjo nas sentinas do edifício municipal. Fruto duma campanha lançada pelos Dr’s Dioclesiano e Canavarro Valladares desobstruiu-se o escadario do Cruzeiro, com a ajuda duma subscrição pública que atingiu os 45$000 reis. Mais uma pressão em Braga pedindo o arranjo imediato das estradas da freguesia de Refojos: quebrou-se logo uma grande quantidade de cascalho, mas a obra parou.
O presidente tinha sonhos maiores para a Vila: o abastecimento de água (a Praça tinha um único chafariz, que no Verão debitava um fio de água), alargamento da área da vila para facilitar a construção urbana e a expropriação duma parte do Campo do Secco. Para isso era preciso dinheiro: foi lançada assim a cobrança de uma taxa a pagar pelos vendedores nas feiras e mercados. Evidentemente que esta decisão não foi muito bem aceite e o jornal “O Povo de Cabeceiras” lançou-se numa campanha assaz virulenta contra o pagamento da taxa. Mas conseguiu-se a aprovação.
Estamos agora no princípio de 1910 e a situação política tinha mudado no país. O governo de Campos Henriques, dissidente do Partido Regenerador, tinha dado lugar ao governo progressista de Veiga Beirão, empossado em 22 de Dezembro de 1909. Os regeneradores locais resolveram chamar à pedra os progressistas e incitá-los a mostrarem os seus créditos em Lisboa.
Eram três as obras que o concelho mais necessitava, que já tinham começado mas emperravam por razões (nem sempre desconhecidas) em algum lado do percurso: 1ª) linha férrea do Vale do Tâmega; 2ª) construção da estrada de Fermil ao Arco; a 3ª) prosseguimento da estrada para Salto. A linha férrea estava em Amarante e parecia não querer sair daí. Porquê? “Já não era preciso mais satisfazer as comodidades excursionistas de certos políticos “; a estrada de Fermil “foi até às cercanias de certa herdade de Vila Nune e por ali se quedou”; quanto à estrada para Salto, esta “serviu de pretexto apenas para meter nos bolsos de vários amigalhotes bonitas quantias em troca de terrenos expropriados, pois não teve ainda a dita de galgar a margem oposta do pequeno rio d’Ouro”. Diga-se, em abono de verdade, quanto à estrada para Salto que esta tinha defensores de que a ligação devia ser feita pela Ponte de Pé e outros por São Nicolau.
(Somente muitos anos depois a estrada chegou ao Arco; A estrada para Salto galgou o rio pela Ponte Nova em 1937 e alguns anos depois pela Ponte da Urtigueira. A linha férrea chegou ao Arco, mas já conseguiram dar cabo dela. A via vai ser adaptada para andar de bisculeta… Resta-nos o belo Museu da Estação do Arco).

O CASO DO NOVO ADMINISTRADOR

Novo governo dá invariavelmente novo governador civil ao distrito e novo administrador ao concelho. O administrador José de Queirós apresentou em 7 de Março de 1910 a vara do cargo ao Presidente da Câmara. Esperava-se agora a nomeação do novo administrador. Como o governo era do Partido Progressista esperava-se a nomeação dum quadro local dos progressistas cabeceirenses. Isso nem sempre acontecia quando o governador civil queria evitar guerras intestinas, já que o lugar de Administrador era de excelência e bem remunerado. Assim a nomeação para o concelho de Cabeceiras de Basto do Sr. Paulino Ferreira de Mello Botelho e Sousa, filho do chefe local do Partido progressista, não deveria ter causado admiração. De lado ficava “o eterno candidato a qualquer cargo”, Sr. Luiz de Mello, como insidiosamente afirmava o “Jornal de Cabeceiras”, propondo que lhe fosse “oferecido o cargo de regedor de metade da freguesia de Refojos, para lá da Ponte de Pé, até ao extremo da Cruz do Muro”.
O insuspeito órgão do Partido Regenerador local noticiava a posse do novo administrador a 10 de Março, um acto muito concorrido, aplaudindo a “escolha acertada” do chefe do distrito.
Quem muito estranhamente não tinha embandeirado em arco com a nomeação do Sr. Paulino Botelho fora o órgão local do Partido Progressista, o “Povo de Cabeceiras”, tendo sido notada a concisão da notícia da posse, pelo que foi acusado: “desafinou de vez…com tal nomeação”. No número seguinte “O Povo” emendou a mão, mas tardiamente, “tentando fazer acreditar aos pacóvios que a nomeação foi muito bem aceite e aplaudida por todos os correligionários da família, e d’ali espraiar-se em elogios exagerados ao nomeado, com um bajulismo ridículo e triste”.
Certo é que duas semanas depois já se falava na substituição do administrador por Augusto de Brito Borges, um funcionário judicial de Lisboa. A razão desta eminente substituição é atribuída pela opinião pública local ao “desprimoroso acolhimento dos progressistas locais”, pondo assim em cheque o Partido local, nomeadamente o seu chefe.

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EXCERTOS DA IMPRENSA LOCAL

“Um philarmonico conheço eu que existe num jardim à beira Tâmega plantado, que está morto por tocar, pois não lhe falta habilidade porque já tocou em diversas philarmónicas. Tocou pratos na banda regeneradora, flauta na banda progressista, mais tarde tocou bombilho com uns músicos franquistas e voltou agora para o sol-e-dó progressista, onde toca rabeca em surdina…e, se ainda não tocou berimbau, não tarda”.
(Jornal de Cabeceiras, nº 671, de 07/02/1909, direccionado ao Dr. António Vasconcellos, da Casa de Cortinhas (Cavez), ilustre advogado e redactor principal do “Povo de Cabeceiras”).

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UM HOMEM DE 7 OFÍCIOS

Chamou-se na vida Teotónio Falcão Ribeiro Basto. Neste momento não conhecemos outra pessoa que em Cabeceiras tantos ofícios e cargos tivesse desempenhado. Alguns para angariar o sustento de que necessitava; quase todos os outros a favor da sociedade. Dos primeiros notemos: solicitador encartado, com escritório na Ponte de Pé, onde morava; amanuense da Câmara Municipal; administrador do concelho. Poderia receber ainda alguns reais pela sua representação do Governo Civil nas eleições municipais e paroquiais nos vários círculos do concelho (S. Nicolau, Pedraça e Refojos) e como vogal da Junta de Repartidores. Foi secretário de todas as Instituições Cabeceirenses, a maior parte das vezes ao mesmo tempo
: da Santa Casa da Misericórdia, da Associação de Beneficiência (Asylo), da liga Naval, etc.
Foi administrador e, mais tarde, director do Jornal de Cabeceiras e o seu nome apareceu muitas vezes como obreiro discreto das Festas da Ponte de Pé.
Repousa no cemitério de Refojos.

O CONCELHO NO DEALBAR DE 1910 (VI)

O associativismo está bem implantado no concelho no dealbar de 1910. A principal associação é a Santa Casa da Misericórdia. Possui e dirige o Hospital construído de raiz no pequeno morro sobranceiro à vila. Grandes nomes da sociedade cabeceirense presidiram aos destinos da nobre associação. A mesa era eleita bianualmente. Preside neste princípio de ano o Sr. Augusto Ângelo Vilela Passos. È secretário Teotónio Falcão.
No outro campo da solidariedade humana, a assistência aos deficientes e inválidos está a Associação de Beneficência. Tem a sede na Ponte de Pé onde está implantado um enorme edifício, o Asylo. Os seus corpos sociais são eleitos bienalmente. Preside - e o seu mandato está no fim – o Padre Manuel Joaquim da Silva Macedo, ex-pároco de Refojos. É secretário Teotónio Falcão.
Grémio Cabeceirense e Club Cabeceirense são outras duas associações, (de que não temos documentação), não constando o Grémio do Anuário Comercial e o Club Cabeceirense aparece classificado como “Sociedade de Recreio”.
Por outro lado, acabava de ser constituída a Liga Naval Portuguesa (Junta Local) que se propunha velar pelos rios e a que presidia o Dr. Francisco Botelho, de que era secretário Bernardino Pereira Leite Basto e tesoureiro Teotónio Falcão.
Mas…mas…mas…a grande glória era a Associação Propagadora da Lei do Registo Civil, também chamada do Livre Pensamento, que pugnava pela obrigatoriedade e exclusividade do registo civil dos nascimentos, casamentos e óbitos e ainda pelo direito ao livre pensamento, ou seja, contra o clericalismo e o fanatismo religioso. A existência desta associação, muito rara no Norte, em Cabeceiras, é a prova da difusão no concelho de ideias maçónicas. Esta associação era combatida ferozmente pela igreja e pelos sacerdotes mais reaccionários, pois sentiam-se prejudicados no pé-de-altar. Assim a Associação passava despercebida. Mas o processo de ingresso do Padre António Martins Vilela mudou a situação. Muitos paroquianos de Refojos deixaram de frequentar a igreja e alguns foram registar os filhos civilmente. E a associação ganhou nome. Terminou em 1913. Já não era necessária pois que desde o dia 5 de Outubro de 1911 o registo civil de nascimento, casamento e óbito era obrigatório.


NOTICIÁRIO LOCAL
(Março/Abril de 1910)


Um importante legado

Manuel Ferreira Basto, solteiro, natural de Chacim e residente no Porto, tinha falecido deixando um valioso legado de que destacamos a quantia de 12.000$000 reis à Câmara Municipal para a despesa com professor e pessoal para as Escolas Masculina e Feminina de Chacim e ainda 3.000$00 reis para construção de duas casas para apoio àquelas escolas; à confraria de Santo Amaro era deixada a importância de 5.000$000 reis para pagamento a um padre para rezar missa perpetuamente, nos dias de preceito, na Capela; o Asylo da Ponte de Pé e o Hospytal receberam cada um 2.000$000 reis e a Igreja de S. Miguel 4.000$000 reis. Deixou vultosas esmolas aos pobres de Chacim e aos das freguesias de Refojos, Abadim e Pedraça.

Dr. Francisco de São Luiz Leite Botelho

Com cerca de 90 anos faleceu na Casa da Villa (Ponte de Pé) este homem bom e justo. Tinha sido Presidente da Câmara. Era irmão de Paulino Teixeira Botelho de Sousa, que fora senhor da Casa, antigo deputado, referido por Camilo no conto “Gracejos que Matam”. Era tio do Dr. Álvaro Herculano, chefe do Partido Progressista local.

Hospital de Refojos

Procedera-se à eleição da nova mesa do Hospital para o biénio de 1910-1911. Foi eleito provedor o Dr. Augusto Ângelo Vilela Passos.

Crime em Pedraça

No sítio do Penedo Furado os Sr.s Francisco Ribeiro e Cândido Ferreira foram vítimas de agressão por parte de Ernesto da Mota e Bernardo Durães. Ambos de Pedraça, que se puzeram em fuga. A primeira vítima levou 2 fouçadas, de que veio a morrer.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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