Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 19-04-2010

SECÇÃO: Opinião

CONTOS DA SERRA E DOS VALES
A CAMINHO DAS MINAS

Por: Eduardo Metrosídero
(Continuação - 4)
- Senhora Maria, está de parabéns, diga ao rapaz que venha quando quiser, que se dirija ao serviço de pessoal e que diga que vai de mando do Senhor Director. Que não se esqueça de trazer documentos de identificação, e, se for menor de idade, documento onde o pai o autorize a vir trabalhar para as minas, de qualquer modo não pode ter menos do que dezoito anos. Já tem dezoito anos, não tem, Senhora Maria?
- Tem, tem, já vai fazer dezanove, no dia vinte e nove de Setembro, minha senhora!
- Então, está bem, é como lhe disse, que traga esses documentos e que venha quando quiser. Agora, desculpe, mas é que estamos a jantar, sabe…
- Ó, desculpe-me, minha senhora…
- Não tem nada que desculpar. Até amanhã, boa noite.
- Até amanhã, muito boa noite, minha senhora.
O favor, no final de contas, era para o rapaz, mas a mulher de Petimão tomou-o como se fosse para si própria, foi um dos momentos de maior alegria de toda a sua vida.
No domingo à noite, e como tinham combinado, o António bateu à porta da Maria Pequena. Esta deu-lhe a boa notícia e perguntou-lhe se, durante a semana, teria tratado do tal documento em que o pai o autorizava a ir trabalhar para as minas. Sim senhora, quanto ao documento já o tinha ido levantar no dia anterior, no sábado, a casa do presidente da junta da freguesia, a Reiros. O presidente da junta morava no lugar de Reiros, na encosta do monte de Santa Catarina.
- Então, está bem. Queres ir já na terça, depois de amanhã?
- Sim, quero.
- Assim, só começas a trabalhar na quarta. O ideal seria começares a uma segunda-feira, mas, como não sabes o caminho e não conheces lá ninguém, sempre será melhor ires connosco, e depois nós lá encaminhamos-te para o sítio certo. Achas que é melhor assim, ou queres botar os pés ao caminho e ires para lá sozinho?
- Não, não. É melhor ir com vossemecês. Se eles aceitarem que eu comece a trabalhar a meio da semana, para mim, tanto se me dá, o que eu quero é começar a trabalhar.
- Então, está bem. Prepara as coisas e avanças connosco na próxima terça-feira, de madrugada. Às três da manhã temos que estar no centro de Alvite. Não te esqueças que deverás levar uma ou duas mantas para te cobrires na caserna, e leva também uma broa de pão, isto é o principal, mas, se a tua mãe te preparar um bom merendeiro, muito melhor…
- É, vou falar com a minha mãe, a ver se ela me faz alguma coisa. Se melhor não houver, ao menos uns bolinhos de farinha e também a broa de pão e uma ou duas mantas.
- Costuma ir connosco uma rapariga da Gandarela, é pouco mais velha do que tu, tem para aí uns vinte e tal anos, essa, para não vir sozinha, da Gandarela até aqui, de madrugada, costuma ficar de segunda para terça com umas amigas, ali em Alvite. Encontramo-nos todos junto ao adro da igreja, mas tu podes ir já daqui comigo, tens que estar aqui, à minha porta, às três menos um quarto, está bem?
- Está bem, Senhora Maria. Esteja descansada que hei-de agradecer-lhe muito bem tudo isto que tem feito por mim.
- Cal quê? Não vais ter nada que agradecer. Vai lá, vai, agora vai à tua vida.
- Até terça de madrugada, Senhora Maria.
- Até terça…


***

A rapariga da Gandarela tinha, efectivamente, vinte e um anos feitos. Chamava-se Matilde e era um pedaço de mulher, peitos salientes, cinta apertadinha, quando andava, vista pela parte de trás, as ancas faziam aqueles movimentos que perturbavam os menos atentos, corada de rosto e olhos verdes, os cabelos eram loiros, bem esticados para trás e enrolados num puxo, meio solto, ali mesmo por alturas da nuca.
Havia dois anos que fazia o percurso, com as de Alvite, até às minas da Borralha para onde levava tudo o que podia como todas as outras. Fazia parte do Grupo Folclórico de S. Clemente onde, umas vezes dançava, fazendo par com qualquer um dos rapazes, outras vezes cantava, havia modas que só ela tinha fôlego para as fazer ecoar para lá do recinto da dança. Grande mulher! Diziam os homens, novos e velhos, sempre que ela puxava pelas cordas vocais e dava largas às desgarradas.
Por este tempo, eram raríssimos os relógios pessoais. Apenas alguns homens, mais ou menos abastados, é que possuíam um daqueles objectos, de bolso, que usavam num dos bolsinhos de fora do colete, seguros por um fio a uma das casas dos botões. Aquele fio, que segurava o relógio, era também um fiel indicador quanto à linhagem de quem o envergava. Podia ser de ouro, de prata, ou, a maioria das vezes, uma simples tira de tecido ou, ainda, um pedaço de fino cordel.
(Continua)

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