Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 19-04-2010

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (120)

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A BERNARDA DOS SUBMARINOS

Eu pensava, muito sinceramente, que a história dos submarinos era coisa já bastante antiga, e que os ditos repousavam, para aí, num qualquer “apeadeiro”, ou “hangar”, acumulando ferrugem até que estivessem prontos a seguir para os stocks de um qualquer sucateiro.
Mas não, o negócio dos submarinos acaba de aparecer, de novo e em força, em tudo quanto é órgão de comunicação social, jornais, revistas, rádio e televisão. Mais uma vez se fala em milhões e milhões de euros, muitos e muitos milhões. E de contrapartidas, muitos milhões de euros em contrapartidas, contrapartidas que ou não vieram nem chegarão a vir, ou que então foram parar a sítio errado, um pouco como aquilo que vem acontecendo a uma significativa parte do valor acrescentado, das mais valias, de certas empresas públicas, para públicas, ou quase públicas.
(Abril de 2010),
Ao jeito de António Lobo Antunes, apetece-me dizer, (como esta história é triste em princípios de um qualquer mês de Abril),
Os valores em jogo são colossais. E, para aqueles que tanto se opõem à construção do novo aeroporto de Lisboa, ou às ligações por TGV da capital portuguesa às outras capitais da Europa Central, que dizer da aquisição de dois submarinos para a armada portuguesa?
Naturalmente que haverá muito pouco quem ignore que um submarino é um instrumento de guerra, tal como uma fragata, um contratorpedeiro, ou um porta-aviões, coisas de países grandes e que, efectivamente, prevêem a possibilidade de vir a entrar num qualquer conflito armado.
Todos sabemos que não iremos entrar, pelo menos nos tempos mais próximos, em qualquer tipo de guerra, muito em particular guerras que envolvam submarinos. A nossa guerra, nos tempos que correm, e no que ao mar diz respeito, tem a ver com o combate a traficantes de droga, um ou outro caso de contrabando de tabaco e a imigração (imigração com i) ilegal de pés descalços, descamisados e famintos vindos do norte de África.
Ao combate a este tipo de invasões não interessam para nada os submarinos. Os submarinos, para nós, são um luxo, um luxo muitíssimo mais supérfluo do que o novo aeroporto de Lisboa ou a ligação até Madrid por TGV. Manuela Ferreira Leite, que eu tenha ouvido ou me tenha apercebido, nunca se referiu ao disparate dos submarinos. Vá lá saber-se porquê! Muito provavelmente, terá pensado como eu, que o negócio estava arrumado, e tranquilizava-se na convicção de que o processo de enferrujamento prosseguia o seu curso normal.

A preocupação de muito boa gente terá tido mais a ver com a idoneidade do sucateiro, se poderia ser de primeira ou de segunda linha, que, mais cedo ou mais tarde, lhes viria a deitar a mão, assim como quem adjudica postes de alta tensão desactivados da REN, ou rails amolgados retirados das bermas das estradas nacionais.
Eu não tenho mesmo nenhuma confiança pessoal com o actual Primeiro-Ministro, sou bastante mais velho do que ele, não andei com ele na tropa, muito menos na escola, e, por isso, não me atrevo a pedir o seu e-mail particular a quem quer que seja. Mas garanto que, se o tratasse por tu, e tivesse acesso ao seu e-mail, lhe enviaria a seguinte mensagem:
«Caríssimo amigo José Sócrates, não deixes de tomar aquela medida que, à semelhança de muitas outras bem mais simples, mas, mesmo assim bem importantes, que já tiveste a coragem de tomar, te irá colocar ainda mais na vanguarda dos grandes decisores. Chama alguém, a mim não, porque não tenho peito para isso, mas, chama alguém, da tua mais inteira confiança, uma pessoa que nunca na vida venha a ter a possibilidade de ser alcunhada de “boy”, e encarrega-o de negociar uma cessão da posição contratual quanto ao negócio dos submarinos. Quero dizer, arranjar um comprador que esteja interessado em ficar com eles no estado físico e legal em que se encontram».
Mesmo que a cessão da posição contratual fosse por um preço inferior ao que já se gastou com o projecto, ou que terá de se gastar, seria sempre mais vantajosa para a economia nacional. É que, assim, só se perderia uma parte do capital já investido, e não se incorreria num sem número de despesas de manutenção e conservação. Submarinos para quê?
(Abril de 2010 - como é triste esta história dos submarinos…)
E o negócio das contrapartidas? Agora, fala-se em investigação ao negócio das contrapartidas. Que me perdoem as minorias étnicas, a palavra é aqui aplicada por ser aquela que se vem usando há tempos imemoriais para designar tal tipo de negócios, e eu não sou o primeiro a usá-la neste contexto, já a vi em mais que um jornal, este negócio das contrapartidas é uma monumental ciganice, ou, mais comummente falando, uma descomunal ciganada.
Não duvidem, este vai ser mais um caso de investigação que vai rodar sobre si próprio, e o fim será um verdadeiro nó cego em que ninguém será julgado, muito menos culpado e menos ainda condenado. Porém, as centenas de milhões foram-se à vida. Submarinos para quê? Então não sabem, para dar origem às contrapartidas. Parece que não querem perceber o óbvio…
Convém esclarecer, em particular para os menos atentos, que este negócio dos submarinos se iniciou em 1995, quando eram Ministro de Defesa, Figueiredo Lopes, Ministro da Indústria, Mira Amaral, e o Primeiro-Ministro era o Professor Aníbal Cavaco Silva. Eu não sei, muito honesta e sinceramente, se, naquele tempo, enfrentávamos o risco de vir a ser envolvidos em qualquer guerra que, efectivamente, justificasse o apetrechamento da Armada Portuguesa com submarinos de última geração.
Sobre o significado de “Bernarda”, se o forem procurar, é muito provável que não o encontrem. Eu esclareço, trata-se de um termo usado em algumas aldeias do interior do nosso país e significa armadilha, ratoeira…, enfim, jogo falseado.

Por: José Costa Oliveira

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