Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-04-2010

SECÇÃO: Opinião

Mário de Cavez

Há uns dias atraz falando com um amigo, pelo telefone deu-me uma triste novidade que me deixou extremamente triste e desiludido.
Eu como todos, a seguir a uma desagradável notícia ficamos como é evidente, transtornados e logo temos por companhia a sempre indesejável tristeza.
A tristeza é ainda maior quando nos toca e diz algo,pois perder alguém que apreciamos e aprendemos a gostar é terrível tranforma-se numa atroz melancolia.
Nesse doloroso momento as recordações invadem a nossa memória, recordamos o passado,ouvimos e sentimos os gestos e o eco das palavras.
Ficamos obviamente paralisados,pávidos e sem qualquer reação. Tudo pára o desejo, a vontade, a força a coragem até os sonhos. À nossa volta fica instalada a cruel realidade da vida, suspiramos abanamos a cabeça e nada mais, só nos resta alguns pedaços de vida que tentamos recordar com emoção, fazemos então contas ao tempo e à própria vida, e como ela se vai comportando desde o primeiro dia em que viemos ao mundo.
Se compararmos a duração de uma vida humana, ao universo andamos por cá, apenas uns segundos, sim apenas e só uns segundos, e durante esse pequeníssimo espaço de tempo andamos consumidos e preocupados com a responsabilidade que a própria vida nos dá e com a lei que o tempo nos dita, o tempo esse também nos atraiçoa, nos castiga, consome e não pára nunca, é permanente a nossa luta contra o tempo.
Todos nós nascemos sem saber, sem querer, e sobretudo sem pedir, depois temos uma curtíssima passagem por este mundo de injustiça e....logo estamos de partida definitiva para a oculta eternidade.
Num passo o tempo passa, a passo a saudade nos abraça e apenas nos abraça, porque o tempo por nós depressa passa, passa rápido, sereno e silencioso , somos traídos pela sua consistência e sem darmos por isso o tempo passou.
O tempo a mim ainda não me apagou a memória na totalidade, por isso hoje e aqui recordo um amigo que acabei de perder, fazendo eu contas ao tempo, perdi-me nas contas e no tempo, talvez por isso o tempo depressa passou para o meu amigo Mário da ponte, fiquei baralhado com tal notícia e com o tempo.
O Mário tansportava por todo lado o nome da sua terra natal, da qual ele tanto gostava,era conhecido por Mário de Cavez, para os cavezenses o Mário da ponte, nasceu no décimo sexto dia do quarto mês de mil novecentos e cinquenta e três, precisamente na ponte de Cavez. Passou a sua infância em Cavez e se fez homem, ali aprendeu a dar os primeiros passos, a dizer as primeiras palavras a escrever as primeiras letras e até a dar os primeiros pontapés numa bola.
O Mário fazia parte duma pacata e educada família, era o terceiro irmão de quatro, dois rapazes e duas raparigas. Era casado com D. Rosa e dessa união nasceram dois filhos. O Mário tinha outra família paralela há sua própria família, era a família dos muitíssimos amigos que tinha e que ele ao longo da sua curta passagem pela terra soube muito bem grangear. O Mário em tempos foi um símbolo da nossa terra, para mim um ídolo, visto que sempre teve enorme talento e jeito para jogar futebol, jogou futebol durante muitos e muitos anos, envergou e honrou a camisola do Atlético Cabeceirence anos e anos a fio jogou ainda no Vila Pouca de Aguiar, e por seu desejo e amor à sua terra acabou a sua longa e brilhante carreira futebolista no seu querido Grupo Desportivo de Cavez, no qual foi um professor, um amigo, um conselheiro, uma referência .
O Mário era um vencedor um lutador por excelência que não dava tréguas ao seu adversário, a vontade de ganhar aliada a classe e a raça era de tal ordem que por vezes não sendo o melhor acabava quase sempre por vencer,assim acontecia nas enúmeras provas de atletismo que participava, saía quase sempre vencedor, não virava nunca a cara há luta.
O Mário era um bom amigo um homem bom, era por mim e por todos estimado e admirado, tinha um imenso orgulho na sua terra e nas suas gentes, sentia-se envaidecido por a ela pertencer; eu, tal como ele, também tenho imenso orgulho na nossa terra, tenho ainda o mesmo sentimento por ele pertencer ao grupo de pessoas do qual eu gosto muito, era um amigo que nunca dizia não faço, não posso, não tenho tempo, sempre com um sorriso e uma brincadeira um inesgotável sentido de humor, o Mário era amigo de todos e da minha família em particular, era até compadre de meus pais. Havia portanto, algo que nos aproximava e nos unia tínhamos até muitos gostos em comum, da minha parte sentia admiração e amizade. Neste momento a emoção me tomou, sinto um vazio em mim e humidade nos olhos. Estou longe, muito longe da nossa terra, estou triste, muito triste e com uma enorme saudade.
O Mário partiu sem partir porque certamente ficou nos corações de todos aqueles que tal como eu gostavam dele.
Um amigo nunca parte sem deixar um pouco de si dentro de nós, definitivamente não gosto da palavra morrer. O Mário não morreu, porque um amigo nunca morre apenas adormece, quero acreditar que um dia ainda lhe darei o abraço que ficou por dar e agradecer-lhe pela amizade, pela simplicidade e sobre tudo pelo exemplo.
Dorme em paz meu bom amigo.

F.Carvalho

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