Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-04-2010

SECÇÃO: Opinião

Cartas ao Director

Cacém, 16/03/2010
Ex. ma Senhora Professora D. Benvinda T. Magalhães

Li-o de fio a pavio como sempre faço, quando nos chega à mão o Embaixador da nossa terra o Ecos de Basto, o nº 362. Li as histórias e crónicas dos seus colaboradores, sempre interessantes e todo o conteúdo, sem deixar um artigo ou anúncio, até os que já se foram desta vida, na esperança da Ressurreição.
Fixei a minha mente na cronista Fernanda Carneiro em a Palmira Ferreira do “Fidalgo”.
Quero dizer que esta Senhora me trouxe à lembrança a morte de um familiar do Alfredo Freitas “Fidalgo”, um filho que não era legítimo mas, que mais tarde perfilhou. A Senhora Virgínia, teve do primeiro casamento três filhos. O mais velho o José conhecido pelo Zé da Virgínia, o Zé Maria e o Isidro.
Este é o que Alfredo “Fidalgo” perfilhou. Este Isidro era como se fosse meu irmão: era assim que nos queríamos.
Á conta da nossa amizade, convivi muito com esta família. Enquanto vivi na minha terra, andava sempre por casa deles na barraca no Campo do Seco.
Dos filhos do Senhor Alfredo, conheci muito bem a Maria, a Arminda e o António, dos restantes não me lembro de nenhum. Esta Palmira quando nasceu, tinha eu dezasseis anos. Em antes de contar a minha história com o Isidro, quero dizer Senhora D. Fernanda, que aprecio muito as suas crónicas.
A Senhora é uma pessoa que ama a sua terra, andando sempre em busca de histórias ou lendas que digam respeito ao nosso concelho. Li tudo o que escreveu sobre o Padre Domingos e não lhe vou enumerar qualquer crónica que escreveu, porque, as tenho lido todas.
Gosto muito da sua escrita, porque é séria e suave. Qualquer pessoa pouco letrada como eu, fica percebendo tudo sem ter que examinar o dicionário.
Sem chavões, escreve o que lhe vai na alma, como a Palmira Ferreira do “Fidalgo”.
Eram grandes amigas e ter um amigo vale mais do que uma fortuna.
Essa perda feriu-lhe o coração e não teve outro remédio senão desabafar connosco, para que ficássemos a saber como a amava, deitando cá para fora as qualidades da Palmira, que muita gente não conhecia. Os capazes são muitas vezes odiados e quantas vezes vilipendiados.
Fez muito bem a Senhora D. Fernanda, a verdade não cabe em nenhum saco.
Em antes de encetar a minha história do meu amigo Isidro, quero ainda dizer que descobri na crónica da Palmira do “Fidalgo” com muito interesse para mim, saber que a Ex.ma Directora do Jornal Ecos de Basto é nora da Arminda Ferreira “Fidalgo” e do meu amigo Zeca Moleiro recentemente falecido.
Foi o irmão dele o Manuel que carregou a minha mala na camioneta dos Marinhos na minha caminhada para Lisboa. Fiquei também a saber que a Ex.ma Senhora D. Benvinda T. Magalhães é Professora! Era o que eu pensava! Dra formada em letras, Engenharia ou Professora, pois para dirigir um Jornal não é para qualquer pessoa. Falta-me saber quem é a cronista Fernanda Carneiro? Este homem era meu vizinho.
Ele e os seus filhos todos já falecidos. O Álvaro de Barros Carneiro, o Celestino, o João e a Zeza.
O Álvaro era casado com a Albertina filha do Senhor Malvino, os outros faleceram todos solteiros, no entanto todos se assinavam Barros Carneiro.
Depois destas considerações, vamos à história do meu amigo Isidro do “Fidalgo”.
Tínhamos a mesma idade. Entramos para a Escola do Seco no mesmo dia. Desde a primeira classe até à quarta, ocupamos a mesma carteira.
Fizemos exame no mesmo dia tanto escrita como oral.
Foram nossos examinadores os Professores Alírio Queirós de Chacim, Casalta de Bucos e uma Professora de Braga. Naquele tempo, por aqui se ficava. Depois ingressamos na Arte dos sons.
No meio de todos os aprendizes, fomos escolhidos para irmos duas vezes por semana à Vila de Fafe hoje cidade, para recebermos lições individuais de Música, pelo grande Maestro da Banda de Revelhe e também da nossa. Eu tocava cornetim, o Isidro, caixa.
Pagavam-nos o autocarro e o almoço. O Isidro fez-se um grande músico de percussão, eu de cornetim, depois primeiro Feliscorne Solista.
Foram ambos no mesmo dia à inspecção militar. O Isidro ficou aprovado, eu reprovado, não tinha peso.
Quando havia de ser alimentado, faltou-me tudo, pesava com vinte e um anos quarenta e nove quilos.
Quantas vezes o meu amigo, me trazia pão escondido nos bolsos, escondido de sua mãe Virgínia.
O melhor amigo que tive na vida, assentou praça na Póvoa de Varzim. Tocou numa Banda de Música e como bom defesa que era, jogou no primeiro Time de Futebol, nesse tempo da primeira divisão.
Eu vim para Lisboa.
Isidro como jogador, depois com um dos Directores, nunca deixou de visitar-me, quando o Varzim tinha que se deslocar à Capital. Como era uma excelente pessoa teve sorte, o que nem sempre acontece aos melhores.
Isidro casou com uma moça filha de um armador que vestia Anjos e outras figuras Bíblicas, em festas religiosas e também tinha funerária. Casou muito bem! Passado algum tempo o seu sogro faleceu e o meu amigo ficou a dirigir com sua esposa a Empresa.
Homem muito sério e honesto foi granjeando amigos chegando a ser Provedor da Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Varzim.
O meu amigo Isidro, nunca deixou de ser aquele homem humilde, mesmo quando ocupou o lugar alto, de Provedor e de ser rico. Foi sempre o mesmo Isidro o mesmo irmão. Um dia, não sei bem, se foi na nossa terra se noutra, quando ia ajudar um Anjinho que não ia bem alinhado, caiu a seus pés fulminando por uma síncope, deixando grande consternação em Cabeceiras, Póvoa de Varzim e em todos os lados onde era conhecido. Tenho uma carta sua em que me diz: quando andava a ordenar a minha escrita, encontrei entre uns papéis uma carta tua, eterno amigo Jaime!
Lembrei-me que já há muito tempo te não escrevia. Tu não sabes amigo como a minha vida se modificou desde a morte de meu sogro. Desculpa.
Essa carta eu guardo como uma jóia que jamais esquecerei e guardo no escrínio das minhas saudades até ao dia em que te torne a abraçar, Isidro.
Muito tinha para lhe contar Ex.ma D. Fernanda sobre a nobreza de carácter do Isidro Ferreira “Fidalgo” porém, reduzi ao máximo este meu desabafo para não me tornar mais maçador. Boa gente.
Aceite V. Senhoria os meus respeitosos cumprimentos e muito obrigado.
Sou o V. conterrâneo.
Jaime de Sousa e Silva

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