Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-04-2010

SECÇÃO: Opinião

CONTOS DA SERRA E DOS VALES
A CAMINHO DAS MINAS

Por: Eduardo Metrosídero
(Continuação-3)

- Acho que fazes muito bem, e eu vou fazer tudo o que me for possível para te ajudar. Depois de amanhã, que é terça-feira, vou aproveitar a entrega de umas cerejas e umas vagens lá em casa do director das minas e falo logo com a mulher, uma francesa e vejo o que ela me diz, a ver se posso falar com o marido que também é francês. Ele chama-se “Monssiú Chevaliê”, é qualquer coisa assim, a mulher “Madame Josefine”, também não sei se diz mesmo assim, mas é um pouco mais ou menos. Deixa ficar, trata lá do papel com o teu pai e com o presidente da junta da freguesia e de hoje a oito dias, por esta hora, passa por aqui, está bem?
- Ó Senhora Maria, eu depois tenho que lhe agradecer…, muito e muito obrigado.
- Por enquanto, não estejas com agradecimentos que ainda não sabemos se se arranjará alguma coisa, mas, passa por aqui de hoje a oito dias, por esta hora. Agora, vai-te lá. Até amanhã.
- Até amanhã, Senhora Maria, e muito obrigado.
O rapaz saiu da casa da mulher, já era lusco-fusco, nem deu pelo caminho que percorreu, nem se apercebeu de ter passado pela frente da tasca, «Será que não estava ninguém dentro da loja, nem me apercebi, que diabo, vinha mesmo a pensar no trabalho nas minas», concluiu assim a parte final dos pensamentos que na ocasião o atordoavam, com o rosto francamente corado de expectativa.
A mulher não descurou a promessa que fizera ao jovem guardador de ovelhas da serra da Orada e, na terça-feira seguinte, a meio da tarde, depois de ter descansado um pouco da longa viagem que fizera, desde as três da madrugada, com um cesto à cabeça e um garrafão de cinco litros, ora pendendo do braço esquerdo, ora pendendo do braço direito, foi entregar as cerejas e as vagens a casa do director das minas.
O director das minas morava numa luxuosa moradia, rodeada de jardins e de frondosas árvores, a uns vinte ou trinta metros da margem direita do rio, no enfiamento da ponte que ali fazia a ligação entre as duas margens, e onde a estrada se repartia num entroncamento: uma via seguia pela margem direita do rio, no sentido inverso ao da corrente, e ligava com outra ponte que se situava junto à entrada da mina do grupo D; a outra via seguia em frente, curvando um pouco para a esquerda, dava acesso ao poço principal, onde estava instalado o grande cabrestante, mais conhecido por sarilho, e dali continuava no sentido da estrada nacional 103, que ligava Braga a Chaves, passando pela Venda-Nova.
A Maria Pequena mantinha um certo respeito pelos dois pastores alemães que, muito pachorrentamente, se movimentavam pelo interior dos jardins da residência. Não era porque alguma vez tivessem atacado alguém, mas, e no seu entender, o respeitinho sempre foi uma coisa muito bonita. De modos que, mesmo depois de Madame Josefine a ter mandado entrar, ela esperou até que a senhora chegasse junto do portão e a atendesse mesmo ali.
Feita a entrega das frutas e dos legumes, e recebida a respectiva quantia correspondente ao preço, que a francesa nunca regateava, foi directa ao assunto:
- Desculpe-me, Madame Josefine, mas seria que a senhora me poderia fazer um favor? Um grande favor!
- Diga, diga, Senhora Maria.
- Era mais com o seu marido, o Senhor Director, o Senhor Engenheiro, e também não é nada para mim, era a ver se fazia o favor de dar trabalho a um rapaz lá da minha terra, um vizinho, é um “rapazão” mesmo, e muito me pediu a ver se eu falava aqui com alguém. Alguém? Quem melhor que a Madame me pode ajudar a fazer este grande favor ao rapaz? Agradecia-lhe muito, mesmo do fundo coração, se a Madame me fizesse esse favor de falar com o Senhor Director e ele me conseguisse dar trabalho ao rapaz…
- Deixe comigo, Senhora Maria, deixe comigo, hoje mesmo vou falar com o meu marido. Passe por aqui, logo à noite, que já poderei ter uma resposta para lhe dar.
- Muito obrigada, Madame Josefine. Então, logo à noite, passo por aqui de novo a bater-lhe à porta.
- Sim, sim, até logo, Senhora Maria.
- Até logo, minha senhora, e muito obrigada.

***

Naquele mesmo dia, ao escurecer, a mulher de Petimão abeirou-se, de novo, do portão que dava para os jardins da residência do director das minas, puxou o fio que ligava com uma campainha, de badalo, que pendia de um dos caibros do telhadinho da entrada, a campainha fez tlim, tlim, tlim, três toques, e esperou, os dois pastores alemães continuavam por ali, mas não deram qualquer sinal. Passados dois minutos, Madame Josefine apareceu, desceu os três degraus que davam do pequeno pátio para a ruazinha do jardim, chegou junto da vendedora de frutas e de legumes e, sem dar tempo para qualquer tipo de questão, disse:

(Continua)

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