Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-04-2010

SECÇÃO: Recordar é viver

A RAPOSEIRA DE LUTO OUTRA VEZ!

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Chora por Alda “Revolta”

Caros amigos, mais uma vez trago notícias tristes do meu lugar preferido. Falta mais uma “inquilina” no lugar da Raposeira.
Nestes últimos tempos, quando me sento para escrever uma crónica sobre os assuntos em que me estou a debruçar ultimamente, como por exemplo, “As figuras e factos da história de Cabeceiras” eis que, com muita mágoa, alguma coisa muito triste aconteceu a alguém próximo de mim. É sempre algo que me toca de uma maneira profunda e me “obriga” a mudar o rumo da minha escrita. Tal aconteceu com o recente falecimento da Palmira do “Fidalgo”! Hoje foi com a morte da “nossa” Alda Carvalho, mais conhecida por “a Alda Revolta”. Um apelido sobejamente conhecido da maior parte dos cabeceirenses. Era filha do António “Revolta”, cobrador das camionetas, antigamente chamadas das camionetas dos Marinhos. Quem não se lembra dele?
O Arcipreste Barreto, os noivos, o Sr. António
O Arcipreste Barreto, os noivos, o Sr. António
Quem não se lembra quando ele acompanhava o nosso Arcipreste Barreto, também ele morador na Raposeira, na Casa da Residência, aquando da visita pascal na nossa freguesia de Refojos?
Os mais antigos do que eu, não se lembrarão quando ele ajudava na Igreja do Mosteiro de Refojos?
Quem não se lembra dos favores que ele fazia na cidade de Braga para as pessoas conhecidas que lhe pediam para ele trazer flores para enfeitar os altares, ou para por nos cemitérios porque, antigamente, não existiam floristas em Cabeceiras de Basto?
Quem não se lembra também dos outros filhos do António e da Miquinhas “Revolta” que jogavam no futebol? O seu filho Carlos, “O Carlos Revolta” por exemplo distinguiu-se no Atlético Cabeceirense! Os apaixonados da bola devem lembrar-se disso. Os gémeos Francisco e Narciso também jogavam, se me não falha a memória.
À esqª o Zeca "Revolta", irmão da noiva e o José de Moura, da Máquina
À esqª o Zeca "Revolta", irmão da noiva e o José de Moura, da Máquina
Mas, como atrás dizia, a Alda sempre morou, até ao dia da sua morte, ao lado da casa dos seus pais. Sempre colaborou no crescimento dos seus irmãos em especial os mais novos. Diria até que era uma segunda mãe. A Alda era aquela pessoa a quem contávamos algumas coisas relacionadas com o nosso namorico e que nos apoquentava muitas vezes.
A casa dos meus pais é praticamente colada à deles. Sempre convivemos juntos. Andamos nas mesmas escolas, pelo menos com aqueles das nossas idades. Quando eu andava na escola com alguns irmãos, nomeadamente com a Antónia, a Alda já era uma senhora casada com o Francisco Madanços, falecido há um ano.
A Alda vestida à lavradeira, talvez no cortejo do Hospital
A Alda vestida à lavradeira, talvez no cortejo do Hospital
Quando o meu avô faleceu de acidente há cerca de trinta e seis anos, precisamente no ano do 25 de Abril, junto à “loja do Carneiro ou do Correio” como era conhecida, quem primeiro chegou a minha casa para prestar apoio aos meus pais foram os da Casa do António Revolta, com a Alda à frente. Nunca deixou de dar apoio à família até ao dia do funeral. E ela fazia isso com todos os vizinhos. Podia até haver algum problema entre os vizinhos muitas das vezes causados pela “criançada” que era imensa na Raposeira mas, na hora da aflição realmente os “Revoltas” estavam sempre presentes. Não quero com isto dizer, que os outros vizinhos não faziam na mesma, mas os “Revoltas” estavam realmente muito próximos de nós. Tanto que, quando tínhamos as portas abertas, víamo-nos todos uns aos outros dentro de casa.
Vi durante toda a minha vida como a Alda ajudou a criar os seus irmãos mais novos. Como ajudou a sua mãe, a Miquinhas “Revolta” a olhar pelo seu avô “Zé Ruço” que vivia com a filha na Raposeira. E, como era difícil olhar por ele! Que Deus o tenha mas, tenho de o dizer e a família que me perdoe mas, ele tinha um feitio bastante “prepotente”, à moda antiga, que se agravou com a doença e com a idade avançada. Todos sofreram e aguentaram, mas quem realmente passou mais foi a Alda porque também era a mais velha das raparigas da Miquinhas. Também duas das suas filhas, a Deolinda e a Antónia partiram para França à procura de uma vida melhor e por lá casaram e fizeram a sua vida.
O casal Francisco Pereira Madanços e Alda Carvalho "Revolta"
O casal Francisco Pereira Madanços e Alda Carvalho "Revolta"
Tenho que dizer aqui em abono da verdade que todos trabalhavam na casa do António “Revolta”. Não havia as “mordomias” dos rapazes ficarem a olhar para o trabalho das irmãs. Não senhor! Ali trabalhavam os rapazes e as raparigas fazendo os trabalhos que as suas idades e forças o permitiam.
A juventude da Raposeira fazia da casa dos “Revoltas” a sua casa. Casa de muitos filhos, rapazes e raparigas, de maneira que quase toda as pessoas do lugar gostavam de ir para lá. A Alda lá estava, ou a limpar ou a passar a ferro a roupa dela e dos seus irmãos.
A Alda segurando a sua filha Ana Maria tendo ao lado os gêmeos Francisco e Narciso e o seu primo Zé Candinha
A Alda segurando a sua filha Ana Maria tendo ao lado os gêmeos Francisco e Narciso e o seu primo Zé Candinha
Sou alguns anos mais nova que a Alda por isso só me lembro da época, mais ou menos, de quando casou que coincidiu quando nós regressámos de Monção. Mas posso afirmar que a Alda nunca saiu daquela casa e sempre nos habituamos a vê-la presente na Raposeira. Pelo que me lembro, a Alda não era muito dada a festas. Ia sempre às procissões realizadas na Senhora da Saúde, na Senhora de Fátima e à procissão do S. Miguel. Tenho uma fotografia do carro alegórico com todos os jovens da Raposeira e arredores que participaram no cortejo de oferendas para a construção do Hospital Júlio Dinis, hoje em decadência. E, lá vemos a Alda “Revolta” vestida à lavradeira, junto à mocidade da nossa freguesia. Quantos rostos já desaparecidos! Também costumava ir a S. Bento da Porta Aberta, a pé. Numa dessas vezes fui com ela. O que ela me animou para eu conseguir acompanhá-la até ao Santuário!
A Alda e o seu marido "Chico do Rio" com os 3 filhos mais velhos
A Alda e o seu marido "Chico do Rio" com os 3 filhos mais velhos
Também colaborou mais a sua mãe Miquinhas que era toda animada para a brincadeira a fazer as bandeiras para as festas do S. Pedro que se faziam antigamente. Ainda neste último S. Pedro da Raposeira, organizado pelos Cavaquinhos da Raposeira emprestou imagens dos Santos para por na cascatinha. Só que a saudade do marido falecido recentemente a impediu de se abeirar dos festejos.
Muito tinha a dizer sobre a Alda! Os anos de convívio foram muitos. Com todas as vivências do dia a dia. Uma coisa é certa. A Alda deixou a sua marca.
Quis Deus e quis o destino que ela partisse ao fazer o ano do desaparecimento do seu “Chico do Rio”. Casal unido! Juntos nos bons e maus momentos! Serviram de exemplo.
Quero expressar aqui, através deste jornal, aos seus filhos Ana Maria (que foi a menina das alianças do meu casamento), ao Adriano, à Fátima e à Graça, nossa colega dos Cavaquinhos da Raposeira, aos irmãos da Alda e a toda a família a profunda pena e grande dor pelo seu desaparecimento.

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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