Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-03-2010

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

O SONHO DO PADRE FIRMINO (IV)
O episódio do Lyceu e do provimento da igreja de Refojos desvaneceram-se lentamente do cérebro do padre Firmino. Estava agora uns anos mais novo. Fizera amizades em Cabeceiras. Era amigo dilecto do Pe Domingos e visitava frequentemente em Paredes de Basto o Pe Albano, que tinha sido seu professor, muito bom, muito exigente e muito justo nas classificações. Um homem que conhecia o mundo e que na sua quinta do Soutinho “recebia algumas visitas de professores, clérigos e de alguns amigos ou antigos discípulos”. Tendo vagado a paróquia de S. Tiago da Faia a Câmara Eclesiástica de Braga optou por aí o colocar. “E, num belo dia de Primavera apareceu na Igreja um padre ainda novo, de 34 anos, esbelto, afável e simpático, alto e de todo fascinante”. Foi assim que o viram os seus paroquianos. No adrozinho da pequena igreja paroquial, “estavam esperando-o o sacristão (caseiro agrícola da Casa do Ribeiro), a zeladora da Igreja e professora da doutrina conhecida por Ritinha Guerra e o presidente da junta João Oliveira. Todos conversaram animadamente sobre questões da freguesia, salientando os maus acessos às matas que eram servidas por carros puxados por bois com mais de 500 quilos de peso de matos, lenhas ou outros”.
O padre via agora os seus pais em sonhos. Era na Casa do Muro, em Cerva. A mãe, a quem adorava, desejava-o ver padre. Não era a sua vocação, bem o sabia. Queria ser farmacêutico, fazer mezinhas, atender doentes. Mas o amor a sua mãe falou mais alto. E agora era padre de S. Tiago da Faia. Era altura de começar a visitar os paroquianos. E estava a ver-se entrar pelo portão de ferro da Casa do Ribeiro, dos Baptistas. Foi recebido cerimoniosamente na sala de visitas, “emoldurada por dois grandes retratos a óleo representando o pai e a mãe do (Baptista) Júnior, (…) dois quadros de muito alto valor e grande obra de arte de um pintor alemão, (…) credenciais dourados e grandes espelhos emoldurados em dourado e duas grandes estampas também muito valiosas. Jarras de cristal envolvidas em prata com belas flores artificiais e duas janelas envidraçadas e defendidas por grades de ferro, tudo revelava o bom gosto e saber” dos senhores da casa.
O padre Firmino saira maravilhado da Casa do Ribeiro. Foi brindado com uma carinhosa recepção, um belo jantar e duas incumbências: a construção na Quinta de uma capelinha em honra de Nª Srª do Amparo e aulas particulares a Alcina, a encantadora netinha de 14 anos. Mal sabia o padre que nesse dia se jogava o seu destino futuro…

***

O padre acordou ao som do toque do sino. Eram sete horas. Era o 1º toque para a missa das oito. Já entrava a claridade da luz da manhã pelas frinchas das portadas da janela do quarto. Não estava muito frio. Benzeu-se e rezou mentalmente uma oração de graças. Começava um novo ano, o último do seu mandato. Recordou o seu discurso de posse e as promessas que fizera. Não tinha sido fácil. A câmara era pobre, o dinheiro que chegava de Lisboa era parco. O poder na capital mudava constantemente de mãos e, consequentemente, de ideias. O rei, a atingir agora 20 anos, estava nas mãos do quase inválido José Luciano de Castro, mentor do partido progressista, mas homem de profundas convicções monárquicas e fiel defensor da Família Real. A demissão do Dr. Francisco Botelho, da Casa do Mourigo, do cargo de governador civil e do Pe Domingos, de administrador, tinha sido um golpe com que não contara. No entanto nunca lhe faltaram com o seu apoio e assim conseguiu uma boa acção no primeiro ano do seu mandato. Inimigos tinha alguns, quem os não tem. Mas surgia agora uma nova espécie: os políticos anticlericais. E estes perscrutaram a vida do padre Firmino e descobriram a amizade que nascera entre a pároco e Alcina, a neta querida e bonita dos senhores do Ribeiro. “Era gente maldosa; exagerava e intrigava (…) e tudo isto faziam chegar maldosamente à Casa do Muro” onde nascera e à Casa do Ribeiro, “onde a moral e a igreja eram tudo”.
Houve uma certa altura em que resolveu desistir: deixar a paróquia, fazer uma longa viagem ao Brasil, talvez ficar por lá. Os senhores do Ribeiro casaram Alcina com um industrial de Guimarães. Sabia, por linhas travessas, que o casal não se entendia muito bem. Nasceu em 1908 uma menina, Adília de seu nome. Isso não ajudou à harmonia. “O pai Baptista mandou fazer uma casa para o casal nas Barreiras (que) de nada serviu, porque o Leão (marido de Alcina) tinha diversos ninhos”.
Ouviu o relinchar do cavalo que o criado Artur aprestava e o havia de levar a Santa Senhorinha, onde ia pregar o sermão da festa do Santíssimo neste primeiro dia do ano de 1910.

(continua)


O CONCELHO NO DEALBAR DE 1910 (IV)

Se o centro do concelho é a Vila, o centro da Vila é a Praça. Tem o nome de Barjona de Freitas, homenagem ao governante que lhe deu a comarca. Diz-se “vou à Praça” ou “vou ao Mosteiro”. Porque é o Mosteiro que domina a Praça, um edifício imenso elevado a nascente, e no extremo, espectacular templo, com duas torres altaneiras e um imponente zimbório.
No pinóculo deste a estátua do arcanjo Miguel empunha a sua espada de fogo. O átrio do templo é rodeado por uma forte grade de ferro.
O edifício desenvolve-se por cima do secular claustro, de arcos que assentam em colunas toscanas, e nas suas inúmeras divisões, acolhe-se o poder: a administração, a Câmara, o Tribunal, a Fazenda, a Recebedoria, a Conservatória, os Notários.
No extremo contrário da praça ergue-se o magnífico cruzeiro da Restauração, cujo escadario está agora à vista, livre do entulho que o cobria, fruto das construções que se faziam dos lados norte e sul da Praça. Do lado direito estava já há séculos o “Basto”, de botinas, barretina e bigode, sobre a ponte que atravessa a pequena Ribeira do Mosteiro que, pelo sul, ladeia todo o largo. No lado contrário é a Casa do Barão de Basto que chama todas as atenções com os seus três andares e os seus magníficos azulejos.
A Praça está agora iluminada à noite, a primeira promessa cumprida pela vereação do Padre Firmino, a que se acrescentara uma nova plantação de árvores, “um serviço de reconhecida necessidade pública”.
Desde tempos antigos que a seu lado, no Secco, se realizava a Feira de S. Miguel. “Era um arraial enorme que durava oito dias. Dormia-se ao relento. Havia iluminações, fanfarras, ranchos, despiques, parados de gado cavalar e de gado barrosão – e de longe a longe – por uma coisa de nada, um burburinho levado dos diabos, com muitas pauladas e alguns homens estendidos. As estradas e os caminhos pareciam formigueiros. Vinham curiosos e feirantes de todas as bandas: dos lados de Braga, de Fafe, de Amarante, de Montalegre” ( Sant’Ana Dionísio).
No dia do Patrono do Concelho e da Vila celebra-se missa campal no altar que encima a imponente porta da igreja.
Na Praça estão instalados os principais serviços e comércios. Novinha em folha, nos baixos do prédio de D. Amélia Fraga, está a Estação Telégrafo-Postal. Do lado contrário está o Club Cabeceirense, aberto a um selecto número de sócios. O café “Camello” tinha reaberto após obras que o haviam transformado completamente. O grande Hotel Cabeceirense, O Hotel Lealdade e o Hotel Escacha ofereciam os seus quartos e restantes serviços. O maior comerciante da Vila – e talvez do Ccncelho – Domingos José Magalhães Basto, tinha aí o seu estabelecimento; o mesmo acontecia com Joaquim Lopes de Sousa, que dividia o seu tempo com outro grande estabelecimento comercial que abrira em S. Nicolau; a Tipographia do Jornal de Cabeceiras estava na Praça assim como a sua administração e redacção; o mesmo para a alfaiataria “Carvalho & Freitas”, a serralharia do Manuel Alves, os agentes bancários e das companhias de seguros.
Aos domingos a Praça recebia o mercado semanal. Perto, num pequeno morro o edifício do Hospital da Misericórdia.

***

A Ponte de Pé e a Rapozeira disputavam entre si a primazia. Era uma rivalidade nem sempre muito saudável. A Ponte de Pé tinha a seu favor uma maior árca de influência e alguns dos melhores prédios da Vila: a Casa da Vila, a Casa da Portela, a Casa do Herdeiro, o edifício do Asilo, a Casa do Cruzeiro, a Capela de S. Lourenço. E tinha o rio Peio que ali se abre remansoso, com as suas águas ancoradas num lago de bonitas proporções, logo seguido dum trecho coberto de rochedos, alvo apetecido nos meses de Verão.
Mas era nas festas que a rivalidade entre os dois bairros mais se acirrava. A Ponte de Pé fazia o S. João, a Rapozeira o São Pedro. Vejamos os festejos de Junho de 1909:
Ponte de Pé – S. João: “Resultado brilhantíssimo. Foi construída uma pitoresca gruta com sua cascata. As ruas estavam engalanadas e iluminadas. Destaque para as ruas Serpa Pinto e a A. Cardoso e para o Cruzeiro. O fogo foi muito vistoso. A festa foi abrilhantada pela filarmónica do regente Martins”. Um pequeno senão: “O parque ajardinado estava um bocado afastado do trânsito e pouco iluminado, mas delineado com muita arte e de magnífico efeito”.
Estava ali o dedo de José Salreta. Os outros promotores: Filipe Machado, Teotónio Falcão, os irmãos Máximo e Bernardino de Sousa Silva, António Joaquim Soares de Oliveira, Álvaro de Moura Teixeira, Bento Nogueira, Bernardino da Graça e Luís Eduardo.
A Rapozeira respondeu na semana seguinte, com os festejos a São Pedro. O projecto original foi do escrivão do 1º Juízo José Eduardo Pereira Leite, que transformou o seu magnífico chalet e o bairro “num conto das mil e uma noites” com “um bonito fogo chinês, foguetes, balões” e a “Banda Cabeceirense do regente Martins”, tendo tudo terminado com “uma opípara ceia”. Os outros promotores foram António Augusto de Oliveira, o nóvel professor Aurélio Mendes, Artur Seara, José Albino da Costa, Albino José Pereira, António Costa, Albino César Costa, o Padre Domingos e o irmão José Maria Pereira.

(continua)


NOTICIÁRIO LOCAL
(Fevereiro de 1910)

A Casa da Villa, da Ponte de Pé, está de luto. Faleceu D. Teresa Augusta de Botelho e Sousa, esposa do Sr. Álvaro Herculano de Ferreira de Mello e Andrade, prestigiado chefe do partido progressista no concelho. Também em Abadim a Casa da Mó viu desaparecer D. Umbelina Gonçalves Portela, solteira. É única e universal herdeira sua irmã Ludovina.
Na capela de Santo Amaro em Chacim são celebradas as missas do legado de D. Emília Rita Ferreira. Não caíu muito bem a absolvição dum proprietário do concelho que assassinou um seu caseiro. Foi julgado como doido. José Salreta iniciara os ensaios da sua nova peça “El-Rei Mota-Sete”, em 3 actos e 11 quadros, “mágica de grande espectáculo ornada de coros, marchas, coplas, canções, etc”; o tempo estava invernoso com “chuvas torrenciais que provocaram alguns prejuízos”.
O Revº Gonçalves, de Asnnela de Cerva, vinha pregar os sermões quaresmais na igreja de Refojos e o Dr. José Leite Pinto de Saldanha e Castro encabeçava a lista dos juízes substitutos da comarca, enquanto José Ferreira da Silva Gonçalves, professor ajudante da Escola Central de Guimarães foi despachado para a Escola Oficial de S. Nicolau.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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