Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-03-2010

SECÇÃO: Opinião

CONTOS DA SERRA E DOS VALES
A CAMINHO DAS MINAS

Por: Eduardo Metrosídero
(Continuação - 2)

Na pequena mercearia, lá do centro de Petimão, o António já tinha ouvido, por diversas vezes, variados comentários a respeito daquelas mulheres, uns mais abonatórios, como referindo a coragem e a determinação, era assim que conseguiam ganhar o pão para alimentação dos filhos, outros, menos dignos, que, sabia-se lá, o que fariam elas, pelo interior dos bosques da Borralha, com tanto homem esfomeado por ali. Enfim, bocas de quem, o que mais tem é inveja, e, no final de contas, não dispõe de unhas nem para lhes chegar aos calcanhares.
O grupo aproveitava a segunda-feira para se abastecer na feira semanal do Campo do Sêco e seguia para a Borralha às terças-feiras, madrugada cedo. O itinerário era pela Ponte Nova, pelo centro de Abadim, pelos Moinhos do Rei, Montes de Maçã, capelinha do Senhor dos Aflitos, lugar de Caniçó e dali directamente ao vale algo profundo, onde se situavam as minas, junto do curso de água, o rio, com o mesmo nome.
Partia-se de Alvite por volta das três da madrugada e chegava-se à Borralha por volta do meio-dia. Eram nove ou dez horas para calcorrear vinte e cinco quilómetros. A média era de dois e meio por hora. Faziam várias pousas pelo caminho, todas de curta duração, cinco ou dez minutos, apenas para folgar um pouco o pescoço e os ombros. Havia uma que era mais prolongada, situava-se sensivelmente a meio do percurso, era junto da Fonte da Grila, um pouco acima dos Moinhos do Rei. Aqui, comia-se a merenda e descansava-se entre trinta e quarenta e cinco minutos.
As mulheres comiam o merendeiro, bebiam uma tigela de vinho de cada um dos garrafões e depois atestavam-nos directamente da bica da fonte. A água era fresca e puríssima, até fazia bem ao vinho, representava uma percentagem inferior a dez por cento da capacidade, apenas o tornava um poucochinho mais macio e menos carrascão.
O António, que tinha feito dezoito anos, e já tinha recebido do pai a promessa de que a partir da data em que completara aquela idade passaria a ter direito a dois dos anhos em cada criação, foi falar com a Maria Pequena, no domingo à noite, depois de ter recolhido o rebanho. Bateu à porta, ela abriu:
- Boa noite, Senhora Maria.
- Olá, Tonho, então que é que te traz por cá…? Entra, entra.
- Muito obrigado, Senhora Maria – agradeceu o António, ao mesmo tempo que transpunha a estreita porta formada por quatro tábuas ao alto, cruzadas por outras três, uma em cima, outra ao meio e uma terceira na parte de baixo. Esta última tinha uma abertura, em forma de entrada de um qualquer nicho, era por ali que entrava e saía o gato, sempre que a porta se encontrasse fechada. Estava-se em finais do mês de Maio, o António completaria dezanove anos em Setembro. A mulher tinha uma pequena fogueira acesa, com um pote do lado direito da chama, onde fazia o caldo. A candeia, pendurada de um pequeno torniquete espetado na parede, por cima do escano e junto ao forno, onde semanalmente cozia as broas, alumiava, com a sua luz amarela, um pouco em redor. A taipa, que separava a cozinha do sobrado, mal se via.
- Senta-te, se queres, aí no escano, Tonho.
O rapaz, depois de dizer «com sua licença, Senhora Maria», sentou-se e continuou:
- Olhe, Senhora Maria, eu vinha pedir-lhe um favor.
- Diz lá, então que é?
- Como sabe, ou penso que deve saber, já vou fazer dezanove anos no próximo dia vinte e nove de Setembro…
- Nasceste no dia de S. Miguel?
- É, Senhora Maria, eu faço anos no dia de S. Miguel, e o que eu lhe vinha pedir era a ver se a Senhora Maria, com os seus conhecimentos que tem lá pela Borralha, me podia arranjar a eu ir trabalhar para as minas.
- Pelo que dizes, tens dezoito anos feitos, vais fazer dezanove em Setembro, não sei se sabes, mas os patrões da empresa são muito exigentes no que respeita ao cumprimento das leis e não dão trabalho a ninguém que, sendo de menor idade, não apresente um documento devidamente autenticado em como o pai o autoriza, assim uma coisa quase como quem se quer casar antes de atingir a maioridade, sabes? Achas que o teu pai te vai dar essa autorização?
- E como é essa autorização, Senhora Maria?
- Pode ser um papel feito pelo presidente da junta da freguesia e que o teu pai assina, se souber…
- Não, o meu pai não sabe assinar.
- Então, o presidente da junta preenche o papel com os dizeres que confirmam que o teu pai te dá autorização, depois o teu pai põe lá o dedo e o presidente atesta em como tudo é verdade escrevendo a assinatura dele, quero dizer, assina o próprio presidente. Entendes?
- Sim, sim, entendo sim senhora.
- No final das contas, não é mais nem menos do que um atestado. Achas que o teu pai te autoriza?
- Acho que sim. Vou ainda hoje falar com ele e trata-se disso. O que eu queria era saber se me poderão dar lá trabalho, nas minas. Preciso de ganhar algum dinheiro, é que daqui a dois anos ou até menos, posso ir para a tropa e não queria ir de mãos a abanar. Sabe como é, Senhora Maria?
(Continua)

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