Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-03-2010

SECÇÃO: Opinião

AGENTES DA PSP APANHAM PANCADA

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Detive o assaltante e apesar de pôr a minha vida em risco, não tive uma palavra da hierarquia, nem do Ministro da Tutela.
Dando continuidade ao tema anterior, como referi, tive ocorrências dramáticas com cidadãos de várias etnias, mas sempre interessado em melhorar o estado da Polícia e em cativar amizades com a finalidade de ser bem acolhido por todos os cidadãos. Entre muitos assaltos tive uma ocorrência a uma Agência Bancária da Caixa Geral de Depósitos no verão de 1975. Quando recebi a ordem via rádio para avançar, encontrava-me a cerca de 100 metros do local. Quando cheguei, encontravam-se todos os funcionários desta dependência bancária no exterior assustados com a situação, os quais me informaram: o assaltante está armado e fechou a porta. Tive a impressão que fiquei sem sangue, no entanto, peguei na pistola-metralhadora meti a porta dentro, apontei-lhe a referida metralhadora e gritei mãos ao ar, ele como possuía apenas uma arma de defesa rendeu-se de imediato, pelo que não conseguiu os seus intentos. Detive o assaltante e apesar de pôr a minha vida em risco, não tive uma palavra da hierarquia, nem do Ministro da Tutela.
Quando entrei para a Polícia e alguns anos seguintes, haviam cerca de 15 a 20 elementos a sair da esquadra só a patrulhar as ruas; chegava a haver 2 agentes a patrulhar a mesma rua, a pé, mais a tripulação do carro patrulha que circulava 24 horas sob 24 horas. Numa célebre sexta-feira à noite que por norma é noite de muitos conflitos na zona da 4º Divisão, a qual fica situada em Alcântara – Lisboa, e onde deviam circular 4 carros patrulha, porque esta Divisão tinha e tem 4 esquadras. Como 3 destes carros se encontravam avariados por falta de manutenção, só entrei eu com a minha tripulação e tive que fazer cobertura às 4 esquadras com as ocorrências escritas em lista de espera para serem resolvidas. Havia as viaturas dos comandantes estacionados no parque mas estas estavam proibidas de sair. Hoje os carros continuam na mesma situação.Não é desejável que se exija a homens com problemas de saúde a passar parte do tempo ao relento, em pé, a lidar com o pior lado da sociedade e constantemente sob a pressão psicológica caracterizada da polícia, para zelarem pela segurança dos cidadãos até uma idade tão avançada e por vezes com medo de tudo e todos.
Durante os dois mandatos do Primeiro Ministro Doutor Mário Soares, as forças de segurança tiveram um salário excelente, mas a partir da Manifestação dos Secos e Molhados, a situação começou em queda até chegar próximo do limiar da pobreza. Este governante deixou imensas saudades. Actualmente os elementos do activo trabalham com uma desmotivação enorme. Para além do que já referi, existem agrupamentos dentro da corporação que têm boas instalações, fardamento, equipamento e bom salário e só actuam em grupo de vez em quando. Dou como por exemplo o Grupo de Operações Especiais. Mas aqueles que patrulham diariamente as ruas isolados, pondo a sua vida em perigo eminente, porque a qualquer momento podem ser surpreendidos com uma facada ou um tiro, não têm onde dormir, têm que comprar fardamento, algemas, outro equipamento não existe, e levam para casa no final do mês um salário que fica longe de terem uma vida digna, no entanto são estes que engrossam os cofres do Estado. Pode dizer-se que a P.S.P. é uma instituição em crise na medida em que está ainda a viver uma fase de indefinição do modelo a encontrar. Têm-se verificado nos últimos anos, muitos suicídios na P.S.P. e na G.N.R. e estou em crer que os factos que faço referência poderão estar na origem destes trágicos acontecimentos.
Saliento que fiquei surpreendido quando tive conhecimento que dois agentes da Divisão de Trânsito da P.S.P. da Amadora em Lisboa foram notificados pelo tribunal para pagarem as custas do processo judicial em que constam como vítimas, depois de, em 2004, terem sido agredidos durante desacatos na cidade. Os agentes foram chamados a intervir no conflito quando faziam a sua habitual patrulha. À chegada ao local da contenda, acabaram agredidos por um grupo de indivíduos. Presentes a tribunal, os desordeiros foram condenados por agressão à autoridade, se bem que, por terem apresentado um atestado de pobreza, se tenham visto descartados da obrigação de pagar indemnizações aos agentes por danos físicos e morais. Cinco anos depois, os polícias foram informados de que devem ser eles próprios a suportar as custas do processo. Em suma: apanham pancada e têm que pagar.

Por: Manuel Sousa

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