Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-03-2010

SECÇÃO: Opinião

ZÉ MARIA “ O ANDARILHO” VI

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Depois de regressar da tropa o Zé Maria vinha muito mais extrovertido e logo começou a participar em tudo que eram actividades lúdicas, culturais ou desportivas. Ia dando largas à sua juventude conjuntamente com outros rapazes igualmente jovens e tal como ele não tinham família ali por perto. O centro de reunião era o clube onde havia sempre uma bola para dar uns pontapés, um baralho de cartas ou uma raquete para jogar ping-pong. Aos fins-de-semana quase sempre havia uns bailaricos e assim a vida nunca se tornava monótona.
Entretanto abre concurso para capataz de via de segunda classe e o Zé Maria entre outra apanha vaga. Como estava já com vinte e seis anos julgou chegada a altura para constituir família dado que sentia certas carências que só podiam ser superadas através do casamento. Se bem o pensou melhor o fez e por coincidência havia chegado à pouco tempo uma rapariga da metrópole e logo o Zé Maria lhe arrastou a asa e poucos meses depois estava casado.
Nasce o primeiro filho passado um ano, e três anos depois o segundo. A vida que o casal levava era sossegada e calma desta feita já fora da vila e a viver no mato. Durante o dia a sua mulher ocupava o tempo além do mais a tratar das galinhas, coelhos, perus, pombos galinhas do mato e patos. Havia sempre um talho em casa. Mas um certo dia foram aliciados pela população para se tornar comerciantes e industriais de moagens. Foi um projecto arrojado para quem tinha pouco dinheiro mas com teimosia e alguma engenharia financeira o projecto tomou forma e foi adiante.
Essas actividades paralelas aconteceram durante vários anos e hoje o Zé Maria e sua mulher ainda recordam com paixão esses tempos gratificantes vividos intimamente no seio das populações indígenas que eram afinal os seus únicos vizinhos nuns bons quilómetros ao redor.
Com a chegada da idade escolar para os filhos foi transferido para a vila, situação que se manteve ao longo de dez anos.
Como é sabido Moçambique esteve em guerra durante muitos anos. Primeiro os naturais combatiam contra os portugueses para obter a independência e depois já independentes os movimentos de libertação combatiam – se entre si pela tomada do poder e isso obviamente debilitou seriamente a economia do território.
Mas vamos às causas que ditaram o regresso do Zé Maria à sua terra natal bem assim como a de tantos milhares de portugueses, que chegaram com uma mão atrás e outra à frente. As causas são sobejamente conhecidas, um grupo de capitães que depôs o governo acabando definitivamente com a ditadura em Portugal. Só que os haveres dos portugueses nunca foram acautelados.
Foi uma descolonização apressada que se tornou desastrosa conforme se verificou mais tarde. Moçambique tornou-se independente por força da revolução do 25 de Abril de 1974. Samora Machel indigitado para presidente da jovem nação era apenas um destacado guerrilheiro e não tinha capacidade para exercer o cargo. Ainda a residir na Zâmbia já fazia discursos tão tenebrosos que punham em pé os cabelos da comunidade branca. Sem saber para onde caminhava o país os brancos, quase na totalidade, optaram por regressar às suas Pátrias onde tiveram de começar uma vida de novo e foram apelidados de retornados.
O Zé Maria estava entre os milhares de portugueses que tiveram que abandonar essa terra maravilhosa e extensa onde havia lugar para todos. Primeiro veio a sua mulher e os filhos apenas com 50 contos no bolso pois foi tudo o que deixaram trazer ainda as autoridades portuguesas.
Quatro meses depois veio o Zé Maria na qualidade de funcionário público mas de mãos a abanar.
Tudo isto aconteceu quando a sua vida em Moçambique estava lindamente estruturada. Já era capataz geral num futuro próximo.
Paciência…a vida tanto anda como desanda e não vale a pena chorar sobre o leite derramado.
( Continua)

Por: Alexandre Teixeira

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