Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-02-2010

SECÇÃO: Correio do Leitor

Cartas ao Director

Cacém,

Ex.ma Senhora D. Benvinda:

V. Senhoria não sabe quão grão é, receber o nosso Jornal Ecos de Basto e nele ver inserido o nome de um Cabeceirense que há sessenta e cinco anos, saiu dai, no dia dezassete de Março de 1944 com quase vinte e dois anos, acompanhado de minha mulher, que no dia vinte e seis deste mês de Janeiro completamos sessenta e cinco anos de casados. Com as lágrimas nos olhos, deixei a minha Ponte de Pé, um lugar dos mais progressivos do nosso Concelho nessa altura.
Dir-vos ei Senhora D. Benvinda, não sei, mas possivelmente que a Senhora é muito nova e não conheceu esse pequeno Burgo, tal como era nos meus tempos de adolescente. Aí, nessa minha Ponte de Pé, havia de tudo como na Farmácia como era costume dizer-se.
Começarei por enunciar-vos, três mercearias, três lojas de tecidos e retrosaria, três alfaiatarias, duas barbearias, três funilarias, duas sapatarias, seis casas de pasto e petiscos que nesse tempo se chamavam tascas ou tabernas. Ali havia, ferrador, marcenaria, armador, armazém de ferragens, drogaria e material de construção e uma padaria. Era ali que estava o Asilo de mendicidade e num dos baixos se fazia o Jornal Basto de uma só folha como o Jornal de Cabeceiras, só que este era dirigido por Bernardino Carqueja.
Era aí na minha Ponte de Pé, onde se ensaiava a Banda de Música Cabeceirense, onde me iniciei na arte dos sons aos onze e aos dezasseis era o primeiro Felizcorne solista.
Ao contar-vos isto minha senhora, certamente parecerá um conto de fadas, mas era assim a Ponte de Pé. O rio peio que nasce no Monte das Torrinheiras e vem cantarolando de penhasco em penhasco até se encontrar com o seu afluente no sítio da Fábrica, por aí ter havido no meu tempo uma pequena serração de madeira.
Seguindo o ser percurso, serenava no açude do Pego Negro. Dali voltava a ficar manso no Poço dos Frades. Depois aquietava-se no açude da Ponte de Pé, onde se dividia por uma levada que ia fazer mover cinco mós de moinho feitas de granito, onde os grãos de milho e saía farinha que com amor e tenacidade, minha avó, fazia bela broa . Depois lá vai o peio até Atei onde se junta ao Tâmega, este depois, no grande Rio e majestoso Rio Douro, até se espraiar no Oceano Atlântico em S. João da Foz na cidade do Porto. Ainda relativo à minha Ponte de Pé, quando saíamos da Escola Primária no Campo do Seco, íamos jogar a bola de trapos, uma partida de futebol, lançar o peão, jogar o botão, a bogalhinha, a laborinha e o repiu-piu. Todos suados e cansados, era ali na Ponte de Pé que turmas inteiras se vinham banhar.
Hoje tudo mudou! Quem diria que o campo da Vila, assim se chamava e onde se cultivava milho, é agora o centro de diversão e uma parte do comércio do melhor de Cabeceiras de Basto. Chamado hoje o campo do Quinchoso, onde dali a dois passos o nosso grande Autarca Engenheiro Barreto que muito admiro, mandou fazer uma Paraia Fluvial no Poço dos Frades.
A Ponte de Pé está moribunda, ou antes é já um cadáver. Tudo que vos conto nesta extensa carta que peço me desculpe! Mas, são tantas as coisas, que se um dia V. Senhoria se dignar a me deixar contá-las, verá, verá como é grande e extensa a Biblioteca que já foi feita por mim e já não tinha tempo de a ver transcrita devido à minha idade. As minhas memórias são extensas, pois passei quase tudo nesta vida e só quem sofre sabe escrever.
Oh! Como se me tem corrompido o corpo e a alma em pensamentos. Só o ter vindo para a Capital, pensando que a vida me ia ser fácil! Mas não minha Senhora! Foi muito difícil! Só agora ao chegar ao fim da jornada com oitenta anos de idade me lembro de tudo que por aí e aqui passei. Com a ajuda de Deus venci.
Agora vivo bem sem nada me faltar, nem a Graça de Deus me falta, nem nunca me faltou.
Gosto muito de ler e escrever e quase sempre começo uma carta e deslizo de uma conversa para a outra, mas V. Senhoria me perdoará esses deslizes.
À medida que o meu tempo se vai esgotando, mais saudades tenho da minha terra e sonho acordado com todos esses cantos e recantos.
Deixo tanta coisa escrita! Pode ser que um dia alguém venha a deliciar-se com a minha obra.
Deixo romances, poemas, contos infantis e para adultos. Assuntos bíblicos, estudos sobre Camões, Dante, Homero, Virgílio e porque não Bocage? Sendo um autodidacta, estudei Teologia, Mitologia Grega, Romana e Egípcia. Estudei o Alcorão e outras religiões Orientais. A minha intenção ao escrever-vos esta carta deslizei.
O meu propósito era e é agradecer-vos minha Senhora, o ter inscrito no jornal que V. Senhoria vem dirigindo já alguns anos, o meu pequeno poema sobre o Natal e a carta que vos enderecei a dar-vos as Boas Festas e a todos os que trabalham nesse jornal como costumo fazer todos os anos. Tenho três pequenos reparos a fazer, não culpando ninguém, pois só quem nada faz é que se não engana. O primeiro, envio-vos uma fotocópia para poupar trabalho se por ventura tiverdes paciência. O jornal era feito num prélio e não num prédio. Possivelmente devido à vossa juventude creio eu, V. Senhoria, talvez, não tenha tido contacto com essa maquineta, a qual possa ter sido inventada pelo Sábio alemão Gutemberg quando descobriu a letra de imprensa, não sei.
Segundo o povo mais maroto chamava e não chamada. Terceiro: hoje felizmente temos um jornal que não se envergonha. Entretanto está, infelizmente…
Peço imensa desculpa pelo reparo e desejo a todos vós e principalmente a V. Senhoria Digníssima Benvinda a continuação de Boas Festas. Sou o V. conterrâneo assinante e amigo.

Jaime de Sousa e Silva

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