Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-02-2010

SECÇÃO: Opinião

CONTOS DA SERRA E DOS VALES
A CAMINHO DAS MINAS

António de Moura Pereira Coutinho, filho de José Pereira Coutinho e de Maria Filomena de Moura, nasceu a vinte e nove de Setembro de 1924, no lugar de Petimão, freguesia de Alvite, concelho de Cabeceiras de Basto, tudo conforme consta do seu registo de baptismo lavrado nos respectivos livros patentes na competente Conservatória do Registo Civil da Comarca.
O António era o mais velho de cinco irmãos. Os outros quatro, dois rapazes e duas raparigas, nasceram, e de acordo com os sexos, intercaladamente, ou alternadamente, entre si, isto é, um rapaz, o chegado ao António, depois uma rapariga, a seguir o terceiro rapaz e, finalmente, a segunda rapariga e o quinto dos cinco irmãos. As diferenças de idades variavam, em média, entre os dois e os três anos.
Os pais do António eram uns pequenos proprietários do lugar. Tinham de seu um conjunto de pequenas e saibrosas leiras, encimadas por uma pequena casa meio coberta de telha e meio coberta de colmo, mesmo à saída do lugar para quem se dirigia no sentido das encostas da serra da Orada e do caminho estreito e cheio de solavancos, altos e baixos, que dava para a vizinha povoação de Passos.
Nas leiras, mas tirando mais proveito da proximidade da serra, o casal criava uma junta de touras e um rebanho formado por trinta ovelhas e um corpulento carneiro dotado de um belíssimo par de cornos em forma de caracol. Todo o gado lanígero era da raça merina. A parelha de touras, essa era da raça barrosã.
O pai do António, o Senhor José Pereira Coutinho, depositava especial brio no trato da junta das bovinas, as quais apresentavam uma pelugem amarelo avermelhada e brilhante como se estivesse permanentemente untada de gordura. Nas pontas, isto é, nas extremidades dos chifres, traziam sempre uns tubinhos de borracha, de modo a que não os esmurrassem, sempre que se coçavam de encontro a uma qualquer árvore, rochedo, ou às paredes da corte.
Na escola, o António não fora além da segunda classe, e dizia-se que muito tinham feito os pais, já que a maioria da rapaziada daquele tempo nem um único dia passava pela escola e, por essa evidentíssima razão, não conhecia uma única letra, nem que fosse do tamanho de um camião.
Quase ninguém sabia ler, mas o António sabia, e lia as notícias, às vezes com mais de um ano de atraso, que vinham nos pedaços dos jornais que a mãe trazia das lojas da Praça servindo de embrulho aos cinco ou aos dez tostões de sabão.
Estava-se agora em 1943, o António, que toda a sua vida guardara o rebanho das trinta ovelhas e um carneiro, pela serra da Orada, e que até tinha, por várias vezes, sentido inveja pela fartura de que o animal usufruía, sempre que o observava a cobrir mais uma das parceiras, pensou que, dentro de um ano, no máximo dois, poderia muito bem vir a beneficiar de algum bafejo favorável, ficar apurado nas sortes e ser chamado para a vida militar.
«Até pode ser uma grande sorte para mim, ir por essas terras abaixo, para Lisboa, para o Porto, ou para Castelo Branco, para a tropa, e depois seguir por lá outra vida diferente desta, que não passa de andar atrás das ovelhas e depois a cavar, vergado sobre o cabo da enxada, no meio daquelas leiras saibrentas».
Assim pensou o António, certo dia, quando estava sentado em cima do penedo que se situava no ponto mais alto de serra da Orada, mesmo junto do marco geodésico.
«Mas, antes de mais, preciso mas é de ganhar algum dinheiro. Onde? E como? E se eu fosse até à Borralha? É, vou falar com a Maria Pequena, ela que todas as semanas vai para lá, com aquele grupo, que vão vender pão, vinho e fruta, pode muito bem ajudar-me. Vou informar-me com ela e, quem sabe, até pode ser ela a arranjar-me lá trabalho».
Assim fez, foi falar com a Maria Pequena.
A Maria Pequena, não era nada pequena, devia medir para cima de um metro e sessenta e cinco centímetros, havia, lá no lugar, e na freguesia, muitos homens que eram bem mais baixos do que ela, e era do tipo antes quebrar que torcer. A alcunha vinha-lhe de uma das suas avós, a avó materna, que era de facto muito baixinha, não media mais do que metro e meio, e a neta, a Maria passou a chamar-se a Maria neta da Pequena, depois evoluiu para a Maria da Pequena, finalmente, ficou Maria Pequena. Ela ria-se por demais, sempre que explicava a razão de ser da sua alcunha. Bendizia a avó, que já Deus tinha, e fazia votos muito ardentes e sinceros para que estivesse em bom descanso e em paz. Terminava sempre os votos com “Ámen”.

***
A Maria Pequena comandava um grupo de sete ou oito mulheres, duas eram do lugar de Petimão e as restantes eram do centro da freguesia de Alvite, à excepção de uma, que vinha lá dos lados da Gandarela. Este grupo fazia uma viagem semanal entre Alvite e as Minas da Borralha. Cada uma transportava um cesto à cabeça com quinze a vinte quilos de frutas, legumes e broa e ainda um garrafão de cinco litros de vinho, por vezes de azeite, numa das mãos. Tratava-se, em boa verdade, de uma carga muito significativa para um percurso de mais de vinte quilómetros, talvez uns vinte e cinco, partindo do centro de Alvite.


(Continua)

Por Eduardo Metrosídero

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