Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-02-2010

SECÇÃO: Opinião

TENHO ORGULHO DA POLÍCIA DO MEU TEMPO

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À entrada de serviço os agentes contam apenas com a arma que lhes está atribuída, um distintivo e a ordem de giro.
Em Portugal temos uma polícia cujos agentes não dormem o suficiente para poderem desempenhar a sua missão na plenitude das suas capacidades físicas e mentais e em condições de segurança. Em vez disso, são obrigados a fazer gratificados entre turnos de serviço, se quiserem levar para casa um salário que fique mais longe do limiar da pobreza. Comem quando podem, nunca têm hora fixa. A maioria dos agentes ao serviço da PSP e da GNR chega do interior do país, para engrossar fileiras nas esquadras e quartéis das regiões de Lisboa e Porto. Nem sempre é fácil manterem-se em contacto com familiares e amigos, porque dinheiro e tempo são coisas que não abundam quando se trabalha na PSP ou na GNR. Acabam por viver isolados, limitados ao universo das corporações, que, não raramente, lhes é madrasta. À entrada de serviço contam apenas com a arma que lhes está atribuída, um distintivo e a ordem de giro.
Os meios que equipam as nossas polícias são fracos. A maioria deles falha nos piores momentos, por isso não podem depender muito deles.
Na parte que me diz respeito, fui alistado na PSP no dia 29 de Setembro do ano de 1970 e após ter terminado a respectiva formação fui colocado no Comando de Lisboa, bem como todos os meus colegas. Abracei esta profissão apesar das dificuldades encontradas, mas só deve entrar para a PSP quem estiver preparado para viver a Polícia e não quem andar à procura de emprego. Ao iniciar este trabalho, não existe uma imagem suficientemente clara das condições em que vive a generalidade dos efectivos que formam as forças de segurança.
Quando entrei para esta instituição o horário de trabalho era desumano. Fazia um turno de 4 horas, descansava 8 e fazia mais um turno de 4 horas. Neste intervalo fazia um gratificado e era apenas compensado com uma folga quinzenal. A situação que eu encontrei com enorme gravidade era não ter onde dormir. Havia uma pequena camarata na esquadra onde pertencia, mas não havia vaga para mim, por isso dormia num banco ou se algum colega entrasse de serviço e deixasse a cama vaga, deitava-me nessa cama que muitas vezes ainda estava quente. Quando se aproximava o dia primeiro de Maio, hoje dia do trabalhador, imediatamente se entrava de prevenção. Isto quer dizer que fazíamos o turno de serviço na rua, regressávamos à esquadra e daqui saíamos novamente para outro turno de serviço sem o mínimo de descanso. A verdade deve ser dita, cheguei a dormir de pé.
Em 1971, fui fazer uma comissão a Cabo Verde e o primeiro dia um de Maio que lá passei foi frustrante, fazia o turno de serviço na rua e regressava ao comando onde permanecia até sair novamente para a rua. Certo dia, saí para a rua no turno da 01h às 05h da manhã e curiosamente fiquei de vigilância às traseiras da unidade. Pelas 04h, o cansaço apoderou-se de mim, sentei-me numas escadas e acabei estatelado no solo a sangrar pelas narinas. Felizmente apareceu o graduado da ronda que me acompanhou até casa e me aconselhou a ir a uma consulta médica logo que fosse possível. Os polícias estão numa profissão de desgaste rápido, porque a pressão com que lidam diariamente é intensa, e além disso são mal apoiados pela corporação, à qual dedicam grande parte das suas vidas.
Em 1973, regressei de Cabo Verde e fui colocado no comando de Lisboa e entrei para a Escola Prática de Polícia, hoje Escola Superior de Polícia, onde frequentei um curso de um ano lectivo. Quando saí fui chefiar uma tripulação de um carro patrulha durante 3 anos. Tive de enfrentar centenas de ocorrências dramáticas. Antes do 25 de Abril de 1974 a Polícia era respeitada, depois deixou de o ser.
Saliento que no meu tempo a segurança a uma esquadra em Lisboa era efectuada do seguinte modo: um graduado de serviço para resolver todas as ocorrências; um agente à porta da esquadra que apenas se podia movimentar dez metros para cada lado e tinha por missão apoiar o graduado, questionar todo o cidadão que pretendia apresentar qualquer denúncia. Tacticamente seria a primeira barragem filtrante que o público encontrava antes de entrar numa esquadra. Havia ainda um terceiro agente a cerca de 30 metros da esquadra munido de uma pistola-metralhadora durante a noite o qual tinha por especial missão dar apoio ao segundo elemento, vigiar as instalações e as viaturas da polícia estacionadas no parque e toda a área envolvente. Deste modo a segurança era eficaz. Quem prescindiu deste sistema de segurança colheu os frutos relativos às invasões e agressões nas esquadras, assaltos a estas dependências e viaturas policiais queimadas estacionadas à porta das esquadras, razão pela qual tenho orgulho da polícia do meu tempo.
Continua…

Por: Manuel Sousa

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