Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-02-2010

SECÇÃO: Recordar é viver

PALMIRA FERREIRA do “Fidalgo”

foto
A filha mais nova do Alfredo “Fidalgo” partiu!

Meus amigos, antes de começar a escrever algumas palavras sobre esta figura que, era a Palmira “Fidalga”, vou aqui esclarecer o seguinte; bastantes pessoas me têm questionado porque razão é que não escrevo sobre esta ou aquela pessoa. Continuo a dizer que procuro escrever sobre algo ou sobre alguém que foi importante na minha vida; alguém que me serviu de inspiração; alguém que eu acompanhei desde a minha meninice; ou alguém que fez algo pela sua terra com o seu trabalho, na tradição e nos costumes e no exemplo com que criou a sua família. Escrevo também sobre autores clássicos meus preferidos, falo um pouco por alto sobre a história dos nossos monumentos ou melhor dizendo, transcrevo-a da monografia ou documentos de outros autores, porque nunca é demais falar sobre o nosso património histórico, o património arquitectónico e paisagístico. Para isso, aproveito a página que me é disponibilizada neste jornal para que as pessoas da nossa terra e não só, em especial os jovens fiquem a conhecer as suas origens e as possam transmitir com orgulho aos seus vindouros.
A saudosa Palmira "Fidalgo"
A saudosa Palmira "Fidalgo"
Não sou historiadora, nem antropóloga (infelizmente), já o tenho dito! Fui sempre uma apaixonada pela literatura romanceada, da história em geral e local, de ficção, de suspense, também sou uma curiosa da história como também, tenho falado no presente que me rodeia. Falo do “Autarca Corajoso”, o Engº Joaquim Barreto, representante legítimo de Cabeceiras que “ousou” e conseguiu transformar a minha terra num maravilhoso local onde se vive com qualidade de vida. Falo das tradições populares, vou escrevendo artigos de opinião sobre assuntos que por algum motivo me incomodam mas, sobretudo, escrevo procurando não melindrar ninguém, nem atentar à integridade física ou moral das pessoas. Entusiasmei-me com o assunto inesgotável que foram as Incursões Monárquicas, da altura do Padre Domingos Pereira que, quer se queira ou não, foi uma época que revolucionou Cabeceiras de Basto. Tudo isto para dizer o quê;
Têm morrido muitas pessoas em Cabeceiras de Basto, em especial aqui em Refojos, de quem eu era amiga ou muito conhecida. Não é de forma alguma, o meu papel, fazer a biografia dessas pessoas aqui no jornal. Quando escrevo algo sobre a figura de alguém que nos “deixou” é porque esse alguém me traz recordações. Podem ser boas, más ou tristes. Hoje, por exemplo, vou prestar aqui, com humildade a minha homenagem à figura inconfundível que foi a Palmira do “Fidalgo”. Peço desculpa à família, por quem eu tenho grande amizade, consideração e respeito, pelo facto de tratar aqui a Palmira pelo apelido “Fidalgo”. Mas, os “Fidalgos” só podem sentir orgulho nisso porque o nome já está registado na história cabeceirense. O nome dela é Palmira Ferreira Neiva (Neiva pela parte do marido, falecido há já alguns anos).
Se hoje, dia um de Fevereiro de dois mil e dez, estou a escrever sobre a Palmira é porque ela foi a enterrar ontem infelizmente, com grande consternação da população que a conhecia. Eu, sou uma dessas pessoas.
O Alfredo "Fidalgo" com membros da sua família
O Alfredo "Fidalgo" com membros da sua família
A Palmira “Fidalgo”, conhecia-a desde os meus tenros anos de idade, ainda ela tinha a sua querida mãe, a D. Virgínia, casada com o conhecidíssimo Alfredo “Fidalgo”. O senhor Alfredo e mais a D. Virgínia tinham muitos filhos, ainda quase todos vivos, graças a Deus, e a Palmira era a mais novinha. Foi a que ficou em casa a viver com os pais e, quando a sua mãe morreu, ficou com o pai. O Alfredo “Fidalgo” conhecidíssimo em todo o lado, mesmo portas fora da sua terra, pela sua famosa barraca tradicional “ Barraca do Alfredo Fidalgo”, na nossa famosa Feira do S. Miguel, tinha uma actividade em paralelo que hoje devido ao progresso e às novas leis deixou de se fazer. Matava porcos caseiros de confiança, comprados aos lavradores e vendia num talho (artesanal que fazia parte do antigo) em casa nos fundos. A Palmira era o seu braço direito em todas as actividades que diziam respeito à venda de carne.
Passava todos os dias, a pé, à porta do senhor Alfredo quando ia para a escola, e lá via a Palmira numa roda viva a subir ou a descer as escadas, quando era preciso vir servir os clientes que vinham buscar meio quilinho de febras ou um quilo de carne entremeada para fazer uns “rijões”, umas chouriças de sangue quando o dinheiro o permitia ou uns ossos da “suâ” que o senhor Alfredo retirava do porco com muito jeitinho com as suas facas bem amoladas. Esses ossos da “suâ” eram uma especialidade muito apreciada, quando cozidos juntamente com feijão amarelo ou outro qualquer e couves “cegadas” fininhas. Hoje já não se retiram os ossos da “suâ” como antigamente, hoje cortam-se a direito com as serras. Por isso que, naquele tempo, esta maneira de matança e desmancha dos porcos, a venda durante a semana num talho improvisado mas, muito limpo, a sua venda às segundas feiras na feira semanal era uma arte considerada uma tradição. Era tudo feito à mão.
A Palmira no meio dos seus pais, irmãos e primas, numa barraca durante a Feira de S. Miguel
A Palmira no meio dos seus pais, irmãos e primas, numa barraca durante a Feira de S. Miguel
Muitas vezes, nós, a pequenada, íamos espreitar o senhor Alfredo Fidalgo a desmanchar os porcos (sempre um pouco retirados para não levarmos com um pouco de sangue na cara), ajudado pela sua filha Palmira que “carrava” rodilhas branquíssimas para limpar o sangue da carne e pelo Benedito “Escalheiro”, um jornaleiro que fazia um pouco de tudo para o Alfredo Ferreira - “Fidalgo” - como por exemplo puxar a carroça com os porcos, ajudar a matá-los a desmanchá-los e também a rachar lenha e ajudar a levar a “carreta” para a feira semanal. Muita dessa lenha rachada pelo Benedito era para ser utilizada na barraca da Feira do S. Miguel durante os dias que duravam as Festas, para cozinhar os famosos petiscos que a “Família Fidalgo” fazia e que eram acompanhados pelo bom vinho, bebido em canecas de pó de pedra, muito usadas naquele tempo. Entre os ajudantes do senhor Alfredo estava a D. Arminda Ferreira “Fidalgo”, esposa do também conhecido Zeca Moleiro (antiga glória do Atlético Cabeceirense), recentemente falecido, sogros da nossa directora do Jornal, Professora Benvinda Magalhães.
A Palmira era muito mexida e fazia mexer pois ela não era de meias palavras. O que tivesse a dizer era na hora e com toda a franqueza! Claro que havia sempre alguém que não gostava. Como atrás dizia, a Palmira gostava de tudo muito limpo e era muito organizada, daí o seu feitio exigente. Tinha bom coração! Dava bons conselhos, principalmente aos mais novos, com toda a frontalidade! Muitas vezes lá ia dando uma chouriça de sangue ou um bocadinho de entremeada a alguém mais necessitado. Eram tempos muito duros, o dinheiro também não abundava nos bolsos de muita gente de maneira que a Palmira e o senhor Alfredo, lá iam praticando a sua boa acção.
O Alfredo "Fidalgo" e a D. Virgínia com os filhos, genro e família mais chegada. Fotografia tirada num fotógrafo ambulante que vinha à Feira de S. Miguel
O Alfredo "Fidalgo" e a D. Virgínia com os filhos, genro e família mais chegada. Fotografia tirada num fotógrafo ambulante que vinha à Feira de S. Miguel
Segundo me contam, a Palmira participou nos cortejos e ranchos antigos, que houve em Cabeceiras, talvez no tempo da professora “Maria Cambada”. Não posso afirmar! Sou bastante mais nova e isso já não é do meu tempo. Não me estranha nada porque desde a Raposeira até ao final da Ribeira toda a mocidade era alegre e em todas as casas havia muita “filharada” de maneira que, só eles, faziam um arraial. E, a casa do senhor Alfredo “Fidalgo” não fugia à regra com tantos filhos bonitos e simpáticos por sinal!
Com quem eu falava mais vezes era com a Palmira. Embora fosse mais velha do que eu, gostava de conversar com ela. Embora nos últimos tempos não conversássemos tanto. Ela era por natureza uma mulher alegre, faladora, directa! A partir da morte do pai, mais tarde a do seu marido e a sua doença é que começou a “murchar” um pouco na sua maneira de ser do dia a dia. Vi-a mais triste, mais isolada. Isto na minha opinião. Muito teria a dizer sobre ela e o senhor Alfredo mas não cabe na página deste jornal.
Deixa saudades! Para mim, a Palmira do “Fidalgo” estará ligada às minhas recordações e às tradições da nossa terra, por causa da Barraca “do Alfredo Fidalgo”.
Que Deus a tenha em eterno descanso!
Nota: Vou tornar a mostrar as fotografias que tenho antigas dos “Fidalgos” e dos seus familiares mais directos.

fernandacarneiro52@hotmail.com


Por: Fernanda Carneiro

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.