Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-02-2010

SECÇÃO: Opinião

ZÉ MARIA “O ANDARILHO” V

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Continuemos na rota da vida do Zé Maria um rapazinho que em tempos já distantes deixou a sua aldeia em Cabeceiras para ir ao encontro de melhor vida.
Império foi o barco que de Lisboa o levou até á costa oriental de África navegando noite e dia rasgando as águas dos oceanos Atlântico e Indico até aportar em Lourenço Marques no dia dezoito de Janeiro de 1954 numa viagem que demorou dezoito dias. O Zé Maria ao tempo com dezanove anos de idade, cheio de ansiedade e com 50$00 no bolso, tenta encontrar o seu pai entre a multidão que se apinhava no cais. Instantes depois abraça seu pai e pedia-lhe a bênção. Seguiram depois para o bairro do alto maé para a pensão Duriense do sr Graça tendo no dia seguinte ido para a região do sul do save onde seu pai prestava serviço numa pedreira do CFM.
O Zé Maria tinha a esperança que ficaria por ali perto quando fosse admitido como praticante de via, mas quis o destino que fosse atirado para uma distância de 1200 kms. Do seu pai, dado que tinha sido admitido em ordem de serviço par o caminho de ferro da Beira. Viajou para a Beira num velho avião Dakota e feita apresentação foi novamente atirado para o distrito de Chimoio por sinal uma região bonita e de óptimo clima, mas novamente a pouca sorte rondava o começo do jovem Zé Maria como praticante de vias férreas pois estava destinado a passar as passas do Algarve já que em vez de ficar na vila foi colocada numa remota povoação onde só havia a estação, o chefe, os factores, o capataz de via e o capataz geral. Aí sim, sentiu as verdadeiras dificuldades para quem inicia uma vida no solitário sertão africano, ser ter nada de nada. Não tinha comida, nem cama, loiças nem nada. Tinha somente lágrimas para chorar que eram suavizadas pela generosidade do seu chefe imediato o capataz Filipe dos Santos, que deixou o mundo dos vivos muito recentemente.
Em conversa que tive com o Zé Maria este mostrou-se pouco dado a recordar esse seu início de carreira o pior dos vinte e três anos que viveu em Moçambique. Algum tempo depois e quando menos esperava foi transferido para Vila Pery onde as coisas foram melhorando gradualmente.
Entretanto ao atingir a idade foi chamado a prestar serviço militar em Lourenço Marques situando-se o quartel mesmo dentro da cidade onde passou belos tempos dado que a cidade é muito bonita e a instrução a cavalo era feita dentro e fora da cidade. Foi no período de 55/56 e nesse tempo ainda a província vivia em paz tendo a guerra rebentado poucos anos depois. Enquanto recruta, todos os fins de semana se deslocava ao Inconmati para visitar o seu pai e comer uns franguinhos a cafreal, coisa que muito apreciava …
Depois de passar a pronto e quando estava de serviço ao fim de semana, então era o seu pai que se deslocava a Lourenço Marques para ver o filho enfiado na farda de caki americano, polainas antiquadas e devisas de primeiro cabo com o símbolo de cavalaria. Por esse motivo conheceu bem a cidade e os seus arredores como por exemplo a polana, Costa do sol, Malhangalene Primeiro de Maio, Jardim zoológico, Praça de touros, aeroporto, Bairro Albazine, Chipamanine, Rádio arconi e outros locais que o cabo 38 recorda com muita saudade porque L.M era uma cidade onde dava gosto viver.
Quinze meses se passaram até que chegou a hora de passar à peluda, bilhete e guia na mão e lá foi o Zé Maria novamente a caminho da cidade da Beira tendo feito uma viagem horrível no barco Moçambique dado o mau tempo que o barco apanhou em alto mar . Feita a apresentação foi mandado novamente para o Chimoio o que acolhe com certo contentamento porque era aí que já tinha algumas amizades e já nada era estranho para ele pois pretendia a todo o custo não voltar à situação anterior.
O que era então um capataz de via naquele tempo? Era um funcionário que tinha a seu cargo um certo troço de linha por quem era responsável e competia zelar e conservar em bom estado. Deslocava-se numa zorra com o pessoal e ferramentas empurrada pelos próprios trabalhadores e estava ao serviço durante vinte e quatro horas por dia não se podendo deslocar da sua área sem prévia autorização e só tinha folga semana sim, semana não por causa de eventuais acidentes. Quando chovia a potes era obrigado a rondar a linha.
Contudo era uma vida agradável e tinha as suas vantagens compensatórias.

(Continua

Por: Alexandre Teixeira

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