Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-02-2010

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (117)

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O DESTINO

Não sei se consciente, se inconscientemente, mas uma coisa tenho como certa, eu acredito no destino. Por outro lado, já aqui apresentei uma teoria, fundada em modelo matemático consistente, na qual estimava o dia exacto do meu passamento.
Dirão, então, aqueles que me lêm, que alguma coisa deverá estar errada com a minha pessoa, ou seja: se por um lado acredito no destino; e se, por outro, acabo de decifrar o dia exacto da minha partida para o outro mundo, isso então significaria, muito simples e concretamente, que eu adivinho o destino!
Nada disso, eu não adivinho, nem nunca adivinharei, o meu próprio destino, nem o destino de qualquer outro ser, ou outra coisa, nem o da nogueira que me cobre a casa e que, de um dia para o outro, pode ser derrubada por uma rajada mais forte de vento, e até cair-me em cima, e traçar, dessa forma violenta, o tal destino, que será, como venho dizendo, o meu próprio.
Mas, pode vir a dar-se a inexplicável, e, porventura, feliz coincidência de eu acertar, e, desse modo, verificar-se a compatibilidade das duas teses acabadas de sugerir, ou seja, eu passar-me desta para melhor, no exacto dia em que faria noventa e três anos e trezentos e dezanove dias. Ser-me-á erigida uma estátua por esse feito.
O turco que tentou assassinar o Papa João Paulo II, a treze de Maio de 1981, na Praça de S. Pedro, no Vaticano, Mehmet Ali Agca, foi libertado há dias, 18 de Janeiro de 2010, depois de ter passado vinte e nove anos na prisão.
Aquele cidadão turco, antes de atirar sobre o Papa, já tinha assassinado um jornalista, seu concidadão, em 1979. Na sequência do atentado contra Sua Santidade, na Praça de S. Pedro, foi condenado a prisão perpétua, em Itália.
Entretanto, em Dezembro de 1983, o Papa visitou o agressor, na prisão onde se encontrava, e de seguida falou à mãe do prisioneiro, dizendo-lhe: «fique calma, pois já perdoei a seu filho». A “justiça divina” foi a primeira a perdoar. Em Junho de 2000, foi libertado em resultado do indulto concedido pelo Presidente da República Italiana. Regressou à Turquia onde foi novamente detido para concluir a pena que lhe fora imposta pelo assassinato do jornalista turco em 1979.
No momento em que saía da prisão, no passado dia 18 de Janeiro, tinha à sua espera um esquadrão de jornalistas de todo o mundo, uma banda de música, foi alojado num hotel de cinco estrelas, em Ancara, e disse que iria revelar as razões por que tentou assassinar o Papa. Acrescentou mesmo: «eu sou o eterno Messias». Os médicos dizem que ele se encontra mentalmente desequilibrado.
Tem 52 anos de idade e passou 29 na prisão. Quando atirou sobre o Papa, parece que não o fez por brincadeira, atingiu-o na mão esquerda, no braço direito e no abdómen. Confirmou-se que foi o factor sorte que esteve do lado do Santo Padre, caso contrário teria mesmo morrido aos disparos do atirador Ali Agca. Mesmo assim, foi sujeito a melindrosa intervenção cirúrgica que demorou mais de seis horas.
É imperativo que tenhamos bem presente que este não foi, de modo nenhum, um episódio qualquer, levado a cabo por um simples tresloucado que, em princípio, pretenderia apenas ganhar notoriedade e aparecer, muitos anos mais tarde, como na verdade apareceu, a dar nas vistas e a ser perseguido por esquadrões de jornalistas e baterias de fotógrafos a tentar obter sinais de um qualquer acto inconfessável.
Ele, o turco Ali Agca, foi o promotor da revelação do terceiro segredo de Fátima. Como todos sabemos, das aparições, ocorridas no ano de 1917, a Virgem Santíssima constituiu os três pastorinhos como fiéis depositários de um segredo dividido em três partes. Mais tarde, veio a ser identificado como um conjunto de três segredos: o primeiro, o segundo e o terceiro.
As duas primeiras partes, ou os dois primeiros segredos, foram sendo revelados: o primeiro referia-se a uma visão do inferno; o segundo, à eclosão da segunda guerra mundial e, mais tarde, à conversão da Rússia; o terceiro permaneceu como segredo, propriamente dito, até tempos muito recentes. Tão recentes que, à medida que decorriam, se tornava maior a dor de cabeça de toda a hierarquia da igreja quanto ao tempo e ao conteúdo de tal revelação.
É aqui que entra o protagonista da história. Ali Agca acabou por ser o “verbo”, isto é, o enviado, para que houvesse história. A revelação do terceiro segredo tornou-se possível a partir do momento em que João Paulo II fora atingido, a tiro, no exercício das suas funções pontifícias, em plena Praça de S. Pedro, no Vaticano.
Agora, parece ser justo questionar-se se o pobre do turco, Ali Agca, não terá sido uma vítima do destino. Havia uma “promessa divina”, um sinal que deveria ocorrer, e, para isso, teria que aparecer, necessariamente, um executante.
Esta história da revelação do terceiro segredo, que me perdoem todos aqueles que tem pensamento mais positivo, não deixa de me parecer demasiado frágil. Por mim, penso que João Paulo II, fazendo jus a todo o seu carisma, poderia muito bem ter conseguido desfecho mais convincente.
Porém, não posso, nem devo, deixar de, com a devida vénia, deixar nota do seguinte: «… o segredo consiste numa visão profética, comparável à da Sagrada Escritura, que não se descrevem de forma fotográfica os detalhes dos acontecimentos futuros, mas sintetizam e condensam sobre a mesma linha de fundo factos que se prolongam no tempo numa sucessão e duração não especificadas. Em consequência, a chave de leitura do texto só pode ser de carácter simbólico …».
Não pretendendo, de modo algum, forçar qualquer tipo de interpretação que irá, muito naturalmente, para além dos meus limites cognitivos, parece-me que o turco Ali Agca acabou por ser vítima do seu próprio destino.
A metafísica tem destas coisas..., espantosas…, sem dúvida!

Por: José Costa Oliveira

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