Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 25-01-2010

SECÇÃO: Opinião

Património de Amores

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As Mulheres e o direito ao voto ou o amor à RES PUBLICA

1.
Como introdução
Joel Serrão, numa obra de referência sobre a situação da mulher no séc. XIX e focalizando-se num autor de vastas referências locais - Camilo Castelo Branco – frisa o contributo que este escritor (apesar de toda a sua altamente atribulada biografia) deu às suas leitoras -entre as poucas que saberiam escrever – para a exteriorização de paradigmas de vida familiar, conflitos de afectividade e de modelos com que a sociedade portuguesa se confrontava.
Estas leitoras (e também leitores) acabaram por apreender as vivências explicitamente femininas da altura, até pela personagem Ana Plácido que acabará por ser uma das primeiras escritoras portuguesas de oitocentos, depois seguida, não tanto falando da maldita dependência em que a mulher vivia, mas da educação, com Maria Amália Vaz de Carvalho, pela intervenção politica e trabalho com Guiomar Torresão, Angelina Vidal e Ana de Castro Osório.
Mediante a elevação cultural de algumas mulheres de círculos urbanos, instalam-se perspectivas novas que vão permitir à mulher tomar em suas mãos a própria emancipação. Estando ainda num período de romantismo, Camilo com a sua obra O Crime do Padre Amaro apresenta publicamente um retrato de algo que se o romantismo alimentava no seu bojo, novos e crus contextos sentimentais e sexuais, a partir de 1875, contribuiu para uma renovação de pensamento.
Junte-se uma Aurélia de Sousa, pintora que se auto retrata, calma e precisamente afirmando -sou eu!
E muita da marcha pela mudança começa por esta altura…
José Régio falou – “não sei por onde vou, sei que não vou aí.”.
E as mulheres assim fizeram.

2.
Maria Reynolds de Souza elaborou uma cronologia de particular valor não apenas quanto ao lento e doloroso percurso das mulheres portugueses para acederem ao direito de voto - eleger e ser elegível – mas porque também nos confirma ter sido na Nova Zelândia que ainda no séc. XIX -1893 - foi dado o direito de voto às mulheres e a primeira mulher eleita para o parlamento tenha sido na Noruega, em 1911.

Em 1911, também em Portugal vota a primeira mulher - Carolina Beatriz Ângelo - invocando uma interpretação da Lei e ganhando um direito que, embora exercido então, muito tempo aguardou para representar, de facto, um direito alargado a todas as Mulheres – 1975.

3.
Pelo sonho é que vamos…
Conforme estudos de Regina Tavares da Silva, em 1822,um deputado pela Baía (Brasil) pede o direito a voto para as mulheres mães de 6 filhos legítimos. Nem sequer foi admitida a discussão… Em 1910, é a própria Liga Republicana das Mulheres Portuguesas que entrega ao Governo provisório uma Petição onde pede o direito a voto para a mulher comerciante, industrial, empregada pública, administradora da sua própria fortuna ou alheia, diplomada com qualquer curso, literária ou escritora. Em 1911 continua com um pedido da Comissão de Propaganda Feminina, alargando o campo das possibilidades das mulheres votarem e colocando a possibilidade de as mulheres poderem ser votadas e nomeadas para comissões pedagógicas, de higiene, assim como para as juntas paroquiais (freguesias) e municipais.
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O que vai resultar são constrangimentos cada vez maiores à possibilidade de participação política da mulher, exigências desde diplomas, ou reconhecida idoneidade moral.
Em 1934, quanto à Assembleia Nacional, ocorrem as primeiras eleições em que as mulheres são eleitoras e elegíveis: Domitília de Carvalho, médica e professora, Maria Cândida Parreira, advogada, Maria Guardiola, professora. Procuradora à Câmara Corporativa, Clemência Dupin de Seabra, industrial de madeiras e Maria José Novais, proprietária.
Mas nada de feminismos nem de direitos alargados…afirma o próprio Oliveira Salazar, numa entrevista.
Mas o direito ao voto, de ser eleita e eleger tem uma longa caminhada recheada de nomes de ilustres e corajosas mulheres, alguns – poucos - homens mas os entraves são sempre de forma a parar o protagonismo da mulher.
Cada vez mais numerosas como portadoras de habilitações literárias, a entrar em novas carreiras, não apenas as tradicionais de secretária e telefonista ou de assistência social mas como professoras, médicas, advogadas, proprietárias, artistas, dirigentes políticas, assim como na maçonaria, com ligações internacionais, promovendo conferências, com inúmeras publicações didácticas, a Mulher Portuguesa procura a mudança, tendo já passado o período de encantamento pelos ideais da República, tendo passado pela desilusão dessas promessas, mas não desistindo, mesmo com fortes perseguições de unir as mulheres – todas - de um país que foi desperdiçando potencialidades, mantendo-as com o reforçado papel da Igreja, numa imobilidade que já não podia ser mais alimentada.
Elina Gumarães fez da sua área profissional, a advocacia, e do Conselho Nacional, a sua arma de luta, inconformista por definição e retomando sempre com maior argumentação as suas posições e escritos pelos direitos das Mulheres Portuguesas.
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Em 1948, Maria Lamas quando sabe que o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas vai ser encerrado porque havia a Obra das Mães criada pelo Estado Novo, o Governador Civil, teve logo a atrevida proposta de um projecto, autorizado, que a levou a percorrer o país, de máquina fotográfica ao ombro, dando à estampa, primeiro em fascículos, visados pela censura e depois, finalmente em livro -” (…) este livro, que é uma expressão de fraternal solidariedade com as mulheres do meu país. Se ele abalar a indiferença, ou antes, a ironia com que os portugueses usam encarar os problemas femininos, e alguém estender a mão, firmemente, às grandes sacrificadas, vítimas milenárias de erros milenários, que apesar de tudo, continuam a ser obreiras da vida, …” o esforço terá valido a pena.
As Mulheres do Meu País são, sem dúvida, uma obra de referência do jornalismo e da literatura portuguesa do séc. XX. E também chegou a Terras de Basto.
Há oitenta anos nasceu uma mulher distinta, única, Maria de Lurdes Pintasilgo, a 1ª Primeira-ministra em Portugal, notável a nível internacional e sobretudo pela elevação que deu ao seu desempenho político.
Esperanças que deixou…
E muitas outras, e muitas outras, coseram o tapete da esperança pelo reconhecimento na família e na sociedade…estão também aqui.
4.
De facto, a Res Publica sempre foi alvo de preocupações de uma listagem imensa de corajosas mulheres, não apenas as que tinham voz e capacidade para furar o silêncio de uma esmagadora maioria de mulheres que nem ler sabiam mas que criavam riqueza, alimentavam e suportavam famílias sem qualquer reconhecimento social ou político.
Foi, sobretudo, com esta ilusão, um sonho, que apenas vingou com a Constituição de 1976 que a Coisa Pública/Res Publica foi andando.

5.
Nesta secção de Património de Amores, esta caminhada tem lugar.
Foi pelo amor à sociedade, por uma melhor sociedade que, em particular com a emergência do projecto republicano e do seu ideário que falava da Igualdade, da Fraternidade e Liberdade que mulheres, republicanas da primeira hora, como Carolina Beatriz Ângelo, Ana de Castro Osório, Adelaide Cabete, deram a sua vida por mudanças que ainda hoje, a nossa e actual República anda a lutar pela concretização da igualdade salarial, pela igualdade de oportunidades a nível de emprego e família e, mesmo com quotas, pela participação em igualdade na vida politica.

6.
Comemoram-se os 100 anos da Declaração da República em Portugal.
Também há as vivências de como se chegou até aqui, com repúblicas democráticas, autoritárias e totalitárias, resistências e contributos para a Liberdade.
Que estas e muitas outras mulheres entrem pela porta grande. Umas mais sós, outras em movimentos organizados, são delas que hoje falamos.
Não porque tenham tido o privilégio de coser os panos verdes e vermelhos da nova bandeira - Carolina Beatriz Ângelo em Lisboa a 5 de Outubro ou a 4, data em que a Revolução deveria ter ocorrido, em Loures, por Maria Guilhermina Ascenso, ambas da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.
Não porque a luta das mulheres tenha acabado, mas porque, de facto, é oportuno relembrar todo este património de persistência e acenar aos leitores/leitoras, com as palavras de Miguel Torga:

“ Quem não lê não quer saber, quem não quer saber, quer errar.”

7.
As Mulheres têm lugares cativos na História da caminhada da Humanidade.
Ela sempre se escreveu com elas, mas silenciosas e atrás dos homens mas hoje, é o seu tempo de sair da sombra.
Porque, de facto, muito da res publica lhes saiu do corpo, da mente, do seu imenso amor à causa de todos.
Um imenso património de Amores que não merece ficar pelo caminho….
Estamos já a comemorar este Centenário, falando de Mulheres.

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