Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 25-01-2010

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

O SONHO DO PADRE FIRMINO (II)

Era a posse da nova vereação que saira das eleições municipais do dia 2 de Novembro de 1908. Só a lista “regeneradora” concorrera ao acto. Os progressistas, mais uma vez, não concorriam. A lista a sufrágio apresentara à frente alguns dos nomes da vereação que agora cessava funções e só depois os nomes dos neófitos, estes encabeçados com o nome do Sr. Pe Firmino. Lido o auto de posse pela voz treinada do secretário da Câmara, procedeu-se entre a vereação à escolha do novo presidente. E, surpresa das surpresas…ou não…o eleito foi o Pe Firmino José Alves, reitor da Faia. Uma surpresa para muitos que esperavam que o escolhido fosse Francisco José Mendes, o ex-vice presidente. O Pe Firmino sabia que devia a sua eleição ao Dr. Francisco Botelho, chefe do Partido Regenerador no concelho e governador civil de Braga e ao Pe Domingos, administrador do concelho, alma-mater dos regeneradores cujo prestígio já ultrapassara as fronteiras do concelho.
No seu discurso, o Pe Domingos congratulou-se com a vitória eleitoral do partido e com a escolha do padre Firmino para a cabeça da vereação, vitória que, realçou, também se devia ao seu trabalho e esforço. Muito aplaudido, o novo presidente da Câmara declarou a sua firme vontade de tentar resolver rapidamente os problemas de iluminação e de abastecimento de água e elogiou os melhoramentos alcançados nos poucos anos anteriores como o Lyceu Municipal e a criação de novas escolas primárias.
Aquela palavra “Lyceu” começou a martelar nos ouvidos do padre. Acordou. Um raio de luar entrava por uma fresta do seu quarto no passal da Faia. Lyceu…Lyceu…Lyceu. Um assunto que lhe vinha tirando muitas horas de sono. A sua vida começara como professor no Lyceu de Basto, ainda este estava em Gondarém, na freguesia de S. Nicolau. Este Lyceu era a côroa de glória do concelho de Cabeceiras de Basto: em Portugal só as capitais de distrito e as cidades e vilas de Lamego, Guimarães, Amarante, Setúbal, Chaves, Póvoa de Varzim, Ponte de Lima, Torre de Moncorvo e Valença possuíam Escolas Municipais Secundárias. A de Cabeceiras tinha na sua génese o legado do industrial A. J. Gomes da Cunha, falecido em Paris em 21 de Dezembro de 1893 e que no seu testamento expressou o desejo que o seu legado servisse para a construção de escolas, postos médicos, farmácias e outros espaços destinados a serviços públicos. O Dr. Francisco Botelho fora o homem que esteve à frente na formação deste grande melhoramento, procurando sempre pugnar pela sua conservação e viabilidade. Em 1906 a Escola foi transferida para a vila, ficando em Gondarém uma Escola Agrícola, Comercial e Industrial, passando o Lyceu a ser financiado totalmente pela Câmara Municipal. Mas parece que esta transferência para a sede do concelho não foi inocente: “O homem que patrocinou o decreto de 1906, que trazia nas dobras a extinção do Lyceu, e que desde longa data lhe tem feito uma guerra sem tréguas, quer fazer-se agora o seu paladino, como se alguém acreditasse na sinceridade do seu propósito! O Sr. Dr. Botelho que o criou e que lhe quer como a mais meritória das suas obras, esse é que é o seu inimigo declarado”. (J. de Cab. nº 674, de 28-02-1909).
O padre Firmino já não era professor do Lyceu quando se deram os incidentes de 1908 que foram a machadada fatal nos destinos da Escola. O governo intervira e estava-se agora à espera da sua decisão. Mas as notícias que transpiravam eram de mau agouro…
O padre virou-se novamente na cama e, como tinha a consciência em paz, adormeceu novamente. O sonho voltou. Agora já não estava no Salão Nobre da Câmara. Estava agora no seu gabinete, despachando calmamente uns papéis que o secretário Bernardino Bastos lhe passava para as mãos. O amanuense Seara pediu autorização para entrar e solicitou ao Sr. Presidente que assomasse à janela do gabinete. Intrigado, levantou-se. O amanuense abriu a janela e logo entrou um burburinho sala dentro. A cabeça do padre espreitou com cuidado e, à sua esquerda, viu o adro da igreja de Refojos, cheio de pessoas, nomeadamente de mulheres, que levantavam os braços e imprecavam violentamente alguém que queria entrar. Era um pequeno grupo. Viu o administrador José Queirós a tentar impor ordem e a proteger…quem havia de ser…o Pe António Martins Vilela…que, vinha tomar posse do seu cargo de pároco da Igreja de Refojos. Mesmo adormecido, os lábios do padre torceram-se num sorriso irónico e trocista.
(continua)


O CONCELHO NO DEALBAR DE 1910 (II)

O censo de 1900 atribuía ao concelho de Cabeceiras 16.273 habitantes, com uma ligeira predominância do elemento feminino, factor comum no país. Era uma população com uma taxa exagerada de analfabetismo (cerca de 70%) em que, nomeadamente, eram raras as mulheres que sabiam ler. Os letrados estavam na vila e eram ou funcionários públicos ou exerciam profissões liberais. Nas aldeias o pároco e o professor eram as figuras gradas, a que se juntava um ou outro grande proprietário que, normalmente, assinava de cruz.
A emigração no dealbar de 1910 continuava a ser o flagelo que diminuía a população. O Jornal de Cabeceiras assinalava na sua edição de 28-02-1909: “Nos últimos meses tinham saído muitos indivíduos do concelho para o Brasil, nomeadamente da desgraçada classe rural, que passava por uma crise angustiante”. A maior parte deles desapareceu para nunca mais se saber deles, engolidos na selva e nos seringais, derrubados ou pelas feras dos matos ou pela febre das maleitas. Alguns regressaram pobres como partiram, um ou outro arranjou fortuna, mandou construir casa nova no cimo da povoação e passou a ser “o brasileiro” da terra, como todos os outros que Camilo parodiara uns bons anos atrás. Alguns tornavam-se “comendadores”, passavam a residir em Braga ou no Porto e botavam assinatura de camarote no Teatro S. João.
O povo vivia parcamente, havendo nas aldeias ainda muitas casas cobertas de colmo. Comia-se do que a terra dava: o pão de milho e centeio, a que se juntavam as hortaliças e legumes que se colhiam na horta ao pé de casa. Temperava-se com azeite moído pelo Natal. A carne aparecia de quando em vez em dias de festa e romaria.
Aqui na zona ouvia-se falar vagamente em proletariado, mas não o havia, pois não havia indústria.
Os preços do mercado que se realizava aos domingos eram dados na semana seguinte pela imprensa local e não variavam muito. Para memória, deixemos os preços em duas ocasiões, para medidas de 20 litros.






Produto Mercado 21/02/1909 Mercado 28/12/1909
Milho branco 700 reis 650 reis
Milho amarelo 680 reis 630 reis
Centeio 600 reis 640 reis
Painço 800 reis 800 reis
Feijão branco 1$200 reis 1$200 reis
Feijão misturado 1$000 reis 860 reis
Feijão amarelo 1$100 reis 1$000 reis
Batata 420 reis 360 reis

Donde se infere que o agricultor no fim do ano estava a vender mais barato, o que significava mais uma quebra nos seus parcos rendimentos. A moeda usada nas transacções era o real (plural – reis).
(continua)


NOTICIÁRIO LOCAL
(Janeiro 1910)

Anunciava-se a nomeação de José Pereira Leite, da Cumeeira – S. Nicolau, para contínuo da Escola Agrícola de Gondarém. O Sr. António de Sousa, regenerador, de Baloutas, perdera um filhinho. Golpe doloroso já que pouco tempo antes a tuberculose lhe roubara outro filho. Também o Sr. Francisco José de Lima, da Rapozeira, chorava a morte de Estêvão, “rapaz no alvorecer da vida, trabalhador e muito estimado filho”. Rogava-se à autoridade administrativa que “ponha cobro e puna severamente uns turbulentos que andam por aí de noite fazendo algazarra e distúrbios”. No dia 19, a pretexto de “abrir as portas do Entrudo”, a Ponte de Pé “vivera uma noite de barulho ensurdecedor com buzinas, latas e tambores”. José Francisco Bastos Sanoane, “importante proprietário da freguesia de Bucos” contraíra casamento com uma prendada menina de Agra (Vieira). O advogado Sr. Francisco X. Canavarro de Valladares anuncia que vai continuar a publicação do seu folhetim (que tinha estado suspenso) no “Jornal de Cabeceiras” e que tem o curioso título: “História e Admiráveis Feitos do Famoso Mestre Ordonho e do Severo Castigo que o Senhor Rey Dom Pedro O Justiceiro deu a seus traumas e enredos”.
Mas outro folhetim estava na calha. Vai ser o “Caso do Padre de Painzela”, o “famigerado” padre Domingos Maria de Jesus Pina, acolitado pelo novo pároco de Refojos, o Padre António Martins Vilela…
(continua)




Por: Francisco Vitor Magalhães

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