Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

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SECÇÃO: Opinião

Património de Amores
A Couve com a Rosa

Veio com a couve na mão.
Estranho, pensou ela.
E o mesmo pensaram todos quantos o viram ali, ao atravessar a estrada.
Estranho porque era uma folha de couve, larga, carnuda, enrolada.
Uma simples folha e do outro lado da estrada, olhando-se, estava uma mulher..
Parecia que aquela couve não era para sopa, era pouca, só uma folha.
Também não era para animais-demasiada grande  e fresca.
Também não ia dependurada, tipo galinha para canja.
Ia carinhosamente apoiada nas duas mãos.
Também isso chocava ao olhá-los -homem e couve.
Segurar tão cuidadosamente uma simples folha de couve .
E uma mulher do outro lado.

A estrada criou o silêncio.
A perplexidade, a admiração, a surpresa.
- Que fazer com aquela couve que mais parecia uma preciosidade nas
mãos rudes ,sem dúvida, daquele homem?
Rudes, porque se viam:eram àsperas, queimadas do sol e da terra, do
cavar, da água nos regos, do frio e da geada.
Mas eram de seda a pegar na couve, no silêncio prenhe de palavras com
que olhava em frente e colava o olhar ao dela, à mulher do outro lado
da estrada.
Não havia rendas nos punhos nem botões de ouro.
Era um simples homem que ali estava.
Simplesmente.

Ela não se atrevia a deixar de o fixar.
De ver bem o que ali vinha  -era um homem com uma couve nas mãos!
-Que bizarro! pensou
-E eu que gosto tanto de rosas.Couves...
Couves para ralar e dar às galinhas...

(-Corta, não quero este filme!Não fico bem nesta fotografia.E saiu da
cena e do filme , por segundos.)

Deu corda à imaginação e como num quadro de Chagall, voou ao encontro
dele e da couve.
Voou!
E nessa decisão, levou consigo o esvoaçar do vestido, leve, os pés
saltaram as sandálias finas e ficaram os dedos , nús.
O coração no peito, de seios pequenos, batia de alegria :
- Voava para ele!

E já não queria saber da couve nem do que dali poderia vir.
Por segundos, o tempo parou.

Afinal, ele sempre se decidiu e lá foi ter com ela.
Passos firmes mas o olhar comprometido.
Encontraram-se a meio do caminho.

-Como dizer-lhe as palavras com que embrulhara, dobrara delicadamente,
aquela folha de couve?
-Como dizer-lhe que a escolhera tenra e cheirosa a terra, só pensando
nela, a mulher do outro lado da estrada?
- E quando cortou a rosa- sempre havia uma rosa! - a preciosa rosa,
que recheou de beijos, e ali depositou as palavras que não sairiam
nunca ,quando era tempo disso, como dizer-lhe?

Ali depositou os gestos que os dedos duros não conseguiam dizer.
Ali escreveu a carta mais bela de amor que nunca , de outra forma , escreveria.

Não podia falar-lhe.
Não sabia escrever.

Só podia embrulhar com a terra o seu amor - a couve, fresca eorvalhada
trazia a pérola, a rosa, que tratou com as suas mãos e a quem disse
baixinho , com os sons que não podia dizer:
-Minha querida...

Se ela, a mulher, percebeu , ainda não se sabe nesta altura da história..

Mas, parece que atordoada pela surpresa, foi para casa e sentiu
subitamente uma fome daquela couve.
Cozeu-a simplesmente e devorou-a, deliciada, de olhos fechados.
A rosa, a cada dentada, mais cheiro deitava, mais as pétalas se abriam.

No final, ela comeu a couve, deitou-se com as pétalas que entretanto
foram caindo na mesa, de toalha branca ,e sonhou com aquele homem que
lhe matara a fome.
De amor.

anapaula assunção

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