Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 04-01-2010

SECÇÃO: Opinião

“RETRATO SOCIAL DE PORTUGAL”

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Numa abordagem de José Manuel da Costa Barros, um Mondinense que a pulso, partiu do nada para o sucesso.

Apesar de ser um país pequeno, a maior parte dos portugueses exibe uma insatisfação estranha perante a vida, o País e a sociedade. Isto deve-se ao facto de termos o máximo de informação que se pode ter no mundo, isto é, pertencermos a um país rico, ao grupo de 35 países privilegiados no mundo, mas há 150 muito mais miseráveis do que nós. A maioria da humanidade está nesse mundo, e não no nosso.
Somos os piores dos melhores, os mais pobres dos mais ricos, os mais incultos dos cultos, os obsoletos dos modernos. Essa insatisfação é o abismo que vai do que temos àquilo que gostaríamos de ter ou de ser. Vivemos também obcecados com o atraso.
Os portugueses são dos povos que mais desperdiça. Desde a paisagem ao mar, à floresta, ao dinheiro, aos orçamentos públicos. Desperdiça-se…
Como se justifica este desperdício. Falta organização, falta experiência. Temos ainda essa sensação de atraso de pobreza relativa, e uma vontade de tentar matar a carência secular, que gera uma enorme preocupação no curto prazo. Fazer depressa, para ganhar depressa, para ter depressa. Por que é que países ricos, como a Suiça, Noruega, Dinamarca, etc, desperdiçam tão pouco? Porque é tudo feito sem precipitação.
As mulheres em Portugal demoram cerca de seis anos para fazer uma licenciatura, os homens quase oito. É verdade que a sociedade ainda hoje exige a uma mulher o que não exige a um homem. Dois terços dos licenciados são mulheres. Trabalham mais, têm melhores notas.
As desigualdades são maiores, não que os pobres estejam cada vez mais pobres e os ricos mais ricos. Todos estão a ficar mais ricos, mas o fosso é maior. A sociedade está de tal forma organizada que todas as empresas de vanguarda, os grandes investidores, os corruptos têm áreas de fortuna colossal. Tudo é especulativo, solos, edifícios, prédios, a bolsa, tudo permite enriquecer rapidamente e quando se chega a um certo grau de riqueza já só há um caminho: enriquecer mais.
Os jovens hoje são muito diferentes dos de outras gerações.
Hoje fazem parte da vida pública a partir dos 13, 14 anos, coisa que era impensável no meu tempo. Existe o fenómeno da cultura jovem que toma o essencial do comércio, do divertimento, da noite, das televisores, bares, etc. Hoje têm mais capacidade de consumo embora não tenham dinheiro. Não há políticos que não tenham um discurso para jovens. São clichés. Estão de olho no voto e na animação que trazem.
Perderam a reverência dos pais, e aos mais velhos, e estes, têm sentimento de culpa e receio.
Somos deprimidos, insatisfeitos, infelizes, medrosos, negligentes e desinteressados pela ciência.
No seu livro Portugal no Hospital – Identidades, Instabilidade e outras crises
( Quasi Edições 2 007 ), Paulo Cunha e Silva, toma o pulso à nação “ O diagnóstico é mau, a terapêutica é violenta e o prognóstico é reservado. O doente chama-se Portugal.
Patologistas famosos, como Antero de Quental, António Sérgio ou Eduardo Lourenço, tentaram compreender o quadro clínico, que aponta para uma síndrome de decadência e de falência da auto - estima persistente. Perdido no labirinto da saudade, Portugal é, por definição, um país adiado. Um doente que passa de médico em médico, à procura de uma explicação plausível para a sua situação”.
Dados compilados pelo Eurostat, e divulgados no ano de 2 007, indicam que os portugueses são 2,7 vezes mais produtivos no Luxemburgo. Nesse mesmo ranking, contudo, Portugal ocupa a 39ª posição, apresentando níveis de produção 40% abaixo da média europeia. Já o Luxemburgo, está na quarta posição e revela níveis de 66% acima da média.

Consequências de tudo isto

Têm mais de 40 anos. São trabalhadores no activo, a esmagadora maioria homens ( 84% ) e preferem ingerir bebidas fermentadas. Em média, mais de 20 por dia. É o português alcoólico, sinalizado por cumprir três critérios da síndrome da doença alcoólica ( DAS ).
A vida familiar e social está em risco de ruptura e três em cada dez destas pessoas já teve problemas com a lei. Na maioria dos casos por condução, mas também maus – tratos familiares.

Perfil do Alcoólico

Género – 15,8% Mulheres e 84,2% Homens.
Estrato Social – 43% Classe média baixa, 29% Classe baixa e 28% outras.
Com quem vive – 67%, com o Cônjuge, 20% com os pais, 13% sozinhos.
Situação profissional – 64,1% Activos, 34% desempregados, 1,9% reformados.
Consumo – 25 – 30 Anos, Idade em que costuma iniciar-se o consumo abusivo do álcool.
20 Bebidas em média – que cada alcoólico bebe por dia.
Periodicidade do Consumo – 90,9% Diariamente, 5,3% fim de semana, 3,8% Episodicamente.

Tipo de Bebidas – 85,2% Fermentadas, 14,8% Destiladas.
Outros Consumos – 69% Tabaco, 15% Cannabis, 11% Anti - depressivos, 10,5% heroína, 10% Cocaína.
Severidade da dependência do álcool – 65,1%Alta, 34,9% Média.

Estudo realizado pela Unidade de Alcoologia de Lisboa
a 209 doentes em ambulatório

Dentro de dois anos, vai constatar-se que o crescimento da economia portuguesa foi medíocre, seguramente menos de metade da média europeia. Dentro de dois anos, concluir-se-á, com uma grande dose de decepção, o aumento da distância e mesmo ultrapassagem feita ao nosso país por parte dos nossos principais parceiros. Dentro de dois anos, a classe média em Portugal vai encontrar-se sufocada. Dentro de dois anos, a distância entre os mais ricos e os mais pobres em Portugal ainda será maior do que é hoje, etc….


Que Riqueza Produzimos

Comparação: 2 004 — 2 009

Rendimento por habitante (EU) 74,7% 73,3%
Crescimento do PIB % 1,5% 0,6%
Inflação 2,4% 2,5%
Défice Externo 6,1% 11,1%
Endividamento 64% 90,0%
Endividamento das famílias 78,% 91,0%
Endividamento das empresas 99,% 114,0%
Taxa de Desemprego 6,7% 7,6%
Carga Fiscal 33,6% 38, 0%
Despesa pública total 46,5% 47, 8%
Despesa corrente 42,% 44, 3%
Despesa corrente primária 39,3% 40, 9%
Investimento público 3,1% 2, 5%
Défice público 3,4% 2, 2%
Dívida pública 58% 64, 0 %
Desempregados Licenciados 60 000
Desempregados Ensino Secundário Completo 65 000
Desemprego com o Ensino Básico 305 000

Fonte: Orçamento do Estado e Banco de Portugal

Três em quatro trabalhadores ilegais não têm acesso à saúde. E não beneficiam por três razões: desconhecem os seus direitos 33%, porque os profissionais lhes recusam esse direito ( 10% ), ou simplesmente porque têm medo.
Outra situação exemplar é a que se passa com os portadores de HIV. Em Portugal, a despistagem do vírus é gratuita, o que 64% dos entrevistados desconhece. É o terceiro país com maior grau de desconhecimento, depois da Grécia (83,7%) e do Reino Unido (66,7%).
120 mil imigrantes ilegais, é a estimativa em Portugal, o estudo, a que o DN teve acesso, retrata a precaridade em que vivem os imigrantes em Portugal. (40%),têm alojamento precário e (11%) vivem na rua. A origem dos imigrantes distribui-se por 85 nacionalidades, (33%) nasceu em África sub - sariana e (25%) na América Latina. A maioria é homens (53%), metade tem filhos, mas (75%) não vive com toda a família.
A nível legislativo, (78%) podem beneficiar de uma cobertura de saúde, mas só um terço conhece os seus direitos e, na prática, apenas (24%) usufruem do benefício.

Por: José Teixeira da Silva

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