Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 04-01-2010

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

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O SONHO DO PADRE FIRMINO (I)

O Reverendo Padre Firmino José Alves, muy digno reitor da paróquia de Faia, acolheu-se cedo ao seu leito no passal da freguesia naquela última noite do ano de 1909. Tinha ceado frugalmente, pois declinara todos os convites recebidos para ceias de fim de ano, convites que o honravam na sua qualidade de Presidente da Câmara do concelho de Cabeceiras.
Argumentara com os afazeres do dia de Ano Novo, a missa de preceito na igreja de Faia e o sermão que iria proferir na festa do Santíssimo Sacramento em Santa Senhorinha. Estava a tornar-se o orador sagrado mais reputado das terras de Basto, a que a sua condição de presidente da Câmara dava um mais nobre toque. Argumentara ainda com a inconstância do tempo que vinha melhorando desde os negros temporais que por volta do Natal tinham assolado todo o norte, espalhando a morte e destruição nomeadamente no Porto e terras ribeirinhas do Douro e Tâmega, que enchera de vez e tudo inundara e de que o concelho não escapara com a queda de algumas pontes sobre ribeiros, caminhos destruídos, casas destelhadas, a que era preciso agora acudir antes que a furiosa imprensa local começasse a desancar na vereação.
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Nessa mesma noite teria de estar presente no espectáculo organizado pela Associação de Beneficiência a favor do Hospital da Misericórdia. Aquela associação, que também dirigia o Asylo da Ponte de Pé, conseguira o entusiasmo do José Salreta que para o espectáculo escrevera uma comédia. Também actuaria a “Troupe dos Gondoleiros d’Alegria”, dirigida pelo José Mendes e o Aurélio, por certo, declamaria “O Alho”, que arrancaria sadias gargalhadas da assistência. No espectáculo estaria a fina flor da sociedade cabeceirense e nos intervalos era certo que se discutiria a queda do governo regenerador de Wenceslau de Lima, que levara também à demissão do Conselheiro Júlio de Vilhena, da chefia nacional do Partido Regenerador, agastado com a decisão do Rei D. Manuel que aprovara a nomeação do ministério de “Veiga Beirão”, meio regenerador, meio progressista. Estas mudanças de governo davam normalmente em mudanças de governadores civis e de administradores do concelho. Temia assim perder o José Queirós, “moço symphatico e benquisto, que allia a uma educação aprimorada, vastos recursos intellectuais” (in Jornal de Braga), como já perdera o Pe Domingos, anterior administrador e o Dr. Francisco da Casa de Mourigo, ex- governador civil, a quem devia o cargo que agora ocupava. A secção do Partido Regenerador já decidira fazer-se representar no próximo Congresso e o Padre Firmino chefiaria a Delegação Camarária. Estava mais ou menos assente que o voto cabeceirense iria para Teixeira de Sousa, um dos mais consagrados marechais do Partido Regenerador.
Domingo, dia 2, era dia de feira na vila e ao meio-dia o Presidente recebia os cumprimentos do Ano Bom nos Paços. Estaria presente a sua vereação, comandada pelo vice-presidente, Francisco da Silva Mendes, “o senhor Chiquinho de Abadim”. O administrador José Queirós não estaria presente pois fora passar o fim-de-semana à sua cidade natal nem o Dr. Francisco Valladares, brilhante advogado com escritório na vila, mas ausente em Ribeira de Pena. Não estaria também presente – era quase certo – o doutor notário José César de Carvalho Valle e Vasconcelos, semi-abalado com o Edital que nesse dia iria ser publicado no “Jornal de Cabeceiras” anunciando irem à praça os bens do lugar do Cerco, em Cavez, por mór de uma penhora que o Domingos José de Magalhães Basto, um dos mais conceituados comerciantes do concelho, agente bancário e de seguros, com estabelecimento na Praça Barjona de Freitas, o centro cívico da vila, lhe instaurara por causa de uma letra não honrada.
Estaria todo o funcionalismo, os párocos das freguesias mais próximas, alguns caciques locais das freguesias e os mais conhecidos “regeneradores” do concelho. Não haveria “progressistas” presentes mas alguns haveriam de fazer-se um dia destes encontrado com o Presidente e lhe apresentariam os seus respeitos; do chefe “progressista” local, o fidalgo da Casa da Vila, não deixaria de receber um amável cartão. O fidalgo era um senhor em toda a acepção da palavra. O mesmo não se poderia dizer do advogado António Vasconcelos, cronista verrinoso do “Povo de Cabeceiras”, mas lá estava o Falcão d’Azevedo para defender a Câmara e o seu Presidente.
Era hora de dormir. O padre aconchegou a manta de Barroso, fechou os olhos e uns minutos depois roncava. E sonhava, sonhava. Estava no mesmo Salão Nobre da Câmara, mas o dia era o 30 de Novembro de 1908. A sala estava cheia para uma cerimónia. Presidia o Administrador Padre Domingos Pereira e o secretário Bernardino Pereira Leite Basto lia um auto de posse…

(continua)


O CONCELHO NO DEALBAR DE 1910 (I)

Quando dealbava o ano de 1910 o concelho de Cabeceiras de Basto era pobre, vivendo essencialmente da agricultura (cercais e vinho verde, branco e tinto). Classificado administrativamente de 2ª ordem, incluído como sempre no distrito de Braga, tinha as 17 freguesias que vinham da Reforma Administrativa do século anterior. Comunicava com a sede do distrito por diligência ao preço de 910 reis e também com Fafe, por 710 reis, onde podia apanhar o comboio para Guimarães. Tinha a sua grande feira, chamada do S. Miguel, de 21 a 30 de Setembro, famosa em todas as redondezas, onde minhotos, transmontanos e beirões confraternizavam alegremente na prova dos vinhos novos, ainda doces como mel, com alguma bordoada à mistura. O concelho tinha uma estação telegráfica-postal de 2ª classe funcionando na vila e uma estação postal em S. Nicolau. Aos domingos tinha o mercado semanal na Praça Barjona de Freitas, homenagem ao estadista que lhe dera a comarca, mercado este que no 4º domingo de cada mês se realizava nas Pereiras, para alegria dos pobres hóspedes forçados da cadeia.
A Praça Barjona de Freitas era o centro cívico da vila e construíam-se afanosamente aí prédios de tal modo que o escadório do Cruzeiro da Restauração estava atulhado de detritos e escondido no chão. A Ponte de Pé, com a mercearia de Álvaro de Moura Teixeira e o Asylo de Mendicidade, e a Raposeira eram a seguir os dois locais com mais construção e mais habitados e estava a nascer o bairro do Pinheiro. Os viajantes acolhiam-se no “Grande Hotel Cabeceirense”, de José Bernardo de Moura ou no “Lealdade”, de Franscisco José Pereira. A saúde dos cabeceirenses era tratada no Hospital da Misericórdia, de que era provedor Justino Albano de Sousa, iam-se mércar os remédios às boticas do Franklim Vaz ou do M. Barros & Cª. Mais sorte tinham os pobres de S. Nicolau que se aviavam, gratuitamente, na farmácia do Instituto Gomes da Cunha, onde eram atendidos pelo farmacêutico Francisco Maia. O Instituto, mercê da doação do grande benemérito Gomes da Cunha, ainda tinha ao dispor o médico Dr. Arnaldo Pereira Leite. Na vila tratavam ainda da saúde o Delegado, Dr. Diocleciano Dias Peixoto e o médico municipal Franklim Bastos. Quando a coisa dava para o torto, passava-se algum tempo no Asylo da Ponte de Pé, cujo provedor era Manoel João da Silva Macedo. Daí normalmente dava-se um último passeio até Vinha de Mouros. Onde Cabeceiras dera cartas tinha sido no ensino: tínhamos uma Escola Municipal Secundária na vila, a que pomposamente se chamava o Lyceu Municipal, mas que de momento se encontrava à beira da extinção e uma Escola Agrícola, Comercial e Industrial em Gondarém, ainda por conta do legado de Gomes da Cunha, em processo de reestruturação. Todas as freguesias tinham escola primária, com excepção de Alvite, Santa Senhorinha, Faia e Vila Nune (em alguns casos escola masculina e escola feminina separada). Lameiros beneficiava duma Escola Paroquial onde leccionavam os professores Júlio de Oliveira e Maria Eugénia Falcão.
A Santa Madre Igreja tinha como arcipreste o pároco de Pedraça, Pe Manuel José Queiroga de Oliveira, e cada paróquia tinha o seu pároco (que era presidente da junta paroquial por inerência), com a excepção de Vila Nune.
O concelho tinha então a mais aguerrida imprensa da Terra de Basto: “O Jornal de Cabeceiras”, órgão do Partido Regenerador no poder, propriedade de Domingos Teixeira Pereira e cujo director era José Augusto Falcão de Azevedo e o “Povo de Cabeceiras” de que era redactor o advogado António Teixeira de Vasconcelos. Não queira o leitor saber, para já, o que estes dois semanários diziam um do outro…

(continua)


NOTICIÁRIO LOCAL

O ano principiara com a festa no dia 1 em honra do Santíssimo Sacramento em Santa Senhorinha. O orador sagrado foi o Pe Firmino José Alves, reitor da Faia e Presidente da Câmara. Nessa noite realizou-se um espectáculo de teatro a favor do Hospital da Misericórdia. José Salreta obteve um grande êxito com a sua comédia “Dois mortos vivos”. Abrilhantou o sarau a “Troupe dos Gondoleiros da Alegria”, dirigida por José Mendes. Tinha falecido o Sr. José Luís Gonçalves Ferreira, abastado capitalista, sogro do Sr. Barão de Basto e do Sr. Alexandre Augusto Fernandes Basto, da Casa do Mosteiro. Anunciava-se uma sindicância ao “digno escrivão da fazenda d’este concelho, Sr. Martinho de Mello Gama”. Insinuava-se que era o tradicional sistema da política progressista local. O Jornal de Cabeceiras, sob o título “Administração Local” dizia saber que os “endireitas locais – mixto de progressistas, franquistas, nacionalistas e não sabemos se sebastianistas” tinham convocado uma reunião para discutir o “algo melindroso caso da administração do concelho”. Tinha falecido em Painzela D. Guilhermina da Cruz Magalhães. O seu funeral vai dar ocasião a mais uma célebre polémica entre os dois jornais cabeceirenses em que o pároco de Painzela, Domingos Maria de Jesus Pina e o vigário de Refojos, Pe Martins Vilella, se vão ver metidos entre a espada e a parede. Uns dias depois falecia o conceituado comerciante e industrial Fortunato José de Sousa Basto, amigavelmente conhecido pelo Fortunato dos Pereiras.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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