Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 04-01-2010

SECÇÃO: Opinião

ZÉ MARIA “O ANDARILHO” III

Já sabemos que o Zé Maria protagonizou algumas aventuras e desventuras, após a sua chegada à cidade Invicta. Depois de ter começado a trabalhar na fábrica da louça, o seu quotidiano quase nunca sofria alterações.
A sua mãe sempre que tinha portador nunca deixava de mandar um cabaz com aquelas coisas que a terra dá, porém essa coisas eram gastas em proveito da casa e ao Zé Maria nunca tocava nada, então o rapaz abria as gavetas da cómoda e tirava uma maçã, uma pêra, um abrunho ou outra coisa qualquer e tantas vezes repetia o gesto até que era descoberto.
Em dias de solidão o Zé Maria tinha saudades da sua mãe, dos seus irmãos e de tudo que o ligava à aldeia que o viu nascer, tão linda e diferente da cidade grande. Nunca mais pisou o centeio do lavrador para ir roubar cerejas, nunca mais voltou a correr por montes e vales e trepar às árvores à procura de ninhos ou roubar fruta às escondidas. Não voltou a apanhar landres ou murrão de centeio para ganhar uns tostões. Tinha saudades de quando nadava nas águas límpidas do rio da sua terra e dos peixinhos a picar-lhe os pés. É bem verdade que só damos valor à nossa terra quando a vida nos empurrou para terras distantes.
O bulício da cidade não nos dá aquela paz de espírito que se sente nas aldeias nem a franqueza das gentes que nelas habitam. Sua mãe raramente via o filho, mas quando isso acontecia sempre lhe dizia, meu filho…está tão magrinho!. Mas o Zé Maria nunca se queixava de nada porque apesar de tudo não queria voltar para a aldeia.
Mas o destino marca a vida das pessoas e por vezes contraria as suas vontades. O seu pai havia algum tempo tinha ido para Moçambique com carta de chamada mandada por alguém da sua terra. Já com oito filhos e alguma idade já não própria para emigrar nunca deixou de cumprir com os deveres de pai e marido. Um dia chegou uma ordem dada por ele. O Zé Maria tinha que regressar à aldeia e completar a escolaridade básica já que era intenção de seu pai mandá-lo ir para Moçambique e empregá-lo no caminho de ferro.
Com mágoa o Zé Maria partiu para a sua terra afim de cumprir aquilo que o seu pai tinha determinado. Teve sorte em encontrar um competente professor de apelido Barreto e por sua vez o Zé Maria aplicou-se com tanta determinação que em dois meses e meio de escola fez exame na antiga escola do Campo do Seco sendo aprovado com distinção.
Pouco tempo depois voltou ao Porto porque ainda não tinha idade para ingressar no caminho de ferro e por isso teve que arranjar novo emprego desta feita na fábrica de garrafas e garrafões onde se trabalhava por turnos. Esta fábrica ficava junto à marginal do Rio Douro.
A centenária fábrica Barbosa & Almeida transferiu-se para Avintes V. N. de Gaia sendo hoje no género a melhor da Europa e pertence a um grande grupo económico do Norte de Portugal. Mas apesar de tantos anos passados, o Zé Maria jamais esqueceu os seus patrões que para a época eram excelentes pessoas. Barbosa era o patrão Rui, Almeida era o patrão Armando e o Sr. António era o encarregado geral. Nesse tempo a fabricação de garrafas e garrafões era tudo manual e os garrafões empalhados por empalhadeiras. Os operários pertenciam a três grupos, colhedores, garrafeiros e rapazes da gaiola. Os fornos trabalhavam a altíssimas temperaturas e olhar lá para dentro e ver um pequeno mar de vidro em fusão era ter pela frente um pequeno Inferno.
Os colhedores munidos de uma cana de ferro com uma maçaneta de barro na ponta à qual enrolavam o vidro em fusão e de seguida vazado para um molde composto por três partes, fundo da garrafa, corpo e gargalo. O molde quando cheio, o garrafeiro com uma tesoura rapidamente cortava o vidro desligando-o da cana do colhedor e injectava ar frio na garrafa já feita. Então abria o molde e com uma tenaz colocava a garrafa numa gaiola que o rapaz levava até à boca do forno para a cosedura final.
Com os garrafões era um pouco diferente porque eram bufados pela boca do próprio homem sendo um trabalho claramente desumano.
O calor nos postos de trabalho era tanto que os operários recebiam permanentemente nos seus rostos lufadas de ar frio… Por isso esses trabalhadores nunca tinham uma vida muito longa, quase sempre morriam com pneumonias.

(Continua)

Por: Alexandre Teixeira

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