Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-12-2009

SECÇÃO: Opinião

“Crónicas de Lisboa”
Quando eu era menino, (não) havia Natal?

Quando eu era menino, era (muito) pobre e, para mim, o Natal era um “luxo” dos outros meninos, ricos ou remediados. Todos os anos, havia na igreja da minha aldeia, um presépio muito bonito e no qual estava um menino que tinha nascido tão pobre quanto eu, porque também eu nasci numa “manjedoura” e no dia do Seu aniversário de nascimento (25 de Dezembro), celebrava-se esse acontecimento e o padre dava-nos a beijá-lo, nu como tinha nascido, tal como todos nós, residindo aí a única igualdade entre os pobres e os ricos, isto é, nascermos todos nus.
Tal como Jesus, menino entretanto feito homem e do qual não se conhece a sua vida na fase da idade da adolescência e da juventude, segundo as escrituras bíblicas e das quais muito pouco sei, também eu fui “promovido”, prematuramente, a homem muito cedo e parti, por este mundo, deixando a minha aldeia beirã, tal como Jesus o fez, onde nasci e cresci até aos onze anos. Não parti para pregar a doutrina do bem, do amor e da fraternidade entre todos os seres humanos, mas sim para lutar contra a fatalidade de ter nascido pobre e pobre poder vir a ser toda a vida, se cruzasse os braços e me resignasse à minha origem de família pobre. Se Cristo lutou contra os adversários, ao ponto de ser condenado e crucificado, também eu lutei contra muitas adversidades e sofrimentos, mas “pé ante pé”, fui vencendo cada etapa da vida e deixei de ser pobre, material e culturalmente falando. Fui, na escola (real), mas também na dureza da vida, por vezes a melhor escola, aprendendo a ser homem e fui vencendo. Fiz-me homem e atingi a “riqueza”, não a riqueza material de que se fala e que “cega” e leva à “perdição” de muita gente, mas uma certa “riqueza” assente na realização pessoal e profissional, pelo que me posso considerar um privilegiado, colhendo os frutos de muita luta e ainda maiores sacrifícios. Valeu a pena ter lutado. Contudo, o “desgaste” dessa luta também apareceu para me fazer companhia ou me transmitir a mensagem de quão frágil é esta nossa vida e, por isso, aprendi ainda mais os valores de que nós, os seres humanos, deveríamos praticar e ver nos outros, seres como nós, uns mais ricos e outros mais pobres, mas todos filhos de um Deus maior que, por vezes, parece esquecer-se daqueles que sofrem.
Olhando em redor, num horizonte global, fico magoado por ver que, a final, a doutrina de Cristo, que é (deveria ser) uma referência mesmo para aqueles que não acreditam ou professam outras religiões, foi sendo substituída, neste últimos tempos, com uma velocidade estonteante, por uma outra “religião” e que se chama “consumismo”. Esta, que em vez de pregar a fraternidade entre os humanos ou “servindo-se” desses sentimentos (in) genuínos, faz apelo a outros valores que nos tornam, nós humanos, menos sensíveis aos problemas dos outros e nos deixam mais pobres, apesar de, materialmente falando, nunca a sociedade ocidental ter tido um nível de vida como o actual, apesar das “nuvens negras” que pairam sobre nós, fruto de uma crise de crescimento e que torna o “futuro negro e incerto” para muita gente, principalmente para os “filhos da crise” e da falta de visão dos políticos e governantes.
O Natal (este “novo” Natal) até começa cada vez mais cedo, por efeito também das acções e da força do Marketing, mas também porque muito cedo, crianças, jovens e adultos começam a desejar que esse Natal chegue depressa. Que “pobres” que nós somos, apesar de cada vez mais estarmos rodeados de bens materiais (somos ricos, por isso?), muitos dos quais acabam por ser inutilidades e desperdícios! E no meio de tudo isto, há tanta hipocrisia e tanta frieza em torno dum período que deveria ser de doze meses em cada ano de fraternidade, de solidariedade e de paz e amor. Paradoxalmente, comemoramos um aniversário e não “convidamos” o aniversariante e pensarmos na força e na actualidade das Suas mensagens e, meditando nelas, podermos fazer uma autocrítica dos nossos (novos) “valores” e dos nossos comportamentos. Quantos de nós não nos sentimos tristes logo no dia 26 de Dezembro e à espera de um outro Natal? Sinto-me “pobre” e perdido neste tipo de Natal e fico (muito) triste, mais triste ainda neste período do que durante o resto do ano, porque talvez estejamos a ficar cada vez mais “pobres” e mais frios e isso não nos traz a felicidade e a (outra) riqueza. Há mais valores para alem do consumismo e do bem-estar material. Meditemos nisso.
Serafim Marques
Economista

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.