Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-12-2009

SECÇÃO: Opinião

LEMBRAR OS COMBATENTES DO ULTRAMAR

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Um destes dias entendi rever o espólio das recordações dos meus pais e encontrei duas fotografias que me emocionaram, tiradas nas décadas de 60 do século passado, já lá vão mais de 40 anos. Fiquei comovido porque os anos passaram e mal damos pela sua passagem. Por outro lado fez-me lembrar os nossos combatentes que tanto sofreram e centenas morreram em defesa da Pátria.
As fotografias localizadas são relativas ao meu irmão Edmundo Teixeira de Sousa, que foi mobilizado para Angola no ano de 1965, onde veio a falecer no dia 3 de Agosto deste mesmo ano. Despediu-se da família para um dia voltar a rever. Enviou aos pais uma fotografia do navio que o transportou chamado paquete Vera Cruz e descreve no verso que esta fotografia foi tirada em Lisboa, quando embarcou, onde viajou 10 dias sem ver terra e onde esperava voltar a viajar ao fim de 2 anos. Descreve também que este navio que a fotografia documenta, tinha mais 3 andares debaixo de água. Nestas poucas palavras que ele escreveu, concluí existir uma certa alegria e emoção o que dá a entender que sentia esta viagem com destino à morte.
Chegada a notícia através de um telegrama, viveram-se momentos arrepiantes e difíceis de descrever. Este homem, casado, deixou uma filha com pouco dias de vida, que nunca chegou a conhecer o pai. Pelos factos expostos, ficou um lar destruído, ficou um lar desamparado, ficou um lar sem alegria. Diversas versões se ouviram sobre este trágico acontecimento, mas oficialmente nunca ninguém relatou a origem desta morte.
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Perante tal situação contactei alguns combatentes e tive relatos surpreendentes, mas vou referir apenas um para não ferir em demasia o sentimento dos familiares. O combatente Arlindo Gomes refere que foi mobilizado para a Índia no ano de 1961. Passados dois dias foi desmobilizado. Disse que sentiu uma alegria enorme por este volte-face, mas esta alegria sofreu um rude golpe quando lhe comunicaram que tinha sido desmobilizado para seguir para Angola no paquete Niassa, onde se manteve de 1961 a 1963 e, se a memória não me atraiçoa foi quando rebentou a guerra nas Províncias Ultramarinas de Angola, Guiné e Moçambique.
Este combatente disse que sofreu uma emboscada a caminho de Nambuangongo, a qual terminou com várias mortes e feridos. Foi uma luta terrível, porque a defesa da artilharia pesada foi feita corpo a corpo, porque nesta altura ainda se usava a velha espingarda mauser e o sabre. Para quem não conhece esta arma é uma espingarda com a capacidade para 5 munições e cada vez que se pretendia dar um tiro tinha que se puxar a culatra atrás. Neste contexto, como sita este combatente, os turras saíam do capin como se fossem formigas, com o intuito de se apropriarem das armas pesadas, razão pela qual tiveram de utilizar a luta corpo a corpo que lhes custou muitas mortes e feridos. Passado este doloroso momento, verificou-se uma chacina incalculável, haviam corpos espalhados por tudo quanto era lado. Um oficial viu um turra ainda vivo e disse: “um voluntário para lhe cortar a cabeça”. O combatente de que faço referência foi o voluntário executante. Quanto às baixas que sofreram todas ali ficaram, porque a ordem era “quem ficar ficou” e esta ordem faz todo o sentido, dado que se fossem socorrer os feridos e levar os mortos podiam ficar lá todos. Após este confronto seguiram o seu destino e acamparam numa fazenda chamada Quissacala.
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No ano de 1970 fui alistado nas forças de segurança e em Janeiro de 1971, como me encontrava a trabalhar na zona de Alcântara em Lisboa, fui ao local de embarque, ver sair o paquete Pátria, com centenas de militares com destino a Angola. Nunca imaginei tanta tristeza, tantas lágrimas, tantos lenços brancos, tanta desolação e profundos sentimentos nos militares, respectivas famílias e público em geral. Todos sabiam que muitos destes militares não voltavam com vida, por isso a indignação era total. Ao presenciar a dor de toda aquela multidão, fiquei desmotivado e pensei abandonar a profissão que abracei com muito carinho, mas o sacrifício e esforço interior falou mais alto e consegui suportar a pressão que existia dentro de mim, porque sabia que mais cedo ou mais tarde tinha de fazer uma comissão a uma das províncias que faço referência. O tempo foi passando e surgiu a oportunidade de ir voluntário para Cabo Verde, sabendo que aqui não era zona de conflito. Embarquei em Junho de 1971 e terminei a comissão em Setembro de 1973, altura em que regressei no paquete Niassa.
Voltando ao tema inicial, encontrava-me há pouco tempo em Cabo Verde, quando recebi a notícia que me marcou para o resto da vida, a qual referia o seguinte:” os restos mortais do teu irmão foram transladados para Portugal e foram sepultados no cemitério da freguesia de Refojos, concelho de Cabeceiras de Basto.” Foi um choque que nunca esquecerei e questionei-me: “passaram 6 anos após a sua morte e só agora procederam à transladação?” ainda hoje não me conformo e no meu entender, os altos Comandos Militares e o Governo de então tinham por obrigação de, no prazo máximo de 15 dias, entregar o corpo à família sempre que fosse possível, isto é, aqueles militares que pudessem ser resgatados.
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Relativamente a este assunto o Ministério do Exército enviou à família uma informação que entre outros assuntos, dizia o seguinte: “quanto à transladação das ossadas gratuitamente só é possível depois de passado o tempo legal de 5 anos. Porém, se a família solicitar e suportar todas as expensas, poderá fazer-se a translação imediata mediante as seguintes despesas: transporte da urna do local do falecimento até ao cais de embarque; urna; alvará de transladação; certidão de cópia integral do registo de óbito; embalagem da urna; cova perpétua e despesa de funeral.”
Analisada esta última parte é motivo de uma revolta enorme, mas como o falecido teve a ventura de nascer no seio de uma família de classe pobre teve este condenável destino. No entanto se a vítima fosse um oficial de alta patente seria imediatamente transladado mediante determinação salazarista.

Fig.1 – Combatente Edmundo Teixeira de Sousa;
Fig.2 – Paquete Vera Cruz que transportou o Combatente para a morte;
Fig.3 – Mensagem que o Combatente escreveu a pensar no futuro, que não se concretizou.

Por: Manuel Sousa

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