Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-12-2009

SECÇÃO: Recordar é viver

UMA RONDA PELAS FREGUESIAS
Maria Cândida de Castro Machado

Há muito tempo que trazia na ideia fazer uma entrevista à senhora Maria Cândida de Castro Machado, do lugar de Baloutas, da freguesia de Painzela. Ontem pela manhã tomei a resolução de que não passaria daquele dia pedir-lhe para conversar comigo um bocadinho. Se bem pensei, assim o fiz. Dirigi-me ao Espaço de Convívio e Lazer de Painzela, porque sabia que a senhora Cândida o frequenta todos os dias desde que, não esteja doente.
Ao chegar àquele espaço de convívio, ouvi pelo som das vozes que, estavam a ensaiar cantigas de natal e, talvez, a cantiga sobre os reis que, vai apresentar na Festa das Janeiras de 2009, organizadas pela EMUNIBASTO, E.M e pela Câmara Municipal.
Quando entrei fui saudada muito carinhosamente por um grupo de pessoas amigas que me conhecem quase todos desde muito nova, em especial o senhor José de Baseiros que, não sei se vocês se lembram é irmão gémeo do falecido António da “Estrada”.
Tirei algumas fotos daquele “quadro” tão alegre e aproveitei para conversar um pouquinho com cada um deles. Além de ensaiarem as cantigas com o senhor Lopes, também andavam atarefados, com a feitura de um presépio grande que, estava colocado no exterior junto ao Centro de dia. E, ao meu ver, estava a ficar muito bonito.
Apercebi-me do alvoroço alegre com os trabalhos e, também, com o lanche da tarde que, segundo verifiquei, constava de café, leite, pão com manteiga, geleia ou marmelada. Também havia chá para quem não podia comer outras coisas. Um lanche muito aconchegadinho com os fogões de aquecimento que se encontravam naquela sala grande.
Como não era possível conversar com privacidade com a D. Cândida e como eu também não queria perturbar aquele agradável convívio, combinamos encontrar-nos na sede do jornal Ecos de Basto, na ADIB, para a nossa pequena entrevista.
Começo por dizer que a minha convidada se chama Maria Cândida de Castro Machado. Foi casada com o Joaquim Nogueira Braz, já falecido vai para trinta e dois anos. Vive e sempre viveu em Baloutas, lugar que pertence à freguesia de Painzela. Teve quatro filhos. Duas raparigas, a Maria Emilia de Castro Braz que vive em Lisboa e Maria de Fátima Castro Braz que mora na Freita, Refojos e dois rapazes, o Alfredo de Castro Braz e o José de Castro Braz, também já falecidos. Um de acidente trágico e outro de doença prolongada.
Nascida há oitenta e um anos, no lugar de Baloutas, a Maria Cândida foi sempre uma mulher dinâmica e perseverante com a vida, mesmo quando a própria vida lhe deu mais infortúnios que alegrias. Mas, mesmo nesses momentos, ela nunca se deixou abater ou conformar.
Como atrás disse a senhora Cândida esteve sempre com os pais na lavoura até mais ou menos aos dezoitos anos. Nessa idade foi como doméstica para o Porto, durante cinco anos. Tinha já lá uma irmã que lhe arranjou uns patrões. Ao fim de cinco anos achou que aquela vida não era para ela e resolveu voltar para Painzela para junto dos pais.
- Então senhora Cândida não deixou lá pelo Porto nenhum namorico?
- Não senhor! Voltei para Cabeceiras e nessa altura comecei a dar mais atenção ao que foi o meu marido. Já antes ele andava atrás de mim mas eu não estava muito inclinada para namorar com ele. Daquela vez iniciei o namoro a sério que terminou em casamento.
- Continuou a morar com os pais?
- Fui morar para outra casa mas, em Baloutas. O meu falecido homem era feitor do Zequinha de Bouças. Você deve-se lembrar dele.
- Como feitor o que é que o seu marido fazia?
- Assistia às medições do pão,do feijão, do vinho, enfim de todas os produtos que os caseiros produziam e que tinham de entregar aos patrões na altura das colheitas. Naquele tempo o meu marido ganhava sete mil e quinhentos escudos. A vida não era fácil.
Pior foi quando a minha vida deu uma reviravolta. Foi quando o meu marido morreu. Morreu novo e deixou-me com a difícil tarefa de criar os meus quatro filhos.
- E como fez senhora Cândida para fazer face à vida com todas essas bocas para alimentar?
- Deitei mãos à obra e fui procurar outros meios de subsistência. Além de grangear os meus quintais, fazia tardes para os outros como jornaleira. Arranjei também um trabalho de padeira. Levantava-me todos os dias às cinco horas da manhã, ia buscar o pão à padaria na Cumieira, S. Nicolau e já vinha a vender desde S. Nicolau, Queiroal, Bouças, Baloutas, Painzela e Terreiros.
- A que horas chegava a casa?
- Chegava sempre por volta do meio dia. Trabalhei de padeira mais ou menos cinco anos. Apesar da dureza da vida fui sempre uma pessoa alegre. Saía e entrava em casa sempre a cantar. Tinha força e saúde graças a Deus e a vida tinha de andar para a frente, não adiantava andar a chorar pelos cantos.
- Os seus filhos, como foi o seu crescimento?
- Os meus filhos foram crescendo, frequentaram a escola até à quarta classe obrigatória na época, e depois foram muito pequenos trabalhar. Com onze anos os rapazes foram aprender de carpinteiro para uma oficina. As raparigas foram para domésticas. A minha Emília é que foi para mais longe, foi para Lisboa.
Não acha que eram muito novos para esses trabalhos?
- Realmente eram tão pequeninos que até me doía o coração. A vida era tão ruim, tão ruim que era mesmo assim.
- Senhora Cândida, sei que era muito divertida e popular nas festas. Você ía a todas?
- Claro! Ia divertia-me. Sim, ía a quase todas. Até costumava dançar ou cantar nelas. Vinha sempre à noitada da Feira do S. Miguel.
- Lembra-se como era a festa?
- Ó, que coisa linda e importante! Bastava ouvir tocar um “realejo” e a gente já pulava, depois aparecia a concertina. Onde se ouvisse uma gaita a tocar era logo um ajuntamento. Ai que saudades daquele tempo! Agora é tudo mais moderno! Naquele tempo tínhamos mais necessidades mas, éramos mais alegres! Bons tempos mesmo que a vida fosse mais dura.
- Diga-me algumas quadras que vocês cantavam quando ouviam o realejo.
Eu fui a S. Bentinho
Numa pedra me assentei
“Cu” sentido no amor
Nem a esmola ao Santo dei

Minha mãe case-me cedo
Enquanto sou rapariga
Porque o milho sachado tarde
Não dá palha nem dá espiga

Atirei com o limão
À tua porta parou
Quando o limão te quer bem
Que fará quem o deitou

O meu peito é um relógio
Meu coração dá badaladas
Nos dias que te não vejo
Trago-te as horas contadas.

- A senhora Cândida também sabe muitas anedotas. Quer contar alguma?
“ Era uma senhora que tinha uma filha. A filha disse para a mãe:
- Mãe, vou sair, vou namorar um bocadinho. Quando a filha chegou vinha muito aborrecida. A mãe pergunta-lhe:
- Porque vens aborrecida minha filha?
- Mãe estou grávida!
- Ó rapariga, onde estavas com a cabeça?
Eu estava com a cabeça em cima do volante!”
Se a Fernandinha o permitir aqui vai outra:
“Havia um casal que tinha sete filhos e a mulher punha sempre três lençóis a secar. O lençol do meio tinha buracos redondinhos.
A vizinha estranhando pergunta-lhe muito curiosa:
- Ó vizinha, porque põe sempre três lençóis a secar? E um tem buracos redondos no meio?
Esses buraquinhos são para eu fazer amor com o meu marido porque ele nunca viu o meu corpo.
- Então os seus sete filhos… como fez se ele nunca viu o seu corpo? Isso é um fenómeno!
- Quando fazíamos amor “ela” já sabia o caminho e entrava e saia por ali pelo buraco redondo.”
E ainda a respeito de casamentos aqui vai mais uma quadra:
Toda a mulher que se casa
Grande castigo merece
Por se deitar numa cama
Com um homem que não conhece

Espero que estas anedotas populares e que a D. Cândida tão bem as conta, apesar dos seus oitenta e um anos, não ofenda alguma pessoa mais sensível. A graça toda da anedota está na maneira de a dizer da senhora Cândida de Painzela. Por acaso eu, vi há muito tempo uma telenovela brasileira de época em que um casal na noite de núpcias também tinha um desses lençóis, feito de linho, com um buraco redondo, bordado nos contornos. Outros tempos!
A D. Candida de Castro Machado já está reformada há vários anos. Nunca deixou de trabalhar nos seus quintaizinhos. Diz ela que faz de tudo durante todo o ano. Fora isso frequenta o Centro de dia de Painzela, é convidada a participar em todas as festas que a freguesia de Painzela organiza. Mesmo quando há actividades organizadas pela Câmara e a Emunibasto, pedem-lhe para subir ao palco para fazer uma sessão de quadras e contar anedotas mesmo que sejam “picantes”.
Na minha opinião, a D. Cândida, com os seus oitenta e um anos pode dizer tudo e mais alguma coisa que a ela nada lhe fica mal. Ela tem de facto uma memória impressionante. Digo também que apesar da idade está muito actualizada e informada dos tempos que correm. Nunca me canso de a ouvir. Acontece o mesmo com as pessoas das outras freguesias que a ouvem atentamente.
Deus permita que a possamos ouvir durante muito tempo.
Como estamos na quadra natalícia desejo à D. Cândida de Baloutas e a todos em geral um Santo Natal e um Bom Ano Novo.


fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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