Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 23-11-2009

SECÇÃO: Opinião

ZÉ MARIA “O ANDARILHO” I

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Numa bonita aldeia do concelho de Cabeceiras de Basto, nasceu em 1934 uma criança do sexo masculino a quem foi posto o nome de José Maria.
Seu pai, pedreiro de profissão, trabalhava por conta própria e apesar da vida difícil que se vivia nessa época lá ia tenteado a vida de forma que os seus oito filhos nunca sentiram os horrores da fome. Zé Maria era o terceiro do rancho, o mais velho dos cinco rapazes. Sua mãe, mulher de grandes virtudes cuidava da casa, do marido, dos filhos, da bichagem e ainda lhe restava tempo para o amanho da terra onde nunca faltavam as hortaliças e outras novidades que ajudavam a sustentar a casa.
O Zé Maria foi crescendo segundo os padrões de vida própria duma aldeia do interior. Apesar de franzino, cedo começou a fazer aquelas tarefas elementares de acordo com a sua tenra idade. Ia ao monte buscar lenha, ia à mina buscar água, apanhava leitugas para os coelhos, ceifava erva para as ovelhas, deitava couves às pitas e até apanhava bosta de boi para barrar a porta do forno quando havia cosedura de pão.
Quando atingiu a idade escolar os seus afazeres aumentaram, já que para além das aulas tinha também a catequese e guardar as ovelhas restando-lhe assim pouco tempo para a brincadeira com a agravante da escola que frequentava ficar muito longe do lugar onde vivia.
Contudo o Zé Maria era feliz segundo a qualidade de vida que tinha a sua aldeia e do bom ambiente e respeito que havia em sua casa. Feliz também por frequentar a escola ao contrário de alguns rapazes e raparigas do seu tempo que infelizmente não tiveram a mesma sorte.
Assim, o Zé Maria lá ia passando os dias a cirandar, até que o acaso havia de trazer a sua casa num lindo verão de aldeia um primo que vivia no Porto há muitos anos, e sempre que vinha à terra nunca deixava de visitar os seus tios. Talvez com o intuito de se tornar simpático aos olhos de seus tios propôs-lhes levar consigo para o Porto o pequeno Zé Maria. Já liberto da escola o Zé Maria exultou de alegria, imaginava-se já a viajar de comboio, a molhar os pés na água do mar, a gozar as delícias da grande cidade.
Como qualquer Maria Papoila não cabia em si de contente só faltava despedir-se das ovelhas, das casas velhas, do cão bobi, da gata milheira e do lugar onde nasceu. Mas seu pai mostrava-se renitente em autorizar a saída do rapaz. Valeu a intervenção da mãe, pessoa de horizontes abertos que argumentou e muito bem que o rapaz na aldeia nunca passaria de um pedreiro ou cavador de enxada.
O Zé Maria vivia – Tranquilo na sua aldeia – Tinha o sol por companhia – De sonhos a alma cheia. Mas pensou ir p’rá cidade – Quis cumprir a seu destino – Uma alma de poeta – Num coração de menino. Depois na cidade grande – Onde a maldade campeia – O Zé Maria chorou – Saudades da sua aldeia…
Chegado o dia da partida lá se foi o Zé Maria sem verter uma lágrima sequer ao despedir-se de seus pais. Num pequeno saco transportava todo o seu mundo, umas roupitas usadas e nada mais. Chegado a Porto instalou-se em casa de seu primo, uma pequena casa com poucas condições, sita no bairro Margarida em S. Pedro de Campanha…
Movido pela curiosidade de querer saber como era a cidade, uns dias depois de ter chegado deixou que seus primos Bernardo e Olinda fossem trabalhar iniciou a sua primeira aventura na cidade grande que ele tão desejosamente queria conhecer.
Desceu a rua do Bacêlo, atravessou a Circunvalação e iniciou a subida da rua do Freixo ao tempo muito movimentada devido às muitas industrias que tinha. Chegado ao cimo da rua hesitou em virar para a estação de Campanha ou seguir em frente. Optou por ir em frente entrando na rua do Heroísmo por onde passava o carro eléctrico, tim tim – tim tim- tim tim e tão entusiasmado se sentia que não reparava no trajecto que seguia entrando na avenida Rodrigues de Freitas, Jardim de S. Lázaro e finalmente Praça dos Poveiros. Aí, parou, olhou em seu redor e já não sabia que caminho, devia tomar para voltar para trás.
Apoderou-se então do pequeno provinciano Zé Maria uma tal ansiedade que de repente se transformou em choro. Alguns transeuntes ao ver o pequeno a chorar e assustado de medo procuraram saber onde morava e lá lhe indicaram o caminho para voltar a casa.
Como podemos calcular foi negativo o primeiro contacto com a cidade e o provinciano Zé Maria não ganhou para o susto, mas à noite quando os seus primos chegaram a casa o Zé Maria fechou-se em copas e nada lhe disse.

(Continua)

Por: Alexandre Teixeira

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