Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 02-11-2009

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (112)

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O ALTO DA VARELA

O Pico do Alto da Varela é um ex-líbris do lugar de Porto d’Olho, na freguesia de Abadim. Até há bem pouco tempo, sempre o conheci e sempre o designei como o “Pico de Porto de Olho”. De Inverno, sempre que caía neve, era o primeiro ponto a ver-se de branco, para quem reparava a partir dos locais mais baixos do território concelhio.
Se bem que, desde muito novo, tenha passado dezenas de vezes por perto, umas a caminho das Torrinheiras, outras a caminho dos Montes de Maçã, e ainda outras à procura das origens da Levada de Víbora, o certo é que nunca tinha subido ao alto. Via, lá em cima, uma pequenina capela, mas não sabia o nome da Senhora, do Santo, ou da Santa, que ali era e é venerado.
Eu já me referi aqui, nestas páginas, em crónica que saiu na edição de Junho de 2003, a este acidente orográfico, e deixei, na ocasião, bem expresso o respeito e a admiração que sempre nutri por aquele local. Dizia eu que ora me indicava o norte, quando me situava nas encostas e nos planaltos da Serra do Oural, ora me indicava o sul, quando me encontrava no perímetro da Serra das Torrinheiras e dos Montes de Maçã. Na verdade, assim tem sido, o Pico do Alto da Varela sempre foi, e continua a ser, para mim, uma referência.
Por tal ordem de razões, eu carregava comigo um enorme sentimento de culpa, culpa por ainda não ter tido a coragem, a força e a disposição de subir ao alto e, antes de mais, identificar o inquilino, ou a inquilina, da pequenina capela que se avistava de cá de baixo, e depois, apreciar e avaliar do que seria a paisagem, em redor, tudo visto da parte de cima.
Arrisco a imaginar, para não dizer que tenho a certeza, que dos naturais e residentes em Abadim, muitíssimo poucos lá terão subido. Naturais e residentes do concelho, ainda menos, e, de qualquer ponto do país, muito menos ainda. Não sabem o que estão a perder.
Antigamente, quem lá quisesse subir, teria que fazê-lo a pé, por um carreiro íngreme, nada de dificuldades de maior, para quem fosse novo e tivesse boas pernas, porém, pessoas de idade avançada, ou com dificuldades de locomoção, o passeio não era o mais aconselhável. Agora, tem uma estrada asfaltada, e um pequenino largo, o adro, também asfaltado, em frente da capela.
Na passada sexta-feira, dia dezasseis de Outubro, do ano que corre de 2009, estando um daqueles raros dias outonais em que, todo o horizonte, até perder de vista, se encontra sem o mais pequenino vestígio de neblina, por volta das dez horas, decidi que cumpriria o meu antigo desejo, um desejo com várias dezenas de anos.
Rumei a Porto d’Olho e subi ao alto, de carro. Devo confessar, muito honestamente, que, ao chegar lá mesmo ao cimo, as pernas me tremeram um pouco, mas, com calma qb, consegui inverter a marcha e trazer a viatura, de regresso à base do pico, sem qualquer sobressalto de maior.
Enquanto estive lá no cimo, mesmo junto à porta da Capelinha, pude observar duas grandes aves de rapina, ou eram águias, ou milhafres, talvez águias, deviam constituir um casal e planavam, envergando asas de mais de meio metro para cada lado, ao sabor do vento, que soprava muito forte na ocasião, um bom pedaço abaixo do nível do pico, rentes ao meio da encosta, por cima do negro da paisagem, que se encontrava completamente carbonizada, devido ao grande incêndio que ali lavrara, nos dias mais quentes do mês de Setembro.
Ainda lá no alto, lembrei-me da letra de uma quadra que, antigamente, era cantada por grupos de homens e mulheres, enquanto, envergando chapéus de palha na cabeça e sacholas em punho, formando pares, um de mão direita e outro de mão esquerda, sachavam e regavam campos de milho em quintas de regadio da área ribeirinha das freguesias.
A letra da quadra era:
«Ai, eu vou subir ao alto;
Que eu do alto vejo bem;
Quero ver o meu amor;
Ai, se ele fala com alguém».
Dali, vi as águias, vi a paisagem queimada das encostas da Urtigueira, de Teixogueiras e de Juguelhe, vi o pulmão verde da Serra do Oural, já atacado pelas franjas, e vi o horizonte, em redor, a perder de vista. Coisas boas, a vida e a natureza, e coisas más, a paisagem queimada das encostas.
Quanto à identificação do inquilino da Capelinha, não consegui lográ-la no local. Parei no centro do lugar e bati a uma porta, apareceu-me uma jovem empresária agrícola, digo jovem empresária agrícola porque, no momento, calçava um par de galochas e empunhava uma mangueira lavando um curral onde tinha dúzia e meia de leitões.
A jovem, que disse chamar-se Emília e que aquela casa se denominava de Casa da Benta, respondendo à questão que ali me levara, que era se me sabia dizer o nome da Senhora que se venerava na pequena Capelinha lá do alto, elucidou-me, com simpatia, que a Senhora que se encontra na Capelinha do alto é Nossa Senhora Mãe da Igreja, e que o marco geodésico, que lá se encontra, marca a altitude de 970 metros.
Porém, que quanto à altitude, não tinha a certeza, o melhor seria confirmar com o Senhor Carvalho, a pessoa mais idosa e mais sábia do lugar. Deu-me o número do telefone do Senhor, do Senhor Carvalho, e eu liguei-lhe para confirmar os dados. Que, «sim senhor», foi a resposta, com algumas dificuldades auditivas, que a altitude no local era, de facto, 970 metros.
Quando os meteorologistas anunciam queda de neve acima dos novecentos metros, ali neva, certamente, no Alto da Varela.
Perguntei ainda, à jovem Emília, qual a santa que era venerada na capela do centro do lugar, tendo sido informado que ali era a capela de Nossa Senhora da Conceição.
Agradeci e deixei o meu contacto e identificação, para que ficasse bem ciente de que não andava a vender programas de fibras ópticas, ou qualquer outra espécie de aparelhos de telecomunicações.
E, antes de terminar, permitam-me um conselho: não façam cerimónias, subam ao alto do Monte da Varela e desfrutem da paisagem que dali se alcança!
Por mim, faço votos muito vigorosos para que o belo da Serra do Oural se mantenha por muitos e muitos anos.

Por: José Costa Oliveira

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