Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 12-10-2009

SECÇÃO: Cultura

Era uma vez…

A cobra Palminho, assim chamada por ser muito pequena em relação a algumas suas parentes, gosta muito do sítio onde vive mas tem pena de não ter com quem brincar. Neste mundo, cujo dia-a-dia se passa junto ao chão, não há muitos bichos com quem uma cobra, ainda por cima tão pequena e novinha, se possa relacionar.
É verdade que aparecem por ali uns pardais e outros pássaros, mas quem quer saber dum bicho que rasteja permanentemente e nem sequer tem voz que jeito tenha?...
Este quintal, onde a cobra Palminho veio parar, é muito frondoso e bonito. Tem um grande alpendre, muitas plantas, muitos arbustos verdes e uma palmeira que domina todo o conjunto.
A cobra Palminho, que é muito esperta, preocupa-se em observar, atentamente, tudo o que se passa à sua volta.
Há também um cão que vive no mesmo quintal mas que, por sorte, tem um espaço vedado só para ele.
Não pode sair de lá e assim não existe o perigo de se ser alvo dos seus ataques.
Há, também, uma senhora muito bonita que aparece com cestos de roupa lavada e a põe a enxugar ao sol. O cheiro da roupa é muito agradável e espalha-se por todo o quintal. Quando isso acontece já se sabe que mais tarde virá recolhê-la, depois de seca. Isto se antes não começar a chover. Mal aparecem uns pingos de chuva lá aparece ela a correr para tirar a roupa. Às vezes já estava quase seca e vê-se que fica pior que zangada.
A cobra Palminho acha piada a isto das roupas das pessoas.
Os bichos não têm esse problema. A natureza já os vestiu e não precisam de ter essa preocupação. Estão vestidos para a vida. Não é o caso da cobra Palminho. Ela muda de roupa sem precisar de fazer o que quer que seja. Quando chega a época própria a mãe natureza encarrega-se de lhe dar nova roupa. Antes ela começa a sentir aparecer uma roupa nova por baixo da que tem. Até lhe dá um pouco de comichão. Um belo dia sente despegar a roupa velha e fica com um fatinho que parece acabadinho de sair da loja.
A cobra Palminho, nessa altura, gostaria de se poder mostrar à senhora bonita. Mas ela anda lá na sua lida e não dá pela cobrinha. Pensando bem, se calhar é melhor assim…
Ela sabe a má fama de que as cobras gozam junto das pessoas.
Se alguém tem maus sentimentos houve-se logo dizer que é má como as cobras. É uma injustiça. Pode haver cobras más como há pessoas más. E cães maus. E aves más…
Por causa duma ave má é que ela anda perdida das outras cobras. Um dia estavam a brincar numa zona aberta, sem árvores nem arbustos, e ouviu-se o grasnar dum grande pássaro que se dirigia para elas. Fugiram, aflitas, cada uma para seu lado e a cobra Palminho só parou naquele quintal. Nunca mais viu as outras. Veio parar àquele sítio onde, por sinal, está muito bem. Tem muitos arbustos onde se esconder e não há outros bichos que lhe façam mal. Ela tem o cuidado de não se mostrar e naquela altura em que está para mudar de pele não sai de entre as plantas para a pele velha não ficar a denunciá-la em sítios visíveis.
Por conversas que ouviu aos donos da casa a cobra Palminho sabe que não se deslocou muito do sítio onde vivia.
O quintal pertence à mesma terra onde nasceu e viveu até àquela tarde fatídica em que foram atacadas. Nessas conversas vem muitas vezes à baila a nome de Arco de Baúlhe.
Ela sabe que é esse o nome da terra onde se localiza o seu anterior poiso.
Também não é raro ouvir as pessoas dizerem que vão ou que foram a uma outra terra que, pelas conversas, é maior que esta.
Chama-se Cabeceiras de Basto. A cobra Palminho não se importa muito com essas coisas.
Sabe que tudo à volta é muito bonito.
Verdade que, no seu rastejar, não tem muitos pontos de observação com jeito.
Mas, às vezes, aventura-se a subir os arbustos e já vê mais alguma coisa.
A senhora bonita, nos dias de sol, passa algum tempo no quintal. Trata das plantas, rega-as, coloca na terra umas bolinhas que parece que as alimentam, porque elas crescem mais viçosas quando aquilo aparece.
Há dias em que a senhora bonita aparece no quintal carregada com uns rectângulos de tela, tintas e pincéis e começa a pintar. Faz pinturas que são uma beleza. Os seus quadros têm casinhas, árvores, borboletas, flores, sol, nuvens, etc. Só nunca têm cobras. A cobra Palminho tem pena mas compreende. Aquela má fama é terrível.
Ainda assim prefere que a senhora bonita não pinte cobras do que as pinte com aquela bocarra horrível, a descerem enroscadas nas árvores e mordendo uma maçã.
Aquilo vê-se mesmo que não tem bom significado…
Mas a verdade é que a senhora às vezes deixa os quadros a secar no alpendre e a cobra Palminho tem oportunidade de os ver sem pressas. De facto já se afeiçoou àquela senhora e, se pudesse, havia de ter com ela uma bonita relação. Sabe que isso nunca passará de um sonho, um desejo veemente mas irrealizável.
Uma coisa ela não gosta que a senhora faça. Mas sabe que não é por mal.
De vez em quando, principalmente no verão, ela aparece com uma mangueira e deita água por cima de todas as plantas.
A cobra Palminho dificilmente se livra dum banho incómodo e inoportuno. Aquilo vem tão rápido que não há tempo para fugir.
Sabe que há umas parentes dela que vivem na água e essas até haviam de agradecer.
Mas ela é de sequeiro e não gosta nem um pouco daquilo. Já basta quando chove…
Mas disso ela apercebe-se a tempo e abriga-se devidamente.
Outra contrariedade é que o cão é muito desinquieto e não pode ouvir nada a mexer. Às vezes ela desloca-se entre as folhas secas e é um desassossego. Ladra desalmadamente, parece que alguém o quer matar.
Frequentemente a senhora bonita, ou o marido, acabam por vir ver o que se passa. Mas, por sorte, nem olham para o chão. Espreitam para lá da cerca do quintal e acabam por voltar para dentro.
Os donos da casa recebem muitas vezes a visita duns meninos.
A cobra Palminho sabe que são os netos. Quando eles chegam há festa no quintal. Mexem na terra, sujam-se todos, mas nota-se-lhe um contentamento que dá gosto ver. E são tão bonitos… São os dias mais divertidos que acontecem por ali. Quando os dias estão melhores a senhora bonita e o marido fazem lume com carvão, tratam da comida e comem no quintal. São dias diferentes e que fogem à rotina do resto do ano.
O cão põe-se maluco de ter os donos por perto. E a cobra Palminho observa, satisfeita.
Há tempos a cobra Palminho notou que a senhora bonita ficava muito triste de cada vez que ia ao quintal e via as plantas e as flores todas roídas. Se há coisa que a cobra Palminho não suporta é ver a senhora bonita ficar triste. Pôs-se à espreita e descobriu o que se passava.
Eram umas cobrinhas muito pequeninas, que quase não se viam (lagartas, ou lá como lhe chamam) que faziam aquele lindo trabalho.
Foi o bonito. Houve sermão e dos grandes:- Vocês não têm vergonha? O trabalho que a natureza têm para produzir estas coisas tão bonitas e vêm vocês e estragam tudo.
Não têm mais nada para comer? Há tantas ervas aí por fora que ninguém se importa que fiquem feias…
Vocês gostam que a senhora bonita fique triste? Daqui para fora, já!
Nos tempos seguintes ficou de atalaia e quando algum daqueles bichos se aproximava saía-lhe ao caminho e não os deixava estragar nada.
Eram bichos que não pertenciam ali e não sabiam o que se tinha passado.
A cobra Palminho tomou aquele encargo e até passou a sentir-se mais entretida e feliz. Vistas as coisas era uma forma de se sentir útil e esquecer um pouco as saudades da família.
Passados dias a senhora bonita ficava muito contente sempre que ia ao quintal e via as flores viçosas e com as folhas e as pétalas intactas.
E a cobra Palminho andava toda satisfeita por ter contribuído para essa felicidade.
A verdade é que a notícia espalhou-se entre a bicharada e todos já sabiam que naquele quintal
não se podiam fazer maldades às plantas sem que tivessem que se entender com uma cobrinha que se promovera a sua guarda zelosa e atenta. A cobra Palminho vivia quase feliz. Quase, porque as saudades da família não paravam. Aumentavam cada dia.
Mas a notícia da pequena cobra que guardava o jardim da senhora bonita começou a chegar cada vez mais longe, ao ponto de atingir o sítio onde a família vivia.
Pelos sinais não havia engano possível.
Só podia ser a cobra Palminho.
Um dia apareceram todas no quintal da senhora bonita e deu-se o reencontro. A cobra Palminho queria que ficassem ali mas explicaram-lhe que não era possível. Todas as restantes cobras conhecidas estavam do outro lado, onde estava tudo preparado para as receber. Foi uma luta
tremenda para a cobra Palminho. Tinha que corresponder aos apelos da família mas isso significava deixar aquele lugar onde fora tão feliz.
Era tempo da cobra Palminho mudar a pele. Dessa vez não teve o cuidado de se esconder. Tomada de sentimentos contraditórios, radiante pelo reencontro com as suas familiares mas triste pela perspectiva de nunca mais ver a senhora bonita, foi deixar a pele velha, com muito jeitinho, junto à porta do quintal, num terno agradecimento pelos tempos maravilhosos que ali passara e numa carinhosa recordação da humilde cobrinha que ali se hospedara numa hora de aflição.

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