Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 12-10-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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A Casa de Olaria e o Santo da Montanha (II)

Afirmei no final do artigo anterior que o venerado “Santo da Montanha”, ou seja Frei Baltazar das Dores, nome que em religião tomou o morgado Baltazar Pereira da Silva, da Casa de Olaria, em Salvador de Ribeira de Pena, estava ligado por laços familiares a Cabeceiras de Basto. É que esta personagem realmente existiu e serviu a Camilo para desenhar o “Santo”, a quem inventou as peripécias dos seus amores, dos seus crimes e da sua passagem pelos conventos. Não é caso único em Camilo como havemos de ver no artigo que finalizará esta nossa deambulação camiliana pelas Terras de Basto.
Vários camilianistas se debruçaram sobre esta personagem, nem todos da mesma opinião. Foi, por fim, o Dr. António Canavarro de Valladares, da ilustre família dos barões de Ribeira de Pena (na esteira de seu pai Dr. Francisco Canavarro de Valladares, que foi Conservador em Cabeceiras) que confirmou a identificação do “Santo da Montanha”, num estudo publicado em 1925 no “Livro Memorial” que a Figueira da Foz dedicou a Camilo no centenário do seu nascimento e de que transcrevemos a parte final:

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O Baltazar Pereira da Silva da realidade

Nasceu Baltazar Pereira da Silva na sua casa-solar da Olaria, situada na freguesia de Salvador de Ribeira de Pena, a 20 de Dezembro de 1636, sendo filho de António Peixoto Pereira e de sua mulher e prima D. Francisca dos Guimarães.
Foi batisado na capela do Cristo Crucificado, cabeça do vinculo de sua casa, aos 28 do mesmo mês de Dezembro de 1636, tendo sido padrinhos seus tios paternos Alexandre Peixoto, da casa de Sobrado, e D. Felipa, casada com o licenciado João Correia Machado, de Villa Real, morador na sua quinta da Temporan, que pertencera em dote a sua mulher, sendo para isso desmembrada da casa da Olaria.
Foi celebrante o reverendo reitor de Vila Pouca d’Aguiar, padre Francisco Peixoto, também seu tio.
Seu pae, António Peixoto Pereira era o 5.º senhor da casa-morgadio da Olaria , que instituira Ruy Vaz Peixoto, escudeiro fidalgo da casa real, como constava do foral dado por el-rei D. Manuel, ao concelho de Ribeira de Pena, em 1516.
Este Ruy Vaz Peixoto era filho doutro do mesmo nome, e descendente da casa da Pousada, em Guimarães, solar nobilíssimo dos Peixotos do Minho.
Como se vê, não faltava razão a Camilo quando dizia, pela boca de Lopo de Sampayo, que os Pereiras da Silva eram família ilustríssima, dos nobiliários portugueses. Estudou durante alguns anos em Coimbra, como se deduz dos livros paroquiaes da sua freguesia, em que por vezes figura como padrinho em diversos bátisados e testemunha em alguns casamentos, designado como “Balthesar Pereyra, estudante de Coimbra, filho de António Peixoto, da Olaria”.
Chegando à edade de tomar estado, casou-se fidalgamente Baltazar Pereira da Silva com sua prima D. Maria de Noronha e Lima, filha de António de Lima de Noronha, fidalgo da casa real, e de D. Helena de Meireles e Andrade, senhora da histórica quinta do Villar da Faia, em Basto, que fora doada pelo grande condestável Nun’Alvares a sua irmã D. Maria Pereira para haver de casar com João Gonçalves de Basto, meirinho de suas terras.
De seu sogro herdou Baltazar Pereira metade da quinta do Vilar, quinta onde residia antes de 1712.
Possuíu-a conjuntamente com seu cunhado Bento Robello Lobo, o que não obstava a uma farta abastança para ambos, pois chegaram a dar de dizimo anual à real fazenda, além de muitos outros géneros, mais de seiscentos alqueires de castanha.
Na mesma época era também já senhor do morgadio e quinta da Olaria, a que andava anexa a capela de Nossa Senhora do Rosário.
Como se vê, era infundada a escassez de meios que Camilo lhe atribuía, pela voz de D. José de Noronha.
Foi também, como seu sogro, capitão-mór de Cabeceiras de Basto, cargo que apesar de não ser hereditário, se costumava transmitir a pessoas da mesma família.
Finalmente, já viúvo, nomeou a 15 de Dezembro de 1703 a quinta da Olaria, com reserva de todo o usufructo, em seu irmão António Peixoto Pereira, em satisfação da sua legítima e estimações.
Foi certamente este acto a origem da doação que no “Santo da Montanha” faz Baltazar Pereira da Silva a seus irmãos, que eram na verdade três, como no romance diz Camilo Castelo Branco:
1.º - Francisco Peixoto Pereira
2.º - António Peixoto Pereira, que sucedeu na casa a Baltazar Pereira, e foi casado, tendo tido descendencia
3.º - Luís Peixoto da Silva, licenciado e clérigo.
Alguns anos depois, fez identica doação a sua sobrinha D. Francisca Tereza dos Guimarães Peixoto, para casar com António d’Abreu e Lima.
Diz o manuscrito de onde copio estas notas, que esta doação ficou nula, e era bem natural que assim fosse, pois Baltazar Pereira já não podia dispor dos bens que doara. Finalmente, em 1716 morre, depois de uma longa vida de 80 anos, sem talvez nunca lhe passar pela cabeça a ideia de se fazer ermitão.
Esta ficção com que Camilo fecha o seu romance, foi certamente inspirada na vida de frei Agostinho de Meireles e Andrade, e na de seu neto, frei João de Valladares, que acabaram ambos ermitas na serra de Bustello.
Que Baltazar Pereira era um grande caçador, é uma verdade evidente, que ainda hoje é tradicional na região. De resto não admira a ninguém que um bom morgado rural da era de seiscentos, habituado a palmilhar as risonhas veigas da terra de Pena e as àsperas serranias do Alvão agreste, fosse um ótimo caçador.
Quanto à lenda da fundação da igreja do senhor Jesus dos Perdões, fundação que Camilo atribui a Baltazar Pereira, diremos apenas que ela é a verídica historia do levantamento da atual igreja do Salvador da Ribeira de Pena.
Fica assim confirmada a acertada opinião que o sr. Dr. Sérgio de Casto expande a pags. 216, 1.º vol., do seu “Camilo Castelo Branco, typos e episódios da sua galeria”, e rebatida a inverosímil hipótese que o ilustre camilianista sr. conselheiro António Cabral alvitra, de pags. 220 a 225 do seu “Camilo de Perfil”.
Quanto ao modo como Camilo tomou conhecimento do que fica dito, quer-nos parecer que foi por intermédio das certidões que tirou como escrevente de tabelião em Ribeira de Pena, certidões que eram destinadas a uma questão judicial de reivindicação de posse, que se travou no segundo quartel do século passado, ácerca dos bens que haviam pertencido a Baltazar Pereira da Silva.

Conclusões

Pelo que acabo de enumerar, sou levado a sintetizar o meu pensamento da seguinte fórma:
- Que o protagonista de “O Santo da Montanha” foi delineado sobre a verdadeira personalidade de Baltazar Pereira da Silva, a quem Camilo conservou o nome, a ilustre linhagem, o solar, a sua qualidade de estudante, o gosto pela caça, e finalmente, a data da morte; factos a que juntou de sua imaginação; a lenda da fundação da igreja, a lenda do ermitério de Bustello, e toda a acção em geral, incluindo mesmo a própria data do nascimento de Baltazar Pereira, que deturpou, pois pelas suas contas deveria este ter nascido, em 1659, e não em 1636, como de facto nasceu. »

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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