Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-09-2009

SECÇÃO: Opinião

A POBREZA DOS AGRICULTORES DO PASSADO II

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A Casa de Paredes deixou uma ferida enorme dentro de mim, cuja cicatriz nunca mais se apagou.
Trabalhei na agricultura até aos 19 anos de idade, na companhia do meu pai, o qual teve o privilégio de ser caseiro da casa de Paredes durante alguns anos. Desde a minha infância conheci a casa de Paredes como sendo a casa de Paredes de baixo dirigida pela senhora Dona Mirinha e a casa de Paredes de cima gerida pelo Sr. Gaspar Miranda e sua esposa Dona Maria José Sousa Barroso, mais conhecida por D. Zezinha, da qual o meu pai foi caseiro. O Sr. Gaspar Miranda e a Sr.ª D. Zezinha, eram muito amigos do caseiro. Muitas vezes me deram de comer mesmo sem lá trabalhar e quando fôssemos trabalhar, estes patrões comiam à mesa com o caseiro sem qualquer preconceito, situação que não se via em parte alguma. Eram pessoas boas e com corações enormes. Que Deus os tenha em bom lugar, porque muito nos ajudaram enquanto fomos caseiros e mesmo depois quando deixamos de o ser. Nesta casa não havia escravatura. Mas a Casa de Paredes deixou uma ferida enorme dentro de mim, cuja cicatriz nunca mais se apagou.
Por ironia do destino, as terras dos proprietários acima referidos passaram a pertencer a outros proprietários, cujos nomes não vou revelar, porque sinto profunda revolta, indignação e muita angústia pelo que passo a descrever: certo dia, este novo patrão chamou o meu pai para a sua residência para transportar pedra com duas juntas de gado. As pedras eram enormes, por isso foi construído um transporte em madeira, com o formato de um triângulo equilátero, que na gíria se chamava jorra. Colocava-se com um dos vértices para a frente, carregava-se com as referidas pedras e era arrastado pelas duas juntas de gado, cujo trabalho se prolongou por muitas semanas. Chegada a hora do meio dia íamos comer o caldo a casa, porque os patrões nem uma fatia de pão nos davam. O meu pai sentia uma tristeza enorme mas não pronunciava uma palavra porque tinha medo que o patrão o mandasse embora da lavoura.
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Como o meu pai era detentor de licença para carrear com o carro de bois, continuou a fazer este transporte sempre que podia, tanto para os antigos proprietários, como para quem o requisitasse. Naquele tempo, ou seja nas décadas de 50 e 60 do século passado, se o carreto fosse fora do concelho ganhávamos 120$00, dentro da área do concelho 100$00 e na estrada que liga a Quinta da Mata a Chacim eram 70$00 da nossa moeda antiga. Este último preço devia-se ao facto do empreiteiro que laborava na estrada possuir carros apropriados para este trabalho.
Apesar do trabalho da lavoura se encontrar sempre feito a tempo e horas, não era de bom grado o patrão chegar à lavoura e saber que o meu pai não se encontrava em casa. Passado algum tempo o patrão disse ao meu pai o seguinte: Sr. Avelino, você tem de deixar de andar a fazer carretos, porque os bois estão todo o dia fora de casa e não fazem estrume para a lavoura. O meu pai como possuía um espírito altruísta e muito educado, não teve coragem de pronunciar uma palavra. Notei nele um desânimo difícil de controlar e com lágrimas a cair pelo rosto, conseguiu desabafar comigo e disse: “para andar em casa dele, semanas e semanas a transportar pedra com duas juntas de gado e nem uma fatia de pão dar, não disse que o gado não fazia estrume, só quando vou ganhar algum tostão é que o gado não faz estrume para a lavoura.” O meu pai ficou pensativo e desiludido com a situação. Vendeu os bois com os quais carreava, uma junta de bois enorme por 10.000$00 e disse ao patrão que ia sair da lavoura.
Entrou para a dita lavoura, outro caseiro, curiosamente meu familiar. Passados alguns meses, o patrão disse-lhe que precisava dele para transportar pedra para a sua residência. Como os filhos eram pequenos pediu-me para o ajudar. No primeiro dia de trabalho, quando chegou a hora do meio-dia, o patrão disse ao caseiro: “para não estar a mudar de panelas, você vai comer o caldo a casa que eu depois mando-lhe mercearia.” Porém esta mercearia nunca chegou ao destinatário. Passado mais algum tempo, o patrão chamou o caseiro para a mesma tarefa. Chegou a hora do meio-dia e o patrão referiu pela segunda vez a mesma frase, ou seja: “para não mudar de panelas você vai comer o caldo a casa que depois eu mando-lhe mercearia.” O caseiro, como já tinha andado na barragem de paradela e nas minas da borralha, tinha uma certa experiência em dialogar com patrões e encarregados e como a outra mercearia ter-se-ia extraviado, respondeu bruscamente ao patrão o seguinte: ao trabalho que ando a fazer, que ganhe pelo menos para comer. O patrão não respondeu uma única palavra.
No dia seguinte o patrão disse ao caseiro: “você hoje come aqui o caldo.” Chegada a hora do meio-dia, entrámos para a cozinha, sentámo-nos à mesa e a empregada pôs uma tijela de caldo a cada um. O caseiro comeu e disse à empregada: “quero mais caldo ainda tenho fome”, tendo esta respondido: “não há mais”. No entanto, o caseiro insistiu e disse em voz alta para o patrão e a patroa ouvirem porque eles estavam numa sala ao lado também a comer: “assim não se pode trabalhar, até o pão é racionado.” No dia seguinte a empregada voltou a pôr uma tijela de caldo a cada um e quando o caseiro acabou de comer perguntou-lhe “quer mais caldo?”, tendo este respondido: “quero outra tijela que a barriga não está cheia.” Este caseiro foi duro no diálogo com o patrão, mas sempre com devido respeito, mas foi o modo de a partir daquela hora ser libertada a escravatura que naquela casa se encontrava implantada.
O sofrimento daquele caseiro que a fotografia documenta, Avelino de Sousa, começou desde a primeira guerra mundial, manteve-se durante toda a sua vida com fome, muito trabalho, oprimido com medo dos patrões e só terminou este sofrimento aos 77 anos de idade, quando Deus o levou. Saliento que quase todos aqueles que faço referência já partiram deste mundo, por isso devemos pôr de lado o egoísmo que por aí ainda abunda, e pensar que o nosso destino está traçado. O dia e a hora chegará cujo fim só a Deus pertence. Neste contexto, a vida não se alegra com injustiças, mas alegra-se com pessoas bondosas e também com verdade.

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