Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-09-2009

SECÇÃO: Cultura

O fim-de-semana do Rafa

Olá, permitam que me apresente: o meu nome é Rafa; sou (segundo dizem) inteligente, meigo, brincalhão e obediente; tenho orelhas compridas, e pêlo curto com manchas castanhas e brancas. Como já devem ter percebido, sou um cão. Qual a minha raça? Não tenho uma raça definida; a minha dona diz que eu sou rafeiro (daí o meu nome – Rafa), o meu dono diz que eu sou um cão de raça indeterminada, resultado da mistura de muitas raças e que é por isso que sou tão especial. Vivo com a minha dona, o meu dono e o filho deles (o meu dono pequeno, ou como gosto mais de ouvir: o meu amigo) chama-se Alexandre e brinca comigo: corremos na relva, rebolamos no chão e atira-me objectos para eu apanhar e morder; acho que ele não quer que eu os morda, e sim que lhos entregue, mas eu gosto de roê-los.
Quase todos os dias o Alexandre sai de casa de manhã, diz que vai à escola. Quando à tarde volta, leva-me a passear e brinca comigo. Já estou a ouvir os passos dele e da mãe; corro a cumprimentar o meu amigo que entra em casa… mas, percebo que vem aborrecido, quase não me faz festas; o que terá acontecido?
- Porque não posso ir, no sábado, a casa do António?
- Este fim-de-semana vamos para fora; vamos a casa do João aquele amigo do papá que vive em Cabeceiras de Basto.
“Vamos para fora”? Quer dizer que me vão deixar outra vez no canil? Não gosto de lá estar; não me tratam mal e dão-me comida, mas fico fechado num espaço pequeno e ninguém brinca comigo.
- Mas mãe o António tem um jogo novo para a consola.
- Vais a casa do António numa outra ocasião. Este fim-de-semana o papá já combinou com o amigo e acredito que vais gostar. O João tem dois filhos: o Diogo que tem 11 anos, mais um do que tu e a Rita que tem nove; vivem numa quinta perto de Cabeceiras de Basto, junto ao rio Tâmega, com muito espaço para brincarem.
- Oh, muito espaço! Não deve haver nada para fazer!
Percebo claramente que o meu amigo está aborrecido, triste; enquanto ele me põe a trela, dou-lhe umas lambidelas para o animar.
- Vai com certeza ser agradável; o João sugeriu levarmos a tua bicicleta para passeares com o Diogo e a Rita.
Sinto o meu dono mais animado; ele gosta de passear na bicicleta, mas eu tenho dificuldade em correr atrás dele com as minhas patas curtas.
- E o Rafa vai para o canil?
- Não, vai connosco. O João tem dois cães e um espaço próprio, um pequeno quintal para eles, onde também o Rafa pode ficar. Ouviste Rafa? Vais passear.
Óptimo! Não vou para o canil! Fico tão feliz que ladro, salto e corro em círculo, os meus donos riem-se; vê-los contentes deixa-me ainda mais animado.
- Vem Rafa, vamos á rua. Até já mamã.
- Até já filho.

Não sei dizer-vos quantos dias passaram (a verdade é que não sei contar), mas é hoje que vamos passear; estou um pouco assustado, espero que os cães que vou encontrar me recebam bem. Os meus donos arrumam no carro a bagagem que vamos levar. O Alexandre anda em volta dos pais; creio que também ele está um pouco nervoso.
- Mãe, como são os filhos do amigo do papá?
- Não os conheço filho, só sei os nomes e as idades.
- Será que vão gostar de mim?
- Porque não haveriam de gostar? São crianças como tu; talvez gostem de jogos e brincadeiras diferentes das que tens habitualmente com os teus amigos, mas até por isso será mais divertido e interessante estares com eles.
- É muito longe a casa do teu amigo, pai? Vamos demorar muito tempo?
- A viagem vai ser longa, sim. A aldeia onde vive o João fica perto de Cabeceiras de Basto, no Minho. Tenta dormir um pouco.
O Alexandre dorme? Não sei; entro no carro, deito-me aos pés da minha dona e adormeço no mesmo instante. Quando acordo o meu dono põe-me a trela, saio do carro. Os cheiros que me envolvem são diferentes, agradáveis, cheira a terra molhada, a erva fresca, a madeira, a fruta… O meu dono conduz-me pela trela até uma pequena cancela; depois de aberta, entramos; aproximam-se um cão, preto e maior que eu, e uma cadela, castanha, do meu tamanho. Sento-me junto às pernas do meu dono e do Alexandre.
- Baco, Lady, sentados. Eles estão com frequência com outros cães; o vosso Rafa fica bem com eles, aqui neste quintal.
- Mas o Rafa não está habituado a conviver com outros cães.
Levanto-me e aproximo-me devagar, também eles se levantam, cheiramo-nos e, começamos a correr à volta uns dos outros, é desta forma que nos ficamos a conhecer e nos tornamos amigos.
- Estás a ver, Alexandre, já são amigos. Vamos deixá-los aqui, amanhã vimos buscá-los.
Fico com os meus dois novos companheiros que me mostram o espaço que me rodeia: onde está a água, a comida, a manta para dormir. A noite passa depressa, acordo com a claridade e ruídos desconhecidos; o canto de uma ave, um galo, explica-me Baco. Algum tempo depois surgem Alexandre e outras duas crianças, vêm de bicicleta; cumprimento-os ladrando alegremente; abrem o pequeno portão e saímos. Seguimos por caminhos de terra em passeio, as três crianças pedalando na frente e os três cães correndo no seu encalço. Felizmente o ritmo é lento, o que me permite acompanhá-los e em simultâneo cheirar muros, arbustos, pedras, árvores e meter o focinho em buracos e tocas; há tantos cheiros novos, tanto por explorar. Alexandre, Diogo e Rita param e desmontam encostando as bicicletas a árvores; estamos num campo coberto de vegetação baixa e flores, o terreno apresenta um ligeiro declive terminando num curso de água. Esta correria fez-me sede, aproximo-me e bebo água, é fresca e saborosa.
- Vamos parar e descansar um bocadinho, a Rita já está cansada.
- Não estou nada, eu aguento o mesmo que vocês, disse para pararmos aqui porque este sítio é o mais bonito ao longo do rio.
- Este sítio é espectacular. Que rio é este? Pode-se tomar banho aqui?
- É o rio Tâmega. Aqui não convém nadar, mas um pouco mais para baixo há uma praia fluvial onde vamos no Verão, é bestial.
- Mas agora na Primavera é mais bonito, há flores de tantas cores, e podemos sentar-nos nas pedras e molhar os pés.
- E esta água pode beber-se? Os cães estão a beber.
- A minha mãe diz para nós não bebermos, mas aos cães não faz mal, eles até bebem água suja de poças, quando chove.
- Não estava preocupado com os cães, estou com sede.
- Ficamos aqui um bocadinho e depois voltamos para trás, no caminho há uma fonte de água boa para beber.
Vejo no meio de uma moita um animal que me fixa; tem pêlo cinzento e orelhas grandes, aproximo-me dele mas afasta-se aos saltos, corro em sua perseguição… que saltos enormes, que rápido… onde se escondeu?
- Rafa vem cá! É um coelho, cão pateta, não o vais conseguir apanhar.
As crianças riem, volto para junto delas, um pouco envergonhado. Alexandre, o meu amigo faz-me festas, Baco e Lady correm á minha volta e ladram para me animar; é bom sentirmos que gostam de nós.
- Rita, já não estás cansada? Podemos voltar para casa?
- Eu já disse que não estou cansada.
- Eu sei maninha, estou a brincar contigo, não fiques aborrecida. Vamos almoçar que eu estou cheio de fome.
- Quem estava cansado era eu, não estou habituado a andar tanto de bicicleta como vocês. Depois do almoço vamos dar outra volta?
- Não, logo à tarde o meu pai disse que iríamos visitar um museu de comboios que existe aqui perto, em Arco de Baúlhe.
- Vamos embora, rapazes, parece que afinal vocês é que precisavam de descansar.
Rindo as crianças sobem para as bicicletas e fazemos o percurso de regresso…pedalam velozmente, julgo que querem demonstrar que não estão cansadas; cansado fico eu, acompanhar a sua velocidade com as minhas pernas curtas não é fácil, também Baco e Lady chegam ao fim da corrida de língua pendurada; entramos no pequeno quintal e os três precipitamo-nos para a tigela da água… ufa! que sede e que calor. Depois da partida de Alexandre e dos amigos, deito-me á sombra e durmo. Dizem que nós, os cães passamos muito tempo a dormir, mas que outra coisa havemos de fazer quando estamos sós?
Ao final da tarde os nossos jovens amigos voltam, mas desta vez acompanhados pelos pais, dão-nos comida, água fresca, limpam as nossas instalações e depois damos um pequeno passeio. Alexandre, Diogo e Rita falam com animação dos comboios que viram, é fácil perceber que gostaram de visita ao Museu. Voltamos para o nosso quintal; após algumas festas de despedida crianças e pais saem, fechando o portão, e cá estou eu… novamente prontinho para dormir.
Um novo dia nasce e voltamos ao local junto ao rio aonde estivemos na véspera, mas hoje para além das crianças e de nós, os cães vêm também os pais e com eles trazem enormes cestas com comida para um piquenique. Gosto de piqueniques; para um cão, que como eu, é alimentado quase sempre com ração, um piquenique é uma festa na qual posso comer pequenos petiscos: um bocadinho de carne que cai ao chão, uma côdea de pão que a minha dona não gosta ou o pedacinho de sanduíche que o Alexandre me dá em resposta ao meu olhar suplicante.
- Diogo, Rita, Alexandre, parem um bocadinho de brincar e venham comer.
- Nham, nham, gosto tanto dos croquetes que tu fazes mamã.
- Eu não gosto da pele do frango; posso dar ao Rafa um bocadinho? Ele está aqui sentado a olhar para mim parece mesmo que está a pedir.
- Dá-lhe pouco Rita, ele é muito guloso e pedinchão.
- O Baco e a Lady também querem.
- Não estejam só a dar comida aos cães, meninos. Eles habituam-se e depois não querem comer a ração.
- Oh pai é só hoje. É um dia especial.
Estou totalmente de acordo com o Diogo, hoje é um dia especial…é dia de piquenique.
- Mãe, vamos mostrar ao Alexandre a vinha do avô.
- Temos de convencer os pais do Alexandre a voltar cá na altura das vindimas.
- Eu quero voltar no Verão para ir á praia do rio.
- Vocês são sempre bem-vindos, gostamos muito de vos ter cá.
- Rita, Alexandre, vamos! Fazemos uma corrida, um, dois e três!
Sempre que vejo o meu jovem dono a correr, sou incapaz de não o seguir; assim enquanto os meus companheiros Lady e Baco permanecem deitados, eu acompanho as crianças na sua corrida. Descubro alguns coelhos escondidos na vegetação, apesar de conhecer a sua velocidade, não resisto a persegui-los e vê-los dar enormes saltos.
- Alexandre, Diogo, ajudem-me!
A voz de Rita tão aflita! Volto para perto dos meus amigos; não vejo a Rita, Alexandre e Diogo estão de joelhos no chão. Aproximo-me, a menina está suspensa pelas mãos dos dois rapazes, num buraco a que não consigo ver o fundo.
- Segura-te bem às minhas mãos!
- Mas que buraco é este?
- É um velho poço, mas o meu avô tinha-o coberto; alguém o abriu de novo.
- E eu não o vi e caí. Tirem-me daqui!
- Mas nós não temos força para te puxar.
- Eu vou chamar o pai.
- Diogo, eu não consigo segurar a Rita sózinho, não a largues!
- Não me deixem cair!
-Não chores, Rita, nós não te largamos.
- Mas o que fazemos? Achas que se gritarmos nos ouvem?
O Alexandre olha para mim; percebo o que me pede sem palavras. Corro o mais depressa que me permitem as minhas patas curtas. Junto dos pais dos meus jovens amigos ladro e salto em seu redor.
- Então Rafa, estás contente? Gostas de estar no campo?
Eles não me entendem! Como gostava de saber falar!
- Rafa! O que se passa com este cão?
- O que é Rafa? Onde estão os meninos?
Compreenderam finalmente. Correndo uma vez mais, conduzo-os ao local onde os dois rapazes deitados no chão à beiro do poço, seguram as mãos de Rita. Com facilidade o meu dono agarra a menina e iça-a. Todos se abraçam, Rita ainda chora, assustada.
Sentado no chão respiro ofegante; a minha língua quase raspa o chão. Alexandre abraça-me.
- Meu cão lindo, és um herói.
- És muito inteligente Rafa. Logo á noite vou-te dar um osso enorme para roeres.
A minha dona vai dar-me um osso enorme! Fantástico! Mas melhor ainda são as carícias que todos me dispensam. Também os meus companheiros Baco e Lady me felicitam.
Mais tarde nesse dia despedimo-nos dos nossos novos amigos e iniciamos a viagem de regresso a casa.
- Adeus, adeus, voltem depressa.
- Adeus, ficamos a aguardar a vossa visita em Lisboa.
- Boa viagem… Adeus…
- Gostaste de fim-de-semana, filho?
- Adorei mãe, foi bestial e também gostei muito da Rita e do Diogo.
- Eu sabia que tu ias gostar, meu rapaz. E acho que o Rafa também gostou. Não é, cão pateta?
Nem levanto o focinho para o meu dono; de olhos fechados, sonho, ainda antes de adormecer, com um osso suculento.

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