Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-09-2009

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (110)

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O IRMÃO DO FILHO PRÓDIGO

Eu sou um daqueles que, embora contrariando as tendências e correndo o sério risco de ser mal interpretado, torce pelo irmão do filho pródigo. Que me perdoem os defensores das teorias evangélicas, mas, em boa verdade, não posso, de modo nenhum, assumir atitude diferente, eu torço pelo irmão do filho pródigo.
Em respeito por todos aqueles que nunca terão lido, e que por conseguinte desconhecem, a parábola que vem no Capítulo XV, versículos 11 a 32 do evangelho segundo S. Lucas, permito-me transcrevê-la aqui na íntegra. Reitero que a mesma foi transcrita de um exemplar autêntico e muito antigo de “Os Quatro Evangelhos”, não se trata, portanto, de cópia de qualquer escrito daqueles, de baixíssima qualidade, que actualmente abundam em meios de informação global.
Eis o texto:
«11 Disse mais: Um homem teve dois filhos. 12 E o mais novo deles disse a seu pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me toca. E ele repartiu entre eles os bens. 13 E, passados poucos dias, juntando tudo (o que era seu), o filho mais novo partiu para uma terra distante, e lá dissipou os seus bens, vivendo dissolutamente. 14 E, depois de ter consumido tudo, houve naquele país uma grande fome, e ele começou a necessitar. 15 Foi, pois, e pôs-se ao serviço de um dos cidadãos daquela terra. Este, porém, mandou-o para os seus campos guardar porcos.
16 E desejava encher o seu ventre das landes que os porcos comiam, e ninguém lhas dava. 17 Mas, tendo entrado em si, disse: Quantos jornaleiros há em casa de meu pai, que têm pão em abundância, e eu aqui morro de fome! 18 Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e contra ti. 19 Já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros.
20 E, levantando-se, foi para seu pai. E, quando ele estava ainda longe, seu pai viu-o, e ficou movido de compaixão, e, correndo, lançou-lhe os braços ao pescoço, e beijou-o. 21 E o filho disse-lhe: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. 22 E o pai disse aos seus servos: Tirai depressa o vestido mais precioso, e vesti-lho, e metei-lhe um anel no dedo, e os sapatos nos pés. 23 Trazei também um vitelo gordo, e matai-o, e comamos, e banqueteamo-nos. 24 Porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi encontrado. E começaram a banquetear-se.
25 Ora, o filho mais velho estava no campo; e quando veio e se foi aproximando de casa, ouviu a sinfonia e o coro. 26 E chamou um dos servos, e perguntou-lhe que era aquilo. 27 E este disse-lhe: Teu irmão voltou, e teu pai mandou matar um novilho gordo, porque o recuperou com saúde. 28 E ele indignou-se, e não queria entrar. Mas o pai, saindo, começou a pedir-lhe (que entrasse). 29 Ele, porém, respondendo, disse a seu pai: Há tantos anos que te sirvo, e nunca transgredi nenhum mandado teu, e nunca me deste um cabrito para eu me banquetear com os meus amigos. 30 Mas, logo que veio este teu filho, que devorou os seus bens com meretrizes, lhe mandaste matar um novilho gordo. 31 Mas o pai disse-lhe: Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. 32 Era, porém, justo que houvesse banquete e festa, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi encontrado».
Está claro que eu entendo muito bem a atitude do pai. Pai é pai, sempre assim se disse, e sempre assim haverá de ser dito. Mas, filho é filho, e irmão é irmão. E, a filho, ou a irmão, que sempre trabalhou no duro, é justo que se lhe reconheça o direito de questionar o modo como o outro abalou com a sua parte na herança, com o beneplácito do pai, a esbanjou, e depois, após tudo ter gasto e esbanjado, é recebido na casa paterna como um herói.
O filho pródigo é um enorme mau exemplo do que são muitos dos filhos da nossa actual sociedade. Uma grande percentagem de todo aquele numeroso contingente que actualmente vive à custa do rendimento social de inserção, vulgo rendimento mínimo, é constituída pelos actuais filhos pródigos. São os filhos pródigos da sociedade dos nossos dias. Porém, estes, os de agora, são bastante piores do que o outro, aquele que vem relatado na parábola do evangelho segundo S. Lucas.
O filho pródigo de que falam as escrituras não fez mais, nem menos, do que aquilo que se julga humano e normal que qualquer um faça. Perante a miséria e a adversidade, arrepia caminho, volta atrás, mostra-se arrependido e clama por misericórdia.
Não é, porém, o caso de uma significativa parcela daqueles que actualmente beneficiam do RSI (Rendimento Social de Inserção). É público, e até já faz parte de um certo e triste rol de anedotas, o facto de que há por aí quem se dê ao desplante de se vangloriar dizendo: «Trabalhar? Qual trabalho? Ele, (o montante do RSI) no fim do mês, cai-me na conta, é só o trabalho de ir levantá-lo, que trabalhe quem for burro!».
Na data em que este texto sair publicado, já serão conhecidos os resultados das legislativas de vinte e sete de Setembro. No momento em que estou a escrevê-lo, ainda se mantêm todas incógnitas em aberto. É muito provável que haja surpresas no que respeita a esses resultados, por enquanto não se sabe, mas, neste particular, estou totalmente de acordo com as teses do líder do CDS/PP, é preciso por os malandros a trabalhar.
Basta de filhos pródigos da actualidade. Pela minha parte, sinto-me muito mal com tal categoria de irmãos. Eu torço pelo irmão do filho pródigo.

Por: José Costa Oliveira

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