Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-08-2009

SECÇÃO: Informação

“A Aviaras” venceu IV Concurso Literário – Conto Infanto-juvenil

“A Aviaras”, de autoria de Paulo Jorge Coelho Carreira, da Batalha, foi o conto vencedor da quarta edição do Concurso Literário Nacional – Conto Infanto-Juvenil promovido pela Autarquia Cabeceirense através da Biblioteca Municipal Dr. António Teixeira de Carvalho, em 2009. Seguiram-se, em segundo lugar “O Passeio de Rafa”, de Maria Paula Caetano Goulart da Silva, de Lisboa e em terceiro “No quintal da Senhora Bonita” de autoria de Joaquim da Conceição Barão Rato, de Beja.
À semelhança das edições anteriores, este Concurso, de âmbito nacional, teve como principal objectivo divulgar e promover novos talentos literários, estimulando o gosto pela escrita e pela leitura como formas superiores de acesso à educação e cultura.
Uma iniciativa destinada sobretudo, a pessoas que não tenham ainda publicado nenhum livro na área da literatura, exigindo, no entanto, que os trabalhos apresentados fossem reveladores de criatividade, imaginação, qualidade literária, organização, coerência, coesão de texto e obediência às características do género em questão.
Tendo em vista divulgar os textos vencedores, o Ecos de Basto vai publicar os três primeiros classificados, sendo que nesta edição damos à estampa o conto vencedor “A Aviaras”.

«A aviaras»
PAULO CONEJO

Era uma vez um bosque que já não era bosque, de um mundo que quase já não era mundo. O bosque tinha poucas árvores e mesmo essas estavam a morrer ou a cair de velhas. O mundo quase não era mundo por causa disso mesmo e porque estava atulhado de lixo e toda a espécie de sujidade. Apesar de tudo, no bosque de que estamos a falar ainda viviam alguns animais, e o mais surpreendente de todos era, sem dúvida alguma, a aviaras.
A aviaras era um animal relativamente estranho, na medida em que não se podia comparar a nenhum outro. E porquê? Porque tinha um pouco de todos.
Comecemos pelo rabo. O rabo da aviaras descrevia um e como o rabo de um porco, no entanto a aviaras não era um porco. As patas traseiras lembravam um Z e eram elásticas e musculosas como as da lebre, no entanto não era uma lebre. As unhas eram poderosas garras, afiadas e cortantes como as do lince ou da pantera, porém não era nem um lince, nem uma pantera, nem nada que se parecesse. Tinha uma espécie de asas, que não eram asas não eram nada; não havia no bosque nenhum pássaro com asas tão pequenas. O pescoço era comprido e delgado como o do cisne, no entanto não era um cisne; e a cabeça parecia a cabeça de um peixe do rio Peio com uns olhos grandes que pareciam de gato e umas orelhas caídas que pareciam de cão de caça. No entanto, não era peixe, nem gato, nem cão de caça. Era, pura e simplesmente, uma aviaras.
Tinha uma outra particularidade especial: estava constantemente a mudar de cor. Dependia do seu estado de espírito. Quando se sentia feliz – raras vezes – a sua cor era de um azul intenso como o azul do céu num dia de sol. Quando se sentia nem feliz nem triste, ou seja, indiferente e relativamente aborrecida, a sua cor era branca, branca como a neve, branca branca. Quando triste, a sua cor era cinzenta, quase negra, como a cor do céu num dia de chuva. Sentindo uma emoção mais forte, ou quando se excitava infantilmente, mudava para um alaranjado da cor do pôr-do-sol e quando se irritava, com ela mesma ou com outro bicho do bosque, então sim, ficava vermelha!
Detestava esta estúpida mudança de cores. Afinal, nem sequer era um camaleão. Julgava que os outros bichos se riam e divertiam à sua custa. Ninguém imagina o sem-número de coisas e loucuras que rodopiavam como moscas tontas naquela cabecinha maluca de peixe, gato e cão ao mesmo tempo.
De facto, a aviaras era o bicho mais complexo e mais complexado do bosque. Como um fantasma, deambulava o dia inteiro por entre as árvores, para trás e para a frente, para cima e para baixo, e passava a vida assim, sem um objectivo, sem saber o que era, o que queria e por que estava ali.
Sabia que era uma criatura tímida, frágil e sensível. Muitas vezes munia-se de uma espécie de máscara, um disfarce para conseguir viver com os outros. Se isso era cobardia ou medo de se ver sozinha, não sabia. Sabia que tomava atitudes inexplicáveis, como o afastamento de si mesma, e sentia que tudo ficava sem nexo, todos os muros se elevavam, todas as cercas se erguiam à sua volta, todas as luzes se apagavam. Sabia que pensava de mais em coisas que muitos bichos achavam que não se devia pensar, e isso levava-a ao isolamento e à solidão. Quando isso acontecia, passava momentos dolorosos, tornava-se um bicho egocêntrico, revoltado mesmo. Mergulhava em depressões doentias, tornava-se incomunicável como as pedras da Serra da Cabreira, perdia o sono, a fome, o riso, o tino. Era uma sensação terrível de abismo, e sentia-se cair por ela abaixo nessa embriaguez avassaladora até as suas diversas facetas ou almas contrárias se dispersarem por completo. Aí sentia vários, inúmeros bichos a lutarem dentro de si, sem disso resultar vencedores ou vencidos, mas sim e sempre a mesma aviaras complexada.
Perguntava a si mesma se haveria no mundo criatura mais insatisfeita e aborrecida do que ela; por que é que tinha tantas personalidades; por que mudava de cor; por que tinha cara de peixe, rabo de porco; por que é que não era um bicho normal...
Um dia, porém, pensou, pensou... pensou tanto que resolveu divertir-se um pouco, não levar nada a sério, rir de tudo e sobretudo rir-se de si própria. Muito mais do que isso, resolveu fazer de conta, fingir. Achou que a ideia era brilhante e que aí estava a resolução dos seus problemas.
Quando teve esta ideia genial estava dentro de casa (vivia num velho e oco tronco de carvalho, no sopé da Serra da Cabreira) e olhava para as formigas que passavam subindo e descendo, com sementes às costas, muito atarefadas, e desapareciam a um canto. Fixou os seus luminosos olhos de gato numa formiga em especial, preta e brilhante, aliás como todas, que se desviara do grupo e começara a subir a parede até ao tecto. Aqui, pôs-se a passear de patas para o ar, sem cair.
A pobre aviaras ficou de boca aberta. Já tinha reparado nas formigas a passearem pelo tecto e nunca pensara como isso era espantoso. De imediato, quis ser formiga.
Por momentos, fitaram-se ambos, e teve a sensação que não era a formiga que estava no tecto, mas sim ela. Tanto podia ser uma coisa como outra, porque para as formigas não devem existir soalhos, nem paredes, nem tectos, e o mundo tanto pode estar como está como de pernas para o ar, que não lhes faz diferença nenhuma. Por isso, a aviaras esboçou um sorriso e a formiga o que fez foi tirar-lhe a língua.
Isso foi a gota que fez transbordar o copo. A aviaras ficou logo meia fula, já a passar do laranja para o encarnado, e começou a trepar a parede para mostrar a essa malcriada da formiga que podia ser como ela. E conseguiu, só que, quando chegou ao tecto, não aguentou mais e zás!, espaparrou-se contra o chão.
Todas as formigas pararam e, encostadas às sementes, desataram a rir às gargalhadas, inclusive a formiga do tecto, que era quem ria mais.
Enfim, um vexame para a aviaras, agora triste e, por conseguinte, negra. Não só negra, mas também roxa por causa das nódoas negras, que não são negras mas sim roxas. Uma vergonha, realmente. Formiga, já não queria ser. Antes fingir outra coisa, mas formiga não.
Assim, desatou a correr pelos caminhos do bosque e, sem querer, foi parar ao rio Peio, afluente do grande Tâmega. Numa das margens, sentou-se imóvel como um calhau, relativamente calma. Branca de indiferença, pôs-se a escutar o caudal do rio. De súbito, ouviu um chapinhar diferente, olhou e viu uma grande truta (sim, há trutas no rio Peio), aos saltos, rio acima, nadando contra a corrente, dir-se-ia muito divertida e mesmo feliz da vida.
«Deve ser bom nadar – pensou –, mergulhar, saltar, brincar com a água. Não! Não é formiga que quero ser, mas sim uma truta, um barbo, uma boga, um peixe qualquer!»
E, sem pensar duas vezes, fingiu que já era um peixe e saltou para a água.
Catrapus! Foi ao fundo, veio acima, nadou um pouco desajeitadamente, entretanto foi ao fundo e outra vez veio acima e nadou um pouco mais. Como a corrente era forte e ondulante, e como não tinha guelras nem barbatanas como os peixes (de peixe só tinha a cabeça!), de repente começou a sentir-se cansada e, por escassos segundos, desapareceu nas ondas e na espuma do rio. Quando reapareceu, a sua cor já não era cor nenhuma que se pudesse imaginar; não existia no arco-íris nem em parte alguma do mundo.
Demasiado orgulhosa para pedir socorro, continuou a debater-se contra a fúria da corrente. Mas isso só a estafava mais e mais água engolia quando ia ao fundo. O caso estava a tornar-se sério, mas entretanto a truta viu o que estava a suceder, voltou para trás e, num instante, trouxe a quase moribunda aviaras para a margem.
- É estrranho – disse a truta, que arranhava nos erres. – Porr que te atirraste ao rrio?
- Quis ser como tu – respondeu a aviaras, a tossir e a cuspir água.
- Mas tu não és uma trruta, nem sequerr tens barrbatanas.
- Não, o problema é da água...
- Da água? – a truta não percebeu.
- Sim, está porca.
- Porrca?
- Também não me compreendes – disse, por fim, a aviaras. – Vou-me embora. Não sei se te devo ou não agradecer por me teres salvo; de qualquer maneira, foi bom ter-te conhecido.
Ao descer os penhascos da Cabreira, sempre com medo de cair, foi pensando como era inacreditável ter chegado lá acima, ela, que sempre detestara altitudes. Que tolice querer ser águia! Mil vezes pior que querer ser formiga ou truta! E mesmo a águia, mesmo sendo ela tão poderosa e tão temida, mesmo sendo ela a rainha das alturas, voando tão alto como as nuvens e gozando todos esses prazeres, mesmo ela, a águia, tinha os seus defeitos. Via-se que era um ser solitário – mais solitário, talvez, que a própria aviaras –, e que tinha dificuldades em falar, pois parava à procura da palavra certa, sempre com aquele seu ar sério, talvez distante, e sempre áspero. Porém, era a águia, a rainha das alturas!
Chegou ao bosque a tremer como uma folha de erva e até se sentiu envergonhada quando os olhares de alguns bichos, entre os quais os da lebre e da serpente, e também de alguns garranos e veados que pastavam por ali perto, lhe caíram em cima como faíscas. A sua cor, agora, era preta, sinal de tristeza e, pior que isso, vergonha.
Quando chegou ao seu velho tronco de carvalho, meteu-se na cama e tentou dormir, talvez para esquecer tudo. Mal fechou os olhos, porém, teve logo um sonho, um sonho muito, muito estranho. E inquietante.
Sonhou que não havia mundo e que o que havia era tudo fingido; que fingir era a arte mais verdadeira dos seres que nele habitavam e que era nessa arte que residia a autêntica felicidade. O próprio sonho a incitava a fingir, a rir-se de si mesma, como única solução para se poder viver. E então fingiu, fingiu que era tudo, que não era nada, que era uma águia, um peixe, um garrano, uma mosca no garrano, uma pedra, uma nuvem... Fingiu tudo que lhe veio à cabeça, tudo menos ela própria, e a certa altura, porém, ficou tão dividida, tão fragmentada, que já não sabia o que era – perdera a identidade. Mais: quis tanto fingir, que já não sabia se era um pássaro ou uma simples pedra, se o sonho era mesmo sonho ou realidade, se continuava a dormir ou não... Enfim, um verdadeiro caos a girar à sua volta. Digamos que se tornara prisioneira, ou escrava, ou vítima do seu próprio jogo ilusório do fingimento, até a destruição, lenta mas certa, do que ainda restava dela...
Na sua ideia, andou assim alguns dias e algumas noites e só voltou a si, de facto, quando chocou contra um porco-espinho, coitado, que não teve culpa de nada. Mas também não ficou zangado com a aviaras, porque reparou logo no seu ar distante e confuso de quem parece ter fugido do manicómio. Antes pelo contrário, até ficou com pena e ajudou a arrancar-lhe alguns espinhos daquele pobre corpo dorido e pisado.
- Por que me atacaste? – perguntou-lhe a aviaras, confusamente.
- Não te ataquei; apenas me defendi – respondeu o porco-espinho, que trazia uma maçã muito madura, quase podre, espetada nas costas. – Quando vieste direito a mim, só tive essa hipótese, que foi enrolar-me e esperar. Mas reparo que te sentes confusa, ou que existe qualquer coisa de errado em ti...
- O meu problema é que detesto ser assim, uma mistura de vários seres: tenho um pouco de suíno, de fera, de peixe, de pássaro e camaleão, entre outros, mas ao fim e ao cabo não sou uma coisa nem outra; que criei complexos por causa disso e que passei a vida a fingir que era um tipo de bicho tão normal e tão perfeito como outro qualquer, mas que, em boa verdade, nunca o consegui ser, nem perfeito nem imperfeito, nem normal nem anormal; ou seja, nunca consegui ser fosse o que fosse. Eis tudo dito.
O porco-espinho tinha um não-sei-quê de feio e repelente, mas apesar disso começou a rir-se. Não com um riso de gozo, antes um riso cheio de sinceridade, que até lhe dava um ar bem simpático e divertido.
- Já percebi tudo – disse. – Se calhar julgas que és só tu que sentes isso. Olha bem para mim. Tenho um focinho esquisito e então destes espinhos nem te digo nada... Mas isto era o que pensava dantes. Achava-me horrível. Agora não; agora mudei, aprendi a ser eu mesmo tal como sou, e até gosto de ser assim, tenho mesmo prazer em ser diferente. Em boa verdade, estes espinhos, aparentemente horrendos e desnecessários, até me fazem um jeitão, porque é com eles que transporto a minha comida – estás a ver a maçã, hem? – e além disso é com eles que me defendo: detesto brigas, mas quando me atacam, enrolo-me, deixo-me estar e ninguém me pega. Tomara muitos tivessem estes maravilhosos espinhos para se defenderem. São muito mais úteis que todas essas penas multicoloridas desses pássaros vaidosos que andam a esvoaçar por aí.
“Já percebi, realmente. Andas à tua procura. E no entanto estás tão perto de ti, tão dentro de ti, que não consegues ver nada, porque só fazes para ver os teus defeitos – e serão mesmo defeitos? Não serão virtudes? Pensa bem nisso. Há quem considere que sou louco, porque tenho ideias e faço coisas estranhas. Mas isso só me dá alegria, porque quando me acusam, ou rotulam, ou marginalizam, significa que não sou igual a eles e é isso mesmo que quero: diferenciar-me dos bichos normais, doentes do vulgar e do banal, vítimas do tédio, da escravidão de hábitos, de regras sem nexo, de vícios destruidores. Alegro-me por não ser igual a esses bichos e esforço-me, exijo algo mais de mim mesmo, para além de tudo isso. O mundo não precisa de mais seres normais, eles nunca fizeram nada por ele, apesar do mundo estar repleto deles.
“Mete na tua cabeça que não podemos ir ao encontro de nada sem antes termos ido ao nosso próprio encontro. Para quê fingir e procurar nos outros aquilo que podemos ter mesmo à nossa mão? Para quê ter medo de nós mesmos, ou ter medo do próprio medo? Nunca te esqueças que em cada bicho diferente há um universo diferente, um planeta cheio de magia, de exotismo, de exuberância e subtileza. Aí, a arte está, não em fingir, mas em conseguirmos explorar o nosso universo e descobrirmos um mundo de coisas novas. Para isso só temos que ser verdadeiros.
“Pessoalmente, acho-te estranha, mas também acho que tens uma figura simpática. Não és nenhum monstro, se calhar já te disseram isso. E se calhar também já descobriste que os que te parecem perfeitos, na realidade, têm montes de defeitos. Só precisas ser tu, ser verdadeira, repito. Se agires assim, serás sempre diferente dos outros e, com o tempo, melhorar-te-ás sem dares por isso. Os outros é que vão notar a diferença, não tu. Porque foste sempre sincera, sem fingir, sincera em relação a ti e sincera em relação ao mundo que te rodeia.
“Pensa nisso. Agora preciso ir, vou para Cabeceiras de Basto. Tenho lá montes de coisas para fazer, velhos sonhos para realizar, loucuras, enfim. E há lá bons pomares de fruta para saborear. Trau!... Perdão. Tchau, adeus, até à vista.
E desapareceu no húmus, nas folhas mortas do bosque, tão misteriosamente como apareceu.
O que seria aquele porco-espinho? Um anjo vindo do céu? Um poeta? Um filósofo? Ou, simplesmente, um porco-espinho?
Fosse o que fosse, a verdade é que a mente da aviaras mudara. Agora via as coisas por outro prisma. O porco-espinho tinha razão: precisava ser verdadeira para ser o que queria ser – ela própria. Quando olhou de viés para o seu rabito de porco, esse rabito em e que por acaso (teria sido mesmo por acaso?) lhe salvara a vida, pensou: « Hum, até é um rabo divertido. Vejamos...»
Na sua cabeça corria um regato de água fresca e limpa e nascia um novo dia, um sol a brilhar, a iluminar tudo, a afastar a escuridão.
E agora achava que era fácil. Só precisava sentar-se debaixo desse sol magnífico, abdicar, e ser rainha de si própria. Esse era o seu sonho.
Esta é uma história de ficção. Qualquer semelhança com factos, bichos ou aviaras em particular terá sido mera coincidência.

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