Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-08-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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Maria Moisés (III)

Podemos entrar agora a contar a história de Maria Moisés. Está entregue desde o seu 1º dia de vida aos fidalgos do Arco na sua Casa e Quinta de Santa Eulália, na margem direita do Tâmega, em Ribeira de Pena. Ninguém sabe de quem é filha. Só sabem que foi encontrada, boiando dentro duma cestinha, nas águas calmas do Tâmega, junto às poldras de Santo Aleixo. E a menina cresceu em graça e simpatia. Morreu o desembargador e uma das manas: a outra, D. Maria Tibúrcia, já “uma carcaça” ainda arranjou pretendente. O fidalgo e a outra senhora, ao morrer, deixaram a Maria Moisés a casa e 5.000 cruzados. Maria Moisés revelou ao cónego, seu protector, o seu pensamento: “era criar meninos engeitados”. O cónego desaprovou-lhe “em termos enérgicos”, pois “uma menina solteira a lidar com engeitados figurou-se-lhe exercicío menos consentâneo com a pureza e candura de anos tanto em flor”. Mas Maria Moisés retorquia ao bom abade: “- O meu desejo é dar aos engeitados a caridade que recebi”. E Maria Moisés iniciou a sua humanitária missão, ajudada pela filha do Francisco Bragadas que….. mas esta parte não interessa. O que o Bragadas dizia a Maria era: “A senhora lá sabe o que lhe convém. O que eu lhe digo é que, se se espalhar a notícia de que a senhora recolhe os engeitados, verá que lhe chovem em casa como a praga do Egipto. E olhe que está em terra azada para meter em casa mais garotos do que andam na escola do Farripas, em Santo Aleixo. Isto por aqui é um louvor a Deus de mulheres perdidas…Já não há pais que saibam criar as filhas com pão e pau.”
O velho caseiro tinha razão: “Por toda a corda de Basto e Ribeira de Pena, por todo o Barroso e Cerva, daquém e dalém-Tâmega, propalou-se que uma senhora de grande riqueza e caridade aceitava engeitados em sua casa. Onde chegou a nova foi também o sobrenome da senhora: Chamavam-lhe a Santa Moisés”. E a vida decorria e Maria Moisés continuava na sua santa missão. Mas “a herança do cónego e os rendimentos da quinta, na verdade mal administrados, supriram ainda assim as despesas no transcurso de dez anos”. Começa a ser explorada pelos velhacos: “a falsa piedade explorava-a. Festas de capelas, votos de missas perdidas, resplendores para uns santos, capas para outros, esmolas a entrevados de longe, esmolas para aleijados que iam a caldas e ao mar, esmolas para rapazinhos que iam para o Brasil, para cabaneiros a quem o incêndio devorou a choça – com verdade ou impostura – ninguém ia de sua porta com as mãos vazias.” Assim, não admira que a Casa e Quinta de Santa Eulália tivesse de ser posta à venda.

***

Estamos em 1850. “Trinta e oito anos depois que saiu de Portugal, chegou à sua casa de Cimo-de-Vila, em Ribeira de Pena, António de Queirós e Meneses, reformado com a patente de general do império brasileiro. Tinha 60 anos. Não casara, nem grangeara família de ordem nenhuma. Viera só, mais velho que a sua idade, cheio de condecorações, e mais nada. António de Queirós era rico em Portugal.”
[…]O general chegou inesperadamente, recolheu-se à casa onde nascera; e tão funda amargura o avassalou que se arrependeu de voltar à terra natal, onde lhe entraram redivivas e pungentes ao âmago da alma as recordações de Josefa de Santo Aleixo, - uma sombra plangente que lhe seguira todos os passos da vida”. Todos os seus amigos da mocidade eram mortos. Restava Fernando Gonçalves Penha, da casa da Temporã, aquele “que, a seu pedido, enviara a astuta caseira a Santo Aleixo com o recado da fuga.” E que agora estava já também reformado de Juiz da Relação. “Os dois velhos abraçaram-se a chorar.” O general não sabia da morte de Josefa, porque as cartas que o juiz lhe escrevera não passavam do correio de Vila Pouca de Aguiar, por suborno do pai do cadete ao carteiro. As recordações vão-se desfiando uma a uma: “Olha, Queirós, na mesma noite em que essa rapariga apareceu moribunda no rio, um homem que andava à pesca encontrou uma criança viva num berço levado à tona de água. Falando eu a este respeito com o cirurgião, me disse ele que a Josefa talvez não se suicidasse; mas que morresse quando ia a fugir para tua casa.” Chegam à conclusão que a criança encontrada nas águas do Tâmega pudesse ser filha da Josefa. O general reformado passa o rio e vai para Santo Aleixo. A quem encontra faz perguntas. Encontra o reitor da paróquia. Passeiam pela aldeola e “ o reitor dizia-lhe os nomes dos possuidores dos melhores edifícios. Chegaram a um recanto onde se viam ruínas de uma casa de lavrador muito espaçosa. O general parecia querer reconhecer o sítio e a casa.” O reitor conta a história do João da Lage, proprietário que fora daquele prédio e recorda a triste história da filha, a Josefa. Conta também a história da criança salva do rio. “Deitaram-se muitas inculcas, mas nunca se soube quem era a mãe”. E conta ao general a história de Maria Moisés, herdeira da Casa de Santa Eulália: “Saiu um anjo a criatura de Deus; chamam-lhe a mãe dos pobres; e recolhe, ensina e dá modo de vida a quantos órfãos e engeitados a mão da desgraça lhe leva ao seu regaço…” Conta-lhe que Maria Moisés tem agora 37 anos; António de Queirós faz as contas mentalmente: estavam em 1850, menos 37 anos; nasceu, portanto, em 1813, o ano em que morreu Josefa. No fim da conversa o general e o reitor reconhecem-se: “Olhe que somos ambos da mesma criação, e ainda fomos condiscípulos alguns meses de 1809 em latim na aula do padre mestre Simão no Vale de Aguiar”. Abraçam-se e o reitor continua a desfiar o que sabe sobre Maria Moisés, agora em dificuldades financeiras que a obrigavam a vender a casa. Finalmente chegam à conclusão (que o leitor sabe desde o princípio da narrativa) que Maria Moisés é filha do general reformado António Queirós de Meneses, senhor da Casa de Cimo-de-Vila.
E a história vai acabar em bem. O general visita o orfanato. “Neste instante, entrou um rancho de treze meninos e meninas. Os rapazes vestiam uniforme de cotim escuro, e as meninas de riscadinho azul. O mais velho tinha onze anos, e era aleijado, encostava-se às muletas, e entrara muito contente, saltando na única perna, com uma alegria de idiota. Cumprimentou os circunstantes, com desempeno de grande sociedade, e retirou-se às recuadas para a frente do grupo”.
O general compra a quinta. Maria Moisés é autorizada a ficar na Casa com as crianças. Francisco Bragadas, agora com dois carros de anos, continuará como caseiro, ainda que passe a vida sentado numa cadeira. È lavrada a escritura. Maria Moisés agradece:
“- Mil anjos o acompanhem na vida e na morte, Sr. general! – exclamou Maria.
- Mil anjos são muitos – disse ele. – Um anjo só me basta na vida, e esse quero eu que me assista na morte. – E, tomando as mãos de Maria, prosseguiu: - Se eu morrer debaixo da luz dos teus olhos, Deus me chamará a si, não pelos meus merecimentos, mas pelas virtudes de minha filha. Pedirás então a Deus por teu pai, Maria?
- Eu! Jesus! Eu sua filha! – exclamou ela, pondo as mãos convulsas, quando ele a beijava na fronte.
Maria caiu de joelhos, pendente dos braços do pai; e os velhos e as crianças ajoelharam também, trementes e extáticos, sob a faísca eléctrica daquele sublime lance.”
É esta a história de Maria Moisés.
(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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