Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-08-2009

SECÇÃO: Informação

A POBREZA DOS AGRICULTORES DO PASSADO (I)

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Os caseiros viviam numa angústia enorme e sem o mínimo de qualidade de vida e sempre assustados com a presença dos feitores, pelo facto de estes comunicarem aos patrões situações que não correspondiam à realidade.
Um agricultor quando tivesse conhecimento que determinada lavoura se encontrava devoluta ou que em determinada data ficaria devoluta, ia imediatamente pedir ao seu proprietário para o cultivar. Caso o proprietário aceitasse, faziam um contrato verbal ou escrito. Neste contrato ficava estabelecido que o caseiro dava ao patrão certa quantidade da produção que a terra poderia produzir. Na gíria eram as chamadas medidas que mais à frente vou exemplificar. Aqui não está incluído o vinho, azeite e fruta, porque estes produtos eram duas partes para o patrão e uma só parte para o caseiro.
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O caseiro que se vê na imagem, Sr. Inácio de Araújo, esteve numa lavoura no lugar de Calvelos, freguesia de Refojos, concelho de Cabeceiras de Basto, durante cerca de 30 anos. Como o proprietário desta lavoura morava no concelho de Salto, tinha como feitor o Sr. Zé da Candinha e mais tarde o Sr. Manuel Barroso. Os feitores tinham por missão assistir às medições dos produtos agrícolas e fazer o elo de ligação entre caseiro e patrão e vice-versa. Este caseiro de que faço referência, e a sua esposa Emília de Oliveira, tinham uma missão muito espinhosa na época Natalícia, quer chovesse quer nevasse, pelo facto de ir a pé a Salto levar a consoada aos patrões. Saíam de madrugada e regressavam a casa a altas horas da noite com o cesto vazio, com fadiga e imensa fome. Nesta amargurada missão tinham que ir munidos de colmo de centeio, para acender quando o lobo se preparasse para os atacar. Naquele tempo diziam os antigos que se o lobo visse lume fugia, e na realidade nunca os atacou. A verdade deve ser dita, eu se estivesse na situação daqueles patrões não aceitava que o pobre caseiro, que muita fome passava, se deslocasse à minha residência para levar fosse o que fosse. Considero esta situação uma escravatura cruel.
Por ironia do destino o agregado familiar começou a aumentar cujo casal teve 11 filhos, por isso transferiu-se para outra lavoura um pouco maior. Assim sendo, mudou-se para a lavoura da Devesa, situada no lugar da Sobreira, da mesma freguesia e concelho acima referidos, cujo proprietário era juiz e residia na cidade do Porto. Ficou estabelecido no contrato verbal que fizeram que o caseiro devia dar ao patrão 4 carros de milho. Como cada carro correspondia a 40 alqueires, mais conhecidos por rasas de milho, no total teria que dar 160 alqueires de milho, 2 alqueires de feijão e 3 alqueires de centeio. Como o patrão visitava a dita lavoura uma vez por ano, tinha como feitor o Sr. Lourenço que morava na freguesia de Alvite. Apesar da pobreza do caseiro, porque não tirava rendimento para sustentar os filhos, o referido feitor exigia ao caseiro, sem conhecimento do patrão, que lhe desse 10 alqueires de milho. Face à lavoura dar pouca produção, o caseiro pediu a este feitor para que intercedesse junto do patrão para lhe abater às medidas. Mais tarde o feitor disse ao caseiro: “eu já falei com o patrão, sobre o abatimento das medidas, por isso você quando ele aqui vier não lhe fale em nada porque ele pode levar a mal.”
Entretanto o feitor Sr. Lourenço faleceu e foi substituído pelo Sr. Alfredo da Ribeira. Este feitor constatou no livro de registos que o patrão ao longo dos anos já tinha abatido um carro de milho ao caseiro, no entanto este pagou sempre a totalidade estabelecida no contrato. Em suma: o patrão dava ordem ao feitor para abater às medidas, mas aquele não abatia ao caseiro, e ainda lhe pedia 10 alqueires a mais. Certo dia o patrão veio visitar a lavoura e o caseiro ganhou coragem e disse-lhe: “Sr. Doutor, estou a pagar umas medidas muito grandes e pedia que me abatesse alguma coisa”, tendo o patrão respondido, “até à presente data já lhe abati um carro de milho”. Nesta altura o patrão foi informado da situação em causa, da qual se constatou que o feitor Sr. Lourenço não foi sério para o patrão e muito menos para o caseiro. Este homem que a fotografia documenta viveu momentos de agonia. Ele saía a porta de casa com as lágrimas a cair pelo rosto e questionava-se: “onde hei-de ir pedir dinheiro para comprar pão”. Os caseiros viviam numa angústia enorme e sem o mínimo de qualidade da vida e sempre assustados com a presença dos feitores, pelo facto de estes comunicarem aos patrões situações que não correspondiam à realidade. Continua…

Por: Manuel Sousa

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