Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-08-2009

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO NÃO MEXE

Por: Adriano Tormentelo
(cont. 18)

O regresso ao quartel, novamente em marcha e ao toque de caixa, iniciou-se às dez horas com o arranque da primeira companhia, a segunda avançou às dez e meia e a terceira iniciou a marcha quando eram onze horas.
A distância era relativamente curta, aliás, era exactamente a mesma que fora feita, na terça-feira anterior, no sentido inverso, cerca de quatro quilómetros, pelo que, ao meio-dia, todo o corpo de instrução tinha já transposto a porta de armas e se encontrava formado, na parada, voltado para o edifício do comando. Foi dada ordem para destroçar, e o almoço, no refeitório, teve lugar ao meio-dia e meia hora.

***

A semana de campo era, sempre, o penúltimo acto de qualquer escola de recrutas, e este acabava de ficar concluído, sexta-feira, dia 24 de Junho de 1966.
Agora seguir-se-ia o juramento de bandeira, que era aquele dia de grande solenidade, e não menos maior significado, na vida de qualquer militar. Seria no início da semana seguinte, dia 28 de Junho.
Entretanto, no dia anterior, segunda-feira, procedeu-se à troca de todo o fardamento exterior exceptuando o capote. Não foram trocadas quaisquer peças como cuecas, meias ou lenços que, como facilmente se depreende, eram peças miúdas e de interior, nem o capote. No que respeita às fardas propriamente ditas, trocou-se a farda número dois, a farda de trabalho, e a farda número um, a farda de cerimónia e de saída.
Esta formalidade é aqui descrita com o detalhe que merece por ser a primeira vez que tal se verificava. O exército português, em termos de fardamento, encontrava-se em fase de renovação, e este terá sido o último corpo de instruendos que fizera a recruta usando aquela farda, de cor acinzentada, que se via em filmes que remontavam aos períodos das primeira e segunda guerras mundiais e de todas as campanhas de África e da Índia.
A partir de Junho de 1966 passou a usar-se fardamento de tecido mais fino e de cor predominantemente verde. O velhíssimo bivaque, vulgarmente conhecido por (“cona” de égua), foi substituído por uma boina de cor castanha no que respeita à farda número um, a farda de saída, e por um quico no que respeita à farda número dois, a farda de trabalho. O quico era verde como todas as peças de qualquer das duas indumentárias, tinha uma pequena pala para proteger os olhos dos raios solares, e da parte de trás tinha duas pequenas excrescências, fazendo lembrar a parte traseira de um grilo. Aquelas duas excrescências podiam voltar-se para o lado de dentro ficando ocultas, ou para cima dando a ideia de um qualquer adorno de arrebite. A única excepção, no que respeitava ao colorido, era a boina de saída, que era de cor castanha e tinha duas fitas finas, que caíam para o lado da nuca, uma de cor verde e outra de cor vermelha.
Para além da troca de fardamento, que se verificou durante a manhã, este dia que antecedeu o do juramento de bandeira foi ainda utilizado, da parte da tarde, para os dois Cabos Milicianos e o Aspirante transmitirem as últimas instruções quanto à forma e ao modo do juramento de bandeira. Já toda a gente conhecia os toques da praxe, como fossem os toques de sentido, de ombro armas e apresentar armas. Na cerimónia do juramento de bandeira ninguém daria qualquer voz de comando em termos orais, tudo seria executado ao toque de corneta e/ou da fanfarra do regimento.
O Cabo Miliciano Peixoto não perdeu a oportunidade de contar, um pouco em privado, a um grupo restrito de instruendos, uma pequena história que se passara nos momentos preliminares do juramento de bandeira da recruta imediatamente anterior, que tinha ocorrido em Abril. Foi que, quando o Comandante da Companhia passava revista ao seu pelotão, um soldado que estava em sentido se mexeu à sua passagem, o Capitão voltou atrás, colocou-lhe a mão direita por baixo do queixo e lhe disse: «quando está em sentido não mexe, nem que lhe passem com um “caralho” pelas ventas, ouviu?».

Chegou, finalmente, o dia 28 de Junho de 1966. As três companhias, com os seus dezoito pelotões, preenchiam a quase totalidade do amplo espaço da parada. Tudo voltado para o edifício do comando. O comandante da unidade, o Coronel de Infantaria Carlos José Vences e Costa, acompanhado por todos os oficiais que não fossem comandantes de companhia ou dos pelotões de instrução, já que estes enquadravam os respectivos corpos, todos trajando as fardas de cerimónia, num palanque instalado junto à saída do edifício do comando, deu início à cerimónia do juramento.
Havia, em toda a extensão dos arruamentos laterais à parada, algumas centenas de populares, na sua maioria familiares dos recrutas, mas também pessoas que se deslocaram ao evento por mera curiosidade. O juramento de bandeira era um acto aberto ao público em geral.
A cerimónia iniciou-se, às dez horas, com a celebração de uma missa campal pelo padre capelão da unidade. A celebração da missa demorou cerca de uma hora. O Capelão fez a homilia da praxe, exaltando os valores da instituição militar e a missão nobre de todos os soldados, filhos da pátria, que têm a obrigação suprema de defendê-la até à derradeira gota de sangue.
Finda a missa, passou-se à cerimónia protocolar do juramento. Este constava de fórmulas próprias, que eram proferidas por um locutor, através da instalação sonora e repetidas por toda a formatura, que se encontrava na posição de ombro armas, segurando a mauser, com a palma da mão esquerda a tocar na base da coronha, e o braço direito bem estendido, para a frente, à altura do ombro, com a palma da mão voltada para o solo.
Da fórmula do juramento faziam parte frases como: «juro, jurarei, que pela pátria meu sangue derramarei», e «juro, jurarei, que às ordens dos meus superiores nunca faltarei».
Muito em surdina, havia quem dissesse: «juro, jurarei, que ao rancho e ao pré nunca faltarei». Bom, neste particular, haveria que ter muito cuidado, e, estamos seguramente convencidos de que, quanto a esta especial fórmula, ninguém terá arriscado a brincadeira. Isso ficaria para o exterior do quartel, em locais e momentos em que não se adivinhasse a presença de um qualquer “bufo” por perto.
A cerimónia terminou, quando era meio-dia e meia hora, com desfile geral em volta do quartel, ao toque da fanfarra que seguia na frente. Findo o desfile, foi dada ordem para destroçar e, neste dia, não houve formatura para o almoço. Só almoçou no refeitório quem quis, já que uma boa parte dos recrutas tinha ali familiares que foram assistir à cerimónia e levaram farnel para confraternizar. Porém, para aqueles que almoçaram no refeitório, havia rancho melhorado e vinho.
O Zé Capelo foi um dos muitos que não tiveram a visita de qualquer familiar, pelo que almoçou no refeitório e utilizou o resto da tarde para, estendido em cima da cama, descansar. Duas horas e meia em formatura, durante toda a manhã, tinham sido motivo bem suficiente para que qualquer um se sentisse seguramente cansado.
Não seríamos de todo exactos, se não fizéssemos aqui uma ligeira referência ao enorme sacrifício que o nosso recruta fez ao longo destes dois meses. Como se sabe, ele era muito franzino de físico, as botas eram demasiado pesadas e a arma, a mauser, também. No decurso de alguns dos crosses, que ao longo de toda a recruta foram feitos, teve que se atrelar, isto é, apoiar a sua mão direita no ombro do camarada do lado, algumas vezes foi o Zorrinho, para não se ver obrigado a ficar para trás e sofrer as consequências.
Naquela tarde, depois do juramento de bandeira, quando estava estendido na cama, meditou em todo o sacrifício passado e na bondade do Zorrinho que, uma vez ou outra, lhe dera “cambão”. Porém, estava radiante de alegria, tinha ultrapassado mais um obstáculo, e estava ali para seguir em frente, rumo a uma especialidade, que era agora a próxima incógnita e motivo de grande expectativa.

FIM

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.