Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-08-2009

SECÇÃO: Opinião

BRINCADEIRAS DO MEU TEMPO

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Estamos em plena era das novas tecnologias. Com-parativamente as crianças d’agora penso que são mais felizes que as crianças do meu tempo… Como não havia Magalhães, TM, Mp3, consolas e outras modernices nós tínhamos que inventar as nossas próprias brincadeiras já que não havia dinheiro para comprar o que quer que fosse.
Revisitando o passado e se bem me lembro as crianças da minha geração não tinham acesso a dinheiro para comprar brinquedos mas nem por isso deixávamos de fazer as nossas brincadeiras, pois tudo que é pequeno gosta de brincar e nós como as crianças em qualquer parte do mundo não fugíamos à regra.
Um dos jogos mais populares entre nós era o jogo do botão, só que o difícil por vezes era conseguir botões, embora a loja do sr. Magalhães os tivesse à venda, então visitávamos a caixinha da costura das nossas irmãs ou mães e sorripavamos os botões que lá houvese, andávamos também pelas hortas à procura de espantalhos nas ervilhas para lhes tirar os botões das fardetas sem que o lavrador desse por isso…
Os jogos eram normalmente feitos no recreio da escola ou então no adro da Igreja em dias de catequese. Era nessa altura Pároco da freguesia de Cavez o saudoso Arcipreste Barreto que era muito amigo da canalhada e quando nos via em grupo prontos para jogar o botão, perguntava; posso jogar também?... pode sim sr. Abade… quem me empresta um botão?... eu, eu, respondiam alguns e o jogo começava, só que o sr. Abade tinha um palmo muito grande em relação a nós facilmente nos ganhava e pouco tempo depois já tinha a mão cheia de botões. Tu aí porque não jogas? … já não tenho botões sr. Abade, toma lá um e tu toma lá outro e o jogo prosseguia com todos os intervenientes. No final restituía os botões a cada um de nós e lá íamos de volta a casa todos contentes até ao próximo jogo.
Outro dos jogos em que o sr. Abade tomava parte era no jogo da bola quando este era feito no largo exterior em frente à Igreja. Como não havia bolas de capão as que nos serviam para jogar eram feitas de meias de vidro que roubávamos às nossas irmãs eram cheias com farrapos bem atacados dávamos um nó na extremidade fazendo o chamado cú de galinha e toca a jogar quando havia chancas toca a tirá-las fora para não as estragar e toda a rapaziada jogava descalço e era por isso que andávamos sempre com os dedos dos pés esmurrados, mas o sr. Abade jogava de sapatos calçados. O pior era quando a bola estava molhada tornava-se muito pesada e fazia doer os pés e como a bola por ser de pano rompia-se facilmente, havia que roubar mais meias e farrapos para fazer outra bola.
Quando o jogo era feito no largo do Souto às vezes tínhamos como parceiros os meninos da casa do Souto que de meninos não tinham nada porque tinham grande corpanzil e quando se encostavam a nós era cambalhota certa pelo chão fora… Obviamente que me refiro ao Dr. Nuno Vasconcelos da casa do Souto e ao seu irmão Jorge, infelizmente já falecido. Recordo ainda alguns companheiros de brincadeiras como o António Taralhão, o Mário Rino que nesta altura se encontra muito doente, o Ernesto Magalhães já falecido, o Toninho da Idalina também já falecido e muitos outros que de momento não me recordo.
Acontece que às vezes lá nos travávamos de razões e as brincadeiras acabavam em lutas, só que as nossas lutas eram cavalheirescas e quase nunca ninguém saía beliscado da contenda. Então era assim; os dois adversários colocavam-se a frente-a-frente dizendo um para o outro, começa tu e o outro respondia começa tu, até que às tantas lá se engalfinhavam sem dar murros nem pontapés era uma espécie de Judo onde era mais usada a tracção braçal. Um traçava o outro com os braços e tentava atirá-lo ao chão à força de braços traçando-lhe a perna, isso de traçar a perna era o mesmo que passar uma rasteira, quando um deles caía ao chão a luta acabava, mas se o vencido tinha mau perder fartava-se de fazer ameaças que não davam em nada.
Eram lindas as brincadeiras do meu tempo, não havia nada de sofisticado, as crianças eram mais obedientes e ingénuas e para além das suas traquinices, ajudavam muito os seus pais em tudo o que era preciso.
(Continua)

Por: Alexandre Teixeira

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