Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-07-2009

SECÇÃO: Opinião

A POBREZA NO PAÍS E NO MUNDO (II)

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Quando uma pessoa idosa não pudesse trabalhar era colocada numa cama, com o colchão de palha de centeio, mais conhecido por colmo de centeio e aqui morria sem qualquer assistência médica e na sua maioria à fome.
Dando continuidade a este tema, parece que quanto mais falo da pobreza, mais miséria me vem à memória para descrever. Assim sendo, saliento a fotografia do carro de bois tirada no início da década de 70 do século passado, pelo facto de ser o único meio de transporte que existia para a agricultura, mas também foi utilizado por diversas vezes no transporte de doentes e senhoras grávidas ao hospital velho situado no alto das Acácias e mais tarde também ao hospital professor Júlio Henriques e em último recurso à residência do Sr. Doutor Francisco, único clínico Cabeceirense que existia no concelho de Cabeceiras de Basto, nas décadas de 50 e 60, também do século passado.
O primeiro táxi que eu conheci, era um Citroen de cabine alta, cujas rodas eram suportadas por aros, equiparadas a rodas de uma bicicleta. O seu proprietário chamava-se Ricardo, apelidado de “O Papo Verde”. Este táxi não podia deslocar-se à maioria dos lugares do concelho de Cabeceiras de Basto, porque só existiam caminhos e carreiros com o piso em terra batida e muito irregulares, razão pela qual o único recurso de transporte era o referido carro de bois.
Nas margens do rio Peio, o qual atravessa o concelho de Cabeceiras de Basto, na freguesia de Refojos, desde o lugar das Pondres ao Bau, conheci dez moinhos e todos efectuavam moagens de milho, trigo e centeio, para sobrevivência dos seus proprietários e também para os pobres poderem cozer o pão para sua alimentação. Para transporte destes cereais eram utilizados os jumentos, até estes animais eram escravos. Os moinhos em referência eram movidos pela água que corria pelas levadas paralelas ao mencionado rio. Hoje nenhuma labora, apenas se vislumbra mato e silvas. Conheci todos os moageiros daquele tempo, mas por ironia do destino, só existe um sobrevivente o qual já conta 90 anos de idade.
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Naquelas décadas, quando uma pessoa idosa não pudesse trabalhar, era colocada numa cama, com o colchão de palha de centeio, mais conhecido por colmo de centeio e ali morria sem qualquer assistência médica e na sua maioria à fome. Não me lembro da idade precisa, mas não tinha mais de 12 anos de idade, quando o meu pai me levou ao concelho de Celorico de Basto, extrair um dente, pois no concelho Cabeceirense não havia nenhum clínico desta especialidade. Para além da dor e do sofrimento, fomos e voltámos a pé. Apesar de haver transporte no Arco de Baúlhe, não havia dinheiro para adquirir bilhete. Perante tais situações, é difícil esquecer o passado, um passado triste e de angústia enorme, um passado de uma pobreza desumana, sem o mínimo de qualidade de vida, uma pobreza cruel.
Ao escrever este texto, vem-me à memória a imagem da fome que afectou a continente Africano em meados dos anos 80, também do século passado. É difícil esquecer as imagens de milhares de etíopes com corpos esqueléticos, quase cadavéricos. Imagens que correram o mundo desencadeando uma onda de solidariedade sem precedentes. As crises vão e voltam, mas nunca pensei que, em menos de três décadas, o mundo pudesse voltar a estar numa crise alimentar de maiores proporções. Uma crise que apanhou todo o mundo, aparentemente desprevenido.
Para finalizar, deixo bem esclarecido muita miséria do passado, mas nos dias de hoje também é chocante ver pessoas a ganhar milhões e muitas famílias a passar fome, outros a pedir ajuda para pagar a prestação da casa, mas a situação mais grave vai para os idosos que não têm dinheiro para adquirir medicamentos. Vivemos num mundo aberto onde tudo é permitido, onde as feridas do passado voltam a ser recordadas em pleno século XXI.

Por: Manuel Sousa

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