Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-07-2009

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO, NÃO MEXE

Por: Adriano Tormentelo
(cont. 17)
O furto a que aqui nos referimos não tinha qualquer intenção maliciosa, destinava-se tão-só a apurar o sentido de responsabilidade de homens que estavam a ser preparados para a guerra. De qualquer modo, só Deus poderá avaliar da aflição que um qualquer recruta experimenta quando, num acampamento, se dá conta que a sua arma desapareceu.
Fazia parte do programa das primeiras noções teóricas de comportamento e responsabilidade dos militares que, o abandono da arma, fosse qual fosse a circunstância, era punido com presídio militar. Os presídios militares chamavam-se “Fortes” e ouvia-se falar do que era a vida de um presidiário em “fortes” como o de Elvas, por exemplo.
Durante as três noites passadas no acampamento sempre houve exercícios nocturnos. Uns mais difíceis, outros nem por isso. A primeira noite foi pelas onze horas, a segunda noite foi às duas da madrugada e na terceira foi quando eram quatro da manhã, era quase dia. Sempre em silêncio, os Cabos Milicianos e o Aspirante passavam pelas vinte e cinco tendas do quinto pelotão e, dando um toque com a coronha da sua arma nas botas dos recrutas, que estavam estendidos no chão duro, diziam:
- Meus Senhores, dois minutos para estarem ali, “naquele ponto”.
Aquele ponto, ou era um rochedo que se via melhor, ou um pinheiro mais alto que fazia lembrar um fantasma, ou outra coisa qualquer. Na última noite, já se via bem a estrela da manhã, e o ponto foi exactamente o pinheiro que alinhava, na vertical, com aquela estrela.
Nas duas primeiras noites tratou-se apenas de dois pequenos passeios por entre tojos, giestas e pinheiros grandes e pequenos. Na terceira noite é que foi mais longo. Estava planeado o regresso já com a luz do dia, e a progressão dirigiu-se até muito próximo das margens do rio Corgo.
Nesta última digressão, quando tinham andado uns dois quilómetros entre penedos e arbustos, o Zorrinho estatelou-se num barranco. Era uma espécie de mina de água, que tinha sido iniciada, mas não tinha prosseguido o rompimento por debaixo do solo. A ravina tinha cerca de dois metros de altura, e o rapaz ficou entalado, lá no fundo, e ainda estava escuro. Os dois camaradas mais próximos, que eram os da sua tenda, ou seja, o Pereira de Sousa e o José Capelo, socorreram-no de imediato, puxando-o, um por cada braço, cá para fora da “trincheira”.
Porém, numa das paredes da ravina havia uma saliência de pedra viva, que lhe passou na calça da perna direita e lhe fez um corte de mais de dois palmos, de alto a baixo, sendo um palmo acima do joelho e outro palmo abaixo daquele sítio. Felizmente que não rasgou na parte mais ao fundo, exactamente por ali estar protegida pelo cano alto da bota. Foi uma lição que tiraram de imediato, quanto ao interesse prático de as botas da tropa terem aquela espécie de polaina fixa, com cerca quinze centímetros, e que se apertava com dois trechos de correia e respectivas fivelas.
Tentaram remediar o rasgão das calças. Estava-se em campanha, nenhum dos três trazia qualquer agulha, qualquer pedaço de linha, ou mesmo um alfinete. O Zé Capelo trazia sempre consigo um pequeno canivete, que tinha comprado na feira do S. Miguel, e usava para aparar as unhas.
À entrada da obra inacabada da mina, e por ser sítio húmido, crescia uma touça de arbustos de zangrinheiro (mais conhecido nesta região por “zangarinho”). As vergas tenras de zangrinheiro são muito usadas no fabrico de cestaria, e o Zé alvitrou de imediato:
- Sossega amigo Zorrinho, que eu tenho aqui este canivete e temos ali aquela touça de varas de “zangarinho” e o problema resolve-se já. Faz-se quatro ou cinco furos com a ponta do canivete em cada um dos lados do rasgão, corta-se uma varinha das mais finas aqui do “zangarinho” e entrelaça-se, como quem faz uma trança, ides ver que resulta.
Assim fizeram. Em cinco minutos estava o homem resgatado da ravina, e o rasgão da calça suturado. O grosso do pelotão já ia lá à frente, mas ainda se ouvia o tropel. De meia dúzia de saltos os três aproximaram-se do grupo. Entretanto o Pereira de Sousa comentou:
- Acabámos de passar por uma situação algo complicada, mas até nos saímos bem e com uma rapidez difícil de imaginar.
Ao que o Zé Capelo respondeu:
- Até parece que já estamos no interior de uma qualquer floresta do norte de Angola, ou do norte de Moçambique, e a resolver problemas de costura recorrendo a folhas de capim…
O Zorrinho concluiu:
- Estou-vos francamente grato. Muito provavelmente não nos iremos encontrar, os três, num qualquer local de uma das províncias ultramarinas, para onde poderemos seguir, mas a verdade é que, por cem anos que possa vir a viver, nunca mais me esquecerei deste pequeno episódio. Se não tivesse sido a vossa pronta ajuda, ficaria ali, sozinho, perder-me-ia do pelotão e não escapava a uma valente “porrada” – o termo “porrada” era muito usado na gíria militar e significava castigo ou sanção disciplinar.
A chegada ao acampamento, no fim deste último exercício nocturno, verificou-se por volta das oito horas. Foi servido o pequeno-almoço, nos mesmos moldes em que o fora ao longo daqueles três dias. O copo de inox, que fazia parte do equipamento de cada um, na mão, passava-se em fila junto ao caldeirão, que estava em cima de um pequeno atrelado militar, e um soldado cozinheiro enchia-o, utilizando uma concha igualmente de inox. Um pouco mais à frente, e sempre em fila, recebia-se meio “casqueiro”, que era distribuído por outro soldado, que o tirava de um saco muito grande, tipo saco do padeiro, que estava cheio de metades de pães de “casqueiro” em cima de um outro atrelado militar.

(continua)

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