Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-07-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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Maria Moisés (I)

Em 1876 Camilo escreveu uma pequena novela cuja heroína ostenta o nome de Maria Moisés, nome com que crismou a dita novela e cuja acção se passa na pequena freguesia de Santo Aleixo D’Além Tâmega, concelho de Ribeira de Pena, toda ela situada na margem direita do rio Tâmega, enfaixada entre este e o truteiro Rio Beça que a separa, a poente, das terras serranas do vizinho concelho de Cabeceiras. Mas é o Tâmega o fulcro de toda a trama romanesca, sendo amplamente conhecida a Ínsua chamada de Ilha dos Amores, fofo areal cheio dum ervaçal muito verde, coberto de um bosque de choupos cujas ramagens esconderam – e ainda esconderão – muitas cenas de amor. As ourelas do rio são semeadas de salgueirais cujas franjas se agitam com a corrente do rio, onde “coaxavam as rãs, e às vezes um escalo de ventre prateado saltava à flor d’água”. Camilo viveu cerca de três anos na margem esquerda do Tâmega, no pequeno lugar de Friume e muitas vezes se deslocou a Santo Aleixo, passando o rio pelas “poldras do Aleixo” ou utilizando as barcas “impulsionadas à vara, à força de pulso” e refugiado entre as ramagens da Ilha dos Amores. O rio ainda é hoje o do tempo de Camilo. “ E essa mesma perenidade, ao ver correr as águas do rio, volta e meia adoçadas por amenas enseadas que convidam ao repouso e que ainda se parecem tanto com o que Camilo descreveu, nos dá vontade de perguntar: qual destes foi o salgueiro onde Josefa se agarrou quando a torrente das águas se preparava para a levar rio abaixo? Qual destas era a ínsua dos amores do morgado da Casa de Cimo de Vila e da filha de João da Lage, que era “vesgo, cambado, lanzudo e bêbado”. E as nossas passadas querem atravessar as poldras como os dois amantes tantas vezes fizeram para se encontrarem, protegidos pelo folhedo que apenas os traiu no Outono. E queremos saber qual destas casas solarengas pintava Camilo de memória quando descreveu “a casa nobre onde os fidalgos de Santa Eulália costumavam passar o estio para se banharem no Tâmega”. E se os biógrafos e estudiosos camilianos ainda não conseguiram identificar a quinta e Casa de Santa Eulália numa freguesia que é um ninho de casas senhoriais, cheias de passado e tradições, as outras que o romancista cita são bem conhecidas: a Casa de Cimo de Vila da família do morgado António Queirós de Meneses, sedutor de Josefa da Lage, a Casa da Temporã do amigo Fernando Penha, que prepara a fuga da filha do moleiro para a Casa do Enxertado, ainda hoje fidalga e firme.
É na Ínsua que, ao começo duma noite de Agosto, um pescador de chumbeira, caseiro da quinta de Santa Eulália, que duas horas antes ajudara a retirar uma suicida do rio, “ouviu no recanto escuro ou angrazinha da corrente, que espraiava para dentro de um algar, o choro abafado de uma criança”. Encontrou um berço que se quedara “enleado na romagem de um salgueiro vergado pelo peso de uma rede ou pardelho”. Francisco Bragadas encontrou dentro da canastrinha um bebé com poucas horas de vida. “ - Oh! Pobre menino! Atiraram-te ao rio! Ainda eu mais verei neste mundo?” E, apalpando-lhe o corpo por baixo do saiote, disse maravilhado: “ - E nem sequer está húmido! Isto é milagre!”. Pegou no berço debaixo do braço e levou-o para casa. Entregou-o à mulher, mãe de onze filhos, que “sentada à porta da cozinha, embalava uma filha com o pé, enquanto amamentava a mais nova”. A mulher verificou: “É uma menina e ainda não tem cortada a envide”. Então “o caseiro atravessou um campo de hortas e pomares na extrema do qual estava a casa nobre, onde os fidalgos de Santa Eulália costumavam passar o estio para se banharem no Tâmega”. Estamos assim na Casa de Santa Eulália , família do Arco de Baúlhe, gente nobre e antiga, formada pelo Dr. Teotónio de Valladares, solteiro, que vivia com suas irmãs D. Maria Tibúrcia e D. Maria Filipa, também solteiras, mas castas, o que não era o caso do dono da Casa, “ e isso não era pequeno desgosto para elas. O mano doutor tinha servido lugares de magistratura, desde juiz de fora até corregedor em várias comarcas. Umas filhas eram freiras franciscanas, outras eram mães; alguns filhos seguiam as letras, outros as armas: tinha filhos para todos os ofícios e artes”. Estão reunidos na sala com um hóspede costumeiro, “o Cónego de Braga, João Correia Botelho”, com quem o doutor tinha discussões filosóficas, teológicas e bíblicas.
“Quando o caseiro, a deitar os bofes pela boca, apareceu a dar notícia do achado da criança no Tâmega, estavam as senhoras e mais o cónego e o irmão a jogar à sueca. Largaram as cartas a um tempo. […] D. Maria Tibúrcia disse ao ouvido de D. Maria Filipa:
- Olha que isto é marosca, mana!...
- Marosca?
- Sim. Deixemo-nos de tretas… A criança é filha do mano Teotónio.
- Credo! Tu que dizes, mana Tibúrcia? O mano doutor não mandava atirar ao rio a criança…
- Isso sei eu; mas arranjava esta comédia com o caseiro. O Bragadas vem ensaiado por ele, e talvez pelo cónego.
- Eu sei! – duvidou a outra. – O mano Teotónio não precisava de estar com estas endróminas… E quem há-de ser a mãe?
- É necessário – disse o cónego Botelho – baptizar a criança amanhã, que não vá ela morrer, que é o mais natural. Madrinha há-de ser uma de vossas senhorias, minhas senhoras; padrinho há-de ser o sr. desembargador”.
Dr. Teotónio aceita ser o padrinho e resolvem que as duas senhoras sejam as madrinhas. Mais difícil vai ser escolher o nome da menina. O cónego põe todo o seu entusiasmo na história bíblica do profeta Moisés, lançado ao rio Nilo e salvo pela filha do faraó do Egipto. É assim ele que consegue que todos consintam em batpizar a menina com o nome de Maria Moisés. Resolvem tomar conta da criança já que Francisco Bragadas, o caseiro, já tinha em casa onze filhos. E marca-se o baptizado para o dia seguinte na igreja da paróquia de São Salvador de Ribeira de Pena.
“Quando os sinos de S. Salvador festejavam com três repiques o baptizado de Maria Moisés, os sinos de Santo Aleixo dobravam a finados. A criança saía da pia baptismal, ao mesmo tempo que o esquife […], posto no lajedo da igreja, entre quatro círios, era responsado por alguns clérigos que franziam os narizes ofendidos dos miasmas da carne podre. A opinião dos padres e dos assistentes ao ofício era que a suicida praticara aquele crime porque devia ter chagas de lepra que a corroíam. O vigário consentia que a enterrassem em sagrado, porque a moribunda, segundo o testemunho do moleiro, pedira fervorosamente a confissão”.
Quem ia a enterrar era Josefa da Lage, filha de João da Lage. Os leitores já adivinharam, certamente, que Josefa era a mãe da criança que agora vem de Salvador, toda enfeitada com o nome de Maria Moisés. Mas ninguém sabe disso e só, muitos anos depois, um padre o vai revelar… ao pai da criança.


(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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