Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-06-2009

SECÇÃO: Recordar é viver

Cabeceiras de Basto na obra de Camilo Castelo Branco (9)

foto
De Camilo Castelo Branco
Com a devida vénia
O FILHO NATURAL

– E ao mesmo tempo, Ex.mo Senhor, na minha passagem para o Rio de Janeiro, onde resido, tenho a honra de deixar o meu nome lembrado a V. Ex.a, para que, se um dia se abrirem estradas em Basto, V. Ex.a me considere tributário de 12 contos de réis para esse grande impulso civilizador.
– Oh! – exclamou o deputado. – É mui louvável patriotismo! Aperto-lhe a mão de patrício, e lamento que Portugal esteja tão escasso de homens da sua têmpera. Donde é?
– Fui criado em Pedraça, sr. visconde, sou afilhado do sr. frei Álvaro.
– Ah!... do abade... Como passa ele?
– Robusto ainda com os seus 64. Recordo-me de ver a V. Ex.a, quando em menino estudava lógica com meu padrinho.
– Sim?
– Perfeitamente me recordo; e V. Ex.a talvez se lembre de um rapazito que lá chamavam o Enjeitado...
– Tenho uma ideia de um pequeno que subia às cerdeiras e nos deitava cerejas...
– Era eu.
foto
– O senhor?... Então enriqueceu? Muito folgo... E este menino é seu filho?
– Não, senhor – respondeu Álvaro a meia voz. – Este menino é filho de V. Ex.a.
O visconde fez dois gestos indecisos entre a surpresa desagradável e o receio de que os lacaios escutassem.
– Vai comigo para o Rio – prosseguiu o brasileiro – e, como a morte por lá é mais frequente, não quis eu que ele, tendo de morrer na flor dos anos, fosse deste mundo sem conhecer seu pai. Eu aprecio muito este lance, porque fui enjeitado.
O menino fitava como assustado o rosto do visconde, que também o encarava atentamente.
Neste ponto, vinha descendo a viscondessa com três meninas, clamando com vozes argentinas que retiniam na amplidão do pátio:
– Ainda aí estás, Vasco? Leva-nos contigo até ao Chiado.
– Sim, filha – disse o marido; e, voltando-se para o brasileiro: – Procure-me em ocasião mais oportuna.
– Sr. visconde, recebo as suas ordens agora – disse Álvaro, recuando com o menino pela mão. – Amanhã saímos no paquete, e não há razão para que eu torne, visto que o meu intento era implesmente cumprimentar V. Ex.a.
A viscondessa estava já ao lado do marido, olhando para o pequeno, quando Álvaro se despediu cortejando-a.
– Quem é? – perguntou ela.
– Um brasileiro de Basto.
– O pequeno é galante. Parece-se com o nosso Heitor. Não achas?
– Não reparei.
Daí a minutos, dizia-lhe Leonor:
– Vais tão calado e triste! Que tens tu, Vasco?
– Que hei-de eu ter, filha?... É o demónio da política...
– Estavas tão alegre ao almoço... Ah! uma cousa... Dá-se baile nos anos da Piedade?
– Responderei à tarde. Ainda não sei se o Banco de Portugal me reforma a letra dos cinco contos...
– Mas eu já escolhi o meu vestido e os das pequenas.
– Se escolheste os vestidos, nem por isso é obrigatório o baile.
– Sim... – redarguiu a viscondessa com disfarçado despeito. – Em todo o caso, não digo nada, por enquanto, à prima Penafiel, nem à prima Ponte que mandaram saber...
– Sim, não digas nada.
– Mas é esquisito...
– O que é esquisito, Leonor?
– Que se falasse nisto na soirée do primo Fronteira...
– Quem falou não fui eu.
– Consultei-te primeiro.
– Em suma, Leonor – concluiu o visconde com desabrimento –, pela vigésima vez te anuncio que estou mal de fortuna, que, em vendendo cinco quintas que me restam, a casa de teu pai volve à miséria antiga.
– À miséria! Essa é boa! Eu nunca soube o que era miséria... Que delicadeza tão provinciana!... Pára! – bradou ela ao trintanário, à entrada da rua do Ouro, e saltou do coupé com as filhas.
A mais velha, Maria da Piedade, perguntava baixinho à mãe:
– Ó mamã, o papá disse que nós estávamos na miséria?
– Não, tola.

*
 
Quem vira Leonor de Mascarenhas, no solitário e caduco palácio de Andaluz, dez anos antes, modesta, paciente, sem invejas, escusando-se com os achaques do pai, quando a convidavam para a sala ou para o camarote; disfarçando com o amor filial a míngua do vestido, do chapéu e dos somenos atavios que as filhas das criadas de seus avós esperdiçavam; – quem prediria então que aquele anjo meigo do lar, assim que respirasse o esbraseado ambiente das salas, queimaria as asas, e em vez delas se faria uns voadouros de brilhantes farrapos para esvoaçar-se ao ponto culminante da elegância, do fino gosto, da bela extravagância, do renome de figurino?
Nos primeiros anos era o marido que a instigava envaidecido da primazia que os localistas lhe decretavam, especialmente o Agapito; depois eram as amigas invejosas que a rivalizavam apanhando de salto o segredo das modistas mais a ponto informadas do último baile do Louvre; por fim, quando Vasco Pereira cheio de melindres lhe disse a medo que os filhos eram já muitos e os rendimentos desfalcados com a exorbitância do luxo, Leonor já não podia entregar-se vencida às suas competidoras, e consentir que a modista divulgasse que a rainha dos bailes abdicara por falta de quatrocentas libras anuais em que o seu reino estava tributado no balcão da suserana Lavaillant.
No transcurso de dez anos, a grande casa dos Marramaques adelgaçara-se por maneira que não rendia o lucro dos capitais levantados no Banco de Portugal e no Hipotecário. Os dois irmãos de Leonor exercitavam o comunismo em família, e o conde de Cabril presenteava o príncipe proscrito com os dinheiros do genro, consentindo todavia que no palácio de Andaluz se pensasse liberrimamente em política. Os filhos tresandavam a cocheira e república, prometendo esfaquearem os burgueses com veemência tal de palavras iracundas que pareciam os dois Gracos; o genro bamboava-se na redouça de todas as seitas liberais à espera de cair uma vez sobre a pasta da marinha; quanto ao conde, a Rússia movia-se, e não dizia mais nada. Estava idiota, e fazia a corte às amas de leite dos netos.
O dinheiro de Vasco Pereira cicatrizara umas úlceras e fizera repercutir outras piores. Ele, por sua parte, lançou-se no jogo como financeiro. Estreou-se com felicidade naquele sistema de suprimentos à quebra das rendas. Teve noites cheias na banca do conde de Farrobo, posto que lhe repugnasse concorrer àquela tavolagem com merceeiros e cómicos, como se no estalão das paixões infames não fossem iguais todos os homens. Depois, atraiçoado pela fortuna, passou a emparceirar-se com o marquês de Nisa, que esvaziava o estanque das torrentes de ouro que confluíram para ele, através de quatro séculos, desde Vasco da Gama; e, navegador audaz do revolto oceano dos vícios, afrontava o cabo da desesperação como seu ínclito avô o cabo da Boa-Esperança. Releve-se o gongorismo a uma justa indignação!
 
*
 
O visconde de Agilde não melhorou com o falecimento do sogro em 1868, nem com o estabelecimento dos cunhados em alquilarias e carros de transporte. Naquele ano o Banco Hipotecário absorveu-lhe três quintas nas margens do Tâmega, e reduziu-o a pouco mais de um conto de renda. Agilde era já propriedade de um brasileiro. Ele mesmo gelou de espanto quando assim, aos 44 anos de idade, se viu desvalido com seis filhos, com a importância política perdida, desacreditado em todos os grupos porque a nenhum era útil nem temível. Os seus constituintes provincianos preferiram-no – ah! crê-lo-eis, Pisões? –, preferiram-no àquele Juvenal de Cabeceiras, ao correspondente do Nacional, ao mordacíssimo informador de Álvaro, em suma ao versista que principiara a popularidade de Vasco por aqueles dois versos:
Ó bardo de Celorico,
Quem te deu tamanho bico?

A viscondessa, à volta dos quarenta anos, caiu em si, e praticou o heroísmo de vender as suas jóias para pagar dívidas ignoradas do marido. Dois filhos do visconde, Heitor e Rui, eram guardas-marinhas, devassos e caloteiros; o mais novo era pensionista no colégio militar. Havia três meninas: Maria da Piedade era a primogénita e orçava por dezasseis anos, quando o visconde deliberou transferir-se para uma quinta nos arrabaldes de Braga.
E partiram.
D. Leonor de Mascarenhas estremeceu quando por entre um carvalhal sem folha, numa tarde de vento glacial, em novembro, viu a casa expiatória onde ia amarrá-la a corrente da pobreza. Era um renque de quinze janelas de sacada com portadas vermelhas, peitoril de pau, e caixilhos de vidraças empenados pelo sol e podres da chuva. Por sobre o telhado erguia as suas ameias escuras um simulacro de torre de menagem varada por duas janelas sem portas, mas tapadas por dois molhos de palha painça, que, vistos de longe, pareciam homens de borco a precipitarem-se da torre. Estava aberto um postigo do portão de carvalho; o vento sacudia-o contra o batente, e fazia uma compassada e aspérrima toada de matraca. No grande terreiro interior corriam espirrando duas cabras espavoridas, e estacavam às vezes voltando de esconso para os desconhecidos adventícios as narinas fumegantes. Por uma cancela tosca de passagem para a quinta entrava o caseiro carregado de erva; e, vendo os patrões, atirou o molho sobre um carro com o cabeçalho ao alto, desbarretou-se, coçou-se e disse:
– Isto por aqui é novidade!
O visconde, para não desdizer da desordem dos seus hábitos, nem avisou o caseiro, nem perguntou se a casa da quinta ainda estava de pé.
Entraram na sala de espera. É como quem entrava na casa da neve das Rodas do Marão. O coração tremia de frio. As três meninas olhavam espavoridas para a mãe, aconchegando os capuzes das capas ao rosto. O vento assobiava mugidos nas cavernas dos forros; dois enormes ratos atravessaram a vasta quadra, velozes e de focinho baixo, como dois vadios de boa família que passaram a noite em orgia, e foram surpreendidos pelo sol alto. Leonor sentou-se em um escano de espaldar brasonado, e não pôde ter as lágrimas. O marido, esquivando-se àquele espectáculo, passou para o interior da casa, ao passo que o caseiro ia abrindo as janelas.
Pouco depois, chegaram alguns carros de baús e mobília, com criados, que ajuizavam assim dos domínios senhoriais do patrão:
– Que diabo de casa é esta? Aqui há lobos!
O escudeiro dizia que não matara ninguém para se sujeitar a tal degredo. A cozinheira, vendo a primeira sala, exclamou:
– O que não será a cozinha!
Esta crise foi-se modificando a pouco e pouco. Parte da casa foi reparada e confortavelmente trastejada. Uma das salas tinha um fogão antigo com colunas de bronze, mandado vir de Itália por D. José de Meneses, arcebispo de Braga. A viscondessa e as filhas passaram ali quatro meses chorando sempre as lágrimas azedas que o fumo da lenha lhes estilava dos olhos. O visconde passava os dias na cama, lendo os jornais da oposição e fumando charutos de vintém com magnânima coragem. Seis meses depois, embranquecera-lhe o bigode, refegaram-se-lhe as pálpebras, espaparam- -se-lhe os músculos faciais.
Maria da Piedade era a sua filha adorada que o acariciava e de mãos postas lhe pedia que tivesse paciência. Imaginando que o pai envelhecia e definhava na soledade do seu quarto, pediu-lhe licença para lhe comprar, com o produto das suas poucas jóias, um cavalo que o levasse a passeios.
– De que me servem estas pulseiras e estes broches que me deu a madrinha Lavradio? – dizia ela. – Manda-os vender, meu papá, e compre um cavalo. Depois, se tornar a ser rico, dê-me outras jóias, sim?
Ele estreitava-a febrilmente ao coração e murmurava:
– Como eu vos desgracei, meus queridos filhos!
Maria da Piedade ameigava-o com pueris carinhos e dizia-lhe:
– Não tenha pena de nós que ainda podemos ser muito ricos.
– De quem esperas tu a riqueza?
– A riqueza é não precisar dela, meu papá; não sei onde li isto...
 
*
 
No ano seguinte, o visconde de Agilde foi a Basto a fim de demandar uns foreiros remissos de Chaves e terras de Barroso. Raposa aos grilos.
Hospedou-se na vila do Arco, e lembrou-se que devia estar aí Tomásia, a mestra de meninas. Perguntou por ela ao seu procurador.
– Há seis anos que essa pessoa saiu de cá – esclareceu o procurador. – Não sei se V. Ex.a sabe que ela mandou o filho para o Brasil...
– Sei.
– Levou-lho o Álvaro Enjeitado, um capitalista que...
– Bem sei.
– Depois, quando o abade de Pedraça morreu, a Tomásia que era para ele como se fosse filha, apesar do que dizia o patife do boticário da Ponte de Pé – que já o levou o diabo com um tiro que lhe deu o irmão da Ruça de Gandarela, uma linda moça que o malandro seduziu...
Como lhe faltasse a respiração e a gramática, o procurador tomou fôlego, e, começando oração nova, continuou:
– A Tomásia caiu doente, esteve a tocar em tísica, veio cá o filho, levou-a consigo para o Brasil e para lá foi, vai em seis anos. Já depois que lá está, mandou uma doação da casa de Agilde a uma criada velha, e tem mandado esmolas a várias pessoas. Ouço dizer que o filho também está rico como um porco, porque é sócio do outro. É o que consta.
 
*
 Temos que acrescentar a estas informações que Álvaro Ribeiro, sócio de Álvaro Afonso da Granja, faleceu em 1869. Um dos seus legatários e testamenteiros foi o filho de Tomásia. Liquidada a parte do sócio, que avultou a duzentos contos – cifra que ninguém hoje em dia reputa riqueza – Álvaro Afonso começou a sentir a infinita tristeza da doença que fere todas as fibras e as vai matando uma a uma, minuto por minuto. Não tinha ainda vinte e dois anos. A mãe perguntava a Deus se do fundo do seu cálice de expiação havia de beber ainda a última lágrima do filho moribundo.
A medicina mandou o enfermo a ares pátrios. Era uma esperança, que se afigurou à pobre mãe remédio seguro. Em Março de 1870 desembarcaram em Lisboa. Era primavera, não a dos poetas, mas a primavera em Portugal, fria e nublosa. Álvaro Afonso tiritava e aquecia o rosto com as palmas ardentes das mãos.

Por: Fernanda Carneiro

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.