Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-06-2009

SECÇÃO: Opinião

OS RETORNADOS

foto
Vem este tema a propósito dos 35 anos passados após o 25 de Abril de 1974.
Tinha essa data histórica acontecido há uns dias quando eu cheguei ao continente depois de 20 anos de permanência em terras de Moçambique, para gozar as férias a que tinha direito e que tinham sido marcadas com a devida antecedência não se prevendo o que posteriormente veio a acontecer.
Voltei para Moçambique com a família depois das férias terminadas, mas entretanto aproxima-se a data da independência desse território e os funcionários do Estado que não quiseram assinar contratos de trabalho com a Frelimo tiveram que vir embora antes do dia da independência desse país. Foi então a partir dessa data que também eu passei a ser “Retornado” porque a palavra retornado tinha-se estendido a todo o país e assim eram tratados todos os ex-residentes das províncias ultramarinas com ou sem o intuito de ofender. Sabemos que a intenção dos esquerdelhos era mesmo ofender e provocar só que a mim não me ofendiam em coisa nenhuma porquanto a palavra retornar significa voltar ao ponto de partida.
Entretanto com o passar dos anos tudo foi esquecendo e hoje a palavra retornado quase desapareceu do nosso vocabulário. Éramos acusados de coisas que não faziam minimamente sentido, felizmente ainda havia gente que percebia que afinal os retornados eram apenas vítimas das mentiras do Estado Novo.
Portugal era como sabemos um país de grandes carências e muitos de nós tal como os judeus também tivemos a nossa diáspora ao sermos empurrados para fora da nossa terra à procura de uma vida melhor.
Importa talvez dizer o motivo porque fui parar a Moçambique essa terra tão distante. O meu pai era um dos bons pedreiros de Cavez, justou um dia uma obra lá para os lados de Cerva (Ribeira de Pena) isto há mais de setenta anos, obra essa que consistia na abertura de uma estrada de acesso às propriedades de um abastado lavrador.
Aconteceu que concluída a obra o dito lavrador ficou a dever ao meu pai a avultada quantia de doze contos, ao tempo muito dinheiro. Como forma de vingança pensou o meu pai cometer um tresloucado acto que era o de carregar cartuchos de caçadeira com sal e chumbar bem as pernas do lavrador para que ficasse marcado para toda a vida. A minha mãe que era dotada de temperamento muito generoso repudiando sempre actos de violência consegue demover o marido de tais intentos invocando sempre o nome de Deus e o amor aos três filhos já existentes.
Assim, a vida dos meus pais continuou mas de forma mais difícil porque entretanto a família foi crescendo até um total de oito filhos. Foi então que o meu pai sem condições para melhorar a vida e já com uma certa idade solicitou ao Jaiminho, filho do Barão de Refojos ao tempo a viver em Moçambique que lhe mandasse a famigerada “Carta de Chamada” e assim foi parar a essa terra distante a onde arranjou trabalho facilmente nunca esquecendo a mulher e os oito filhos para quem mandava mensalmente três contos para o seu sustento. Foi então a minha vez de ir também para África e a seguir os meus irmãos Manuel, José e António. É esta portanto a história porque vinte e três anos depois me tornei “Retornado”.
A segunda fase da história é precisamente o inverso da primeira.
Uma certa manhã ia eu começar o meu trabalho, quando fui chamado por um colega de serviço que sem ter grandes informações me disse ter havido qualquer coisa em Lisboa parecido com um golpe de estado e foi a partir dessa manhã que as coisas nunca mais foram as mesmas. Instalou-se a euforia, a desordem, as faltas ao trabalho, as borracheiras constantes e tudo o que era negativo para um território que pretendia ser Nação. As atitudes dos naturais não eram de forma alguma violentas, mas lá havia um ou outro mais atrevido enquanto que os mais esclarecidos mostravam-se cautelosos por não saber o que o futuro lhes reservava.
Então dá-se o regresso dos primeiros brancos ao país de origem e uns foram arrastando os outros até à debandada total. O pior foi que aqui no Continente tivemos que começar a vida de novo e isso não foi fácil nos primeiros anos. Então como a necessidade aguça o engenho todos se agarraram às mais variadas actividades e aos poucos lá foram refazendo as suas vidas, ao ponto de uns anos depois praticamente já não havia casos aflitivos.
Eu próprio tive dificuldades como todos os outros, até que uns anos depois fui colocado pelo Quadro Geral de Adidos na Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, com salário integralmente pago pelo referido quadro. Confesso que fui muito bem aceite por todos os funcionários e por isso nunca deixei de lhes estar grato.
Os meus filhos eram a principal preocupação porque não lhes podia dar as mordomias que tinham em África. Durante algum tempo não tiveram camas, os colchões eram colocados no soalho e só quando recebi o primeiro ordenado foi possível dar a cada um deles um bife com um ovo a cavalo. Foi uma festa!...
Tive depois outras actividades e a vida aos poucos foi-se compondo até aos dias de hoje.
Revejo de vez em quando o passado, sem ódios, sem rancor.
A vida tem destas coisas e águas passadas não movem moinhos.

Por: Alexandre Teixeira

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.