Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-06-2009

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (107)

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MANIFESTOS E BRIGADAS DE EMPATAS

Tal tem sido a proliferação de manifestos, no decurso da última meia dúzia de semanas que, estou certo, e ninguém se admire com isso, um dos próximos a sair será o manifesto das prostitutas e demais ofícios correlativos da Rua da Sancona.
Ele é, por demais evidente, que se trata de um dos grupos profissionais mais afectados pelos sucessivos atrasos que se têm vindo a verificar com o arranque das obras, tanto do novo aeroporto internacional de Lisboa, como das ligações a Madrid via TGV (Train à Grande Vitesse).
Sem qualquer dúvida que, a falta de tais estruturas integrantes de uma moderna rede de transportes, causa enormes prejuízos àquelas e àqueles profissionais, devido às dificuldades com que se deparam todos os potencias clientes que, vindos do estrangeiro, em particular de países produtores e exportadores de petróleo, se deslocam ao nosso país, à procura de profissionais, nomeadamente do sexo feminino, e, de preferência, louras.
Em presença de tantos manifestos, estão a sair à razão de um por semana, e, atendendo à categoria dos seus subscritores, economistas, empresários chamados economistas, sociólogos, politicólogos, psicólogos, que falam como economistas, até um engraxador do Barreiro e um barbeiro de Fernão Ferro, que dizem perceber de economia, todos têm feito sair os seus manifestos, eu decidi investigar um bocadinho sobre tal categoria de documentos anteriormente publicados.
Verifiquei que, ao longo da história recente, nos últimos cento e sessenta anos, têm sido publicados manifestos bem interessantes. Seleccionei apenas alguns:
O primeiro foi o manifesto comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, publicado em 1848 (21/02/1848) e que definia as bases da doutrina e do sistema comunista internacional, definia o proletariado e o que deveria ser a sua luta.
Passadas umas sete décadas, em 1915, temos o manifesto anti Dantas, da autoria de José de Almada Negreiros e fazia uma critica cerradíssima a vários aspectos da vida de Júlio Dantas, mas, muito em especial à sua prosa. Neste manifesto, Almada Negreiros escreve: «o Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever… o Dantas é um ciganão… o Dantas é horroroso… o Dantas cheira mal… morra o Dantas…morra, morra! Pim! Pam! Pum!...»
Depois, mais recentemente, passadas outras oito décadas, sai o manifesto anti Portas, da autoria do Dr. Carlos Candal, por altura das eleições legislativas de 1995. Este manifesto atacava o Dr. Paulo Portas e o Dr. Pacheco Pereira, pelo facto de serem candidatos à Assembleia da República pelo círculo eleitoral de Aveiro e não serem naturais nem residentes no distrito e, por isso, não conhecerem nada da realidade local. Carlos Candal comparou-os a aves de arribação, escrevendo: «… Não é que não goste de pássaros. Gosto. Mas detesto os cucos políticos que usurpam e se instalam à vontade nos ninhos feitos por outros companheiros (ia a escrever “camaradas”) expressão regional caída em desuso, mas recuperável…». Porém, quase ninguém terá reparado que o manifesto atacava os dois e ficou a impressão, generalizada, que o mesmo era apenas contra o Dr. Paulo Portas. Pacheco Pereira, raposa velha, tirou duplo partido da situação.
Falemos agora dos manifestos mais recentes, de todos estes que têm saído nas últimas semanas:
Primeiro, foi o manifesto dos vinte e oito, um chorrilho de frases feitas e bolorentas contra os investimentos públicos, saiu na segunda semana de Junho. Os subscritores intitulam-se de economistas, mas, uma boa parte não o é. São sujeitos bem na vida, a maioria deles já reformados e com avultadíssimas pensões, tudo à custa do erário público, que descaradamente roubam, e, muito cinicamente, dizem vir defender. Vejam-se os rendimentos de indivíduos como os Drs. José da Silva Lopes e Miguel Cadilhe.
Há um subscritor deste documento que me surpreende, refiro-me ao Prof. Dr. Daniel Bessa, é um Professor Catedrático ainda no activo, suponho, e não cabe no rol dos oportunistas das chorudas reformas, pensões e outros bónus multimilionários em que a maioria do grupo se enquadra. Muito sinceramente, admira-me que o Prof. Dr. Daniel Bessa tenha alinhado por este grupo.
O segundo, o manifesto dos cinquenta e quatro, saiu na quarta semana de Junho, subscrito não apenas por economistas, ou chamados economistas, mas por um amplo leque de profissionais, economistas, engenheiros, sociólogos, geógrafos, professores universitários, historiadores, psicólogos e outros, se os jornais não me enganam, subscrevem este documento intelectuais como Francisco Louçã e Garcia Pereira.
Estes, todos os cinquenta e quatro, são de opinião de que o investimento público é fundamental em tempo de crise e que as grandes obras, como o novo aeroporto e o TGV, deverão avançar sem demora.
Mas, já nesta semana, estou a escrever estas linhas no dia quatro de Julho (este é um dia muito especial – lembrem-se: “nascido a quatro de Julho”), eis que surge um terceiro manifesto, o manifesto dos trinta e um. O título do jornal “O Público” é o seguinte: «Manifesto de 31 economistas e empresários diz que parar obras públicas é hipotecar o futuro».
Sobre tudo isto, não tenho mais nada a acrescentar. Apenas recordo que, tal como a muitas outras pessoas, cujos comentários já tive ocasião de ler, o primeiro dos manifestos da segunda geração acabado de referir, em particular o conjunto dos seus subscritores, me fazem lembrar a célebre brigada do reumático.
Brigada do reumático foi o nome atribuído a um grupo de oficiais generais, também eles quase todos caquécticos, que se reuniu para prestar apoio e desagravo ao regime do Estado Novo, na pessoa do Prof. Marcello Caetano, e que agonizava na sequência da publicação do livro, Portugal e o Futuro, da autoria do General António de Spínola. O livro saíra a vinte e dois de Fevereiro de 1974.

Por: José Costa Oliveira

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