Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-06-2009

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO NÃO MEXE

Por: Adriano Tormentelo
(cont. 16)
Pelo caminho, de regresso ao quartel, o Silvestre confidenciou: «amigo Capelo, um homem deve trazer sempre um bolso das calças furado, e, de preferência, o bolso do lado esquerdo, quanto às razões, espero que não sejas burro de todo e as descubras por tua própria conta». O Zé ficou ciente.
Não chegaram a registar qualquer tipo de informação sobre os nomes, ou as classificações dos participantes, em cada uma das provas automobilísticas. Ficaram demasiadamente distantes do local onde poderiam ter visto os painéis informativos, com dados relativos a concorrentes e tempos conseguidos, em cada uma das mangas. Também não era coisa que, sobremaneira, lhes interessasse.
O objectivo de ambos era o de presenciar umas boas derrapagens, à entrada e à saída de duas das mais características curvas do circuito e, acima de tudo, a hipótese de travar conhecimento com uma ou outra rapariga, que por ali se encontrasse.
Como acaba de ficar demonstrado, qualquer das expectativas foi, com razoável grau de satisfação, conseguida.

***
A semana de campo, ou de monte, como também se chamava, era aquela semana de final do período de instrução e que antecedia a data do juramento de bandeira. Toda a escola de recrutas, que o mesmo é dizer todo o regimento, excluindo apenas o pessoal da companhia de comando e serviços, era deslocado para o exterior do quartel, para um local a que se dava o nome de acampamento.
Os acampamentos do Regimento de Infantaria 13 realizavam-se nuns terrenos, de mato e pinhal, que distam uns três a quatro quilómetros do limite da cidade de Vila Real, em área da freguesia de Adoufe, num lugar chamado Gravelos, que se situa naquela faixa de terreno que fica entre a estrada nacional número 2 e o rio Corgo. Para quem se dirige no sentido de Vila Pouca de Aguiar, a sua localização é do lado direito da estrada e na margem direita do referido rio Corgo.
No dia vinte e um de Junho, terça-feira, logo de manhã, o conjunto das três companhias de instrução, com um total de dezoito pelotões, e com espaços de cerca de meia hora entre cada uma delas, saíram a porta de armas em marcha a toque de caixa. Todos os recrutas carregavam arma, a mauser equipada com sabre, a mochila e o cantil.
Embora o espaço do acampamento fosse o mesmo, cada uma das três companhias ficou isolada das restantes. Impunha-se esta distribuição para efeitos de exercícios recíprocos. Os recrutas envergaram todos os seus equipamentos individuais, como já referido: arma com sabre, mochila e cantil.
No que respeita a equipamentos colectivos, como cozinha, tendas dormitório dos oficiais, posto de comando e outros, tudo seguiu em camiões militares, GMCs e Macks. Cada grupo de três soldados organizar-se-ia em conjunto e, com as três tendas individuais formariam uma tenda colectiva para o grupo.
Foi-lhes aqui ministrada a respectiva instrução de como se montava e desmontava uma tenda de e em campanha. A par deste tipo de instrução quanto à montagem e desmontagem da tenda de campanha, uma outra surgiu pela primeira vez, e esta foi a de terçar armas.
Um militar não larga a sua arma de qualquer maneira, em qualquer posição, ou em qualquer sítio. Sempre que a não segura com os seus próprios braços, esta tem dignidade especial e só deve ser colocada em repouso conjuntamente com outras da mesma espécie. Chama-se a isto terçar armas, e consiste em agrupar conjuntos de três e colocá-las como quem faz uma pilha, formando uma espécie de pirâmide, unindo-as umas às outras pelas frechas que são formadas pelo cano e pela espoleta.
Não deve ignorar-se que é exactamente por isso que cada tenda alberga três militares, e o terço de armas terá que ser constituído, como não podia deixar de ser, pelas três respectivas unidades de armamento.
A semana de monte decorreu entre terça e sexta-feira daquela quarta semana de Junho. O mês de Junho de 1966 foi um mês rico em número de semanas, já que se estendeu ao longo de cinco. A quarta semana, que foi aquela em que os recrutas, de que aqui vimos falando, passaram no monte, decorreu entre os dias dezanove, domingo, e vinte e quatro, sexta-feira.
Foi uma das semanas mais ricas em termos de experiência, quer militar quer humana. O José Capelo dividiu a tenda com dois camaradas de pelotão, com os quais praticamente ainda não tinha trocado quaisquer palavras, que não fossem aquelas de mera circunstância, sempre que se cruzavam, em especial na instrução de tiro ou de aplicação militar, já que, na formatura, nunca ficavam próximos, por ambos serem um pedaço mais baixos do que ele.
Porém, durante estes quatro dias de campo, foram camaradas residentes da mesma tenda. Terçaram armas sempre que foi preciso e, como aqui não se formava por alturas, mantiveram-se sempre unidos em todos os exercícios em que participaram, fossem eles diurnos, ou nocturnos.
Aqueles dois camaradas do Zé eram: o António Pereira de Sousa, natural da freguesia de Vale da Madre, concelho de Mogadouro, e o Aníbal Zorrinho de Almeida, natural da freguesia de Ervedosa do Douro, concelho de S. João da Pesqueira.
Dormiram juntos, no interior da mesma tenda, aquelas três noites, sempre vestidos, botas calçadas, com os atacadores bem apertados e com as armas estendidas, junto de cada qual, com a bandoleira entrelaçada num dos braços. Este especial cuidado com a arma devia-se ao facto de ser sabido que, uma vez ou outra, havia um oficial de dia que tentava fazer uma graça, furtando a arma a qualquer recruta que mostrasse algum descuido ou distracção.
(continua)

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